O Salmo 66 é um grande convite ao louvor. Começa chamando toda a terra para aclamar a Deus, recorda as maravilhas do Êxodo, fala de um tempo de provação que purificou o povo e termina com o testemunho pessoal de quem foi ouvido. É a passagem do nós ao eu: o que Deus fez pelo povo, ele faz também por cada um.
Contexto do Salmo 66
Na numeração litúrgica, que segue a Vulgata e a Bíblia grega, este é o Salmo 65. O título hebraico diz apenas que é um cântico, um salmo, para o mestre de canto. Diferente dos salmos vizinhos, não traz o nome de Davi. Na Bíblia da CNBB o título está no versículo 1, junto com o início do texto, e o salmo vai até o versículo 20.
É um hino de louvor que se transforma em ação de graças individual. Muitos estudiosos pensam que foi composto para uma celebração no Templo em que alguém vinha cumprir votos depois de uma libertação, e que o louvor comunitário servia de moldura para esse testemunho. O texto não informa qual foi a provação vivida pelo povo, e é melhor não querer identificá-la com certeza.
Explicação do Salmo 66
Versículos 1 a 4: toda a terra convidada
O salmo abre com um convite amplo: toda a terra deve aclamar a Deus, cantar a glória do seu nome e dar-lhe louvor glorioso. O salmista sugere até as palavras: dizer a Deus que as suas obras são terríveis, isto é, grandiosas e capazes de causar espanto. Diante do seu poder, os inimigos se curvam, e toda a terra se prostra e canta.
A perspectiva é universal. O Deus de Israel não é um deus local; todos os povos são chamados a louvá-lo. Essa abertura prepara o anúncio do Evangelho a todas as nações.
Versículos 5 a 7: a passagem do mar
O convite agora é para vir e ver as obras de Deus. O salmista recorda que Deus transformou o mar em terra seca e que o povo atravessou o rio a pé. São duas lembranças: a travessia do mar Vermelho na saída do Egito (Ex 14) e a travessia do Jordão na entrada da terra prometida (Js 3). Por isso o povo se alegra nele.
O versículo 7 afirma que Deus governa para sempre com o seu poder e vigia as nações, e adverte os rebeldes para não se levantarem. A história de Israel é apresentada como prova do domínio de Deus sobre o mundo.
Versículos 8 a 12: a prova que purifica
Os povos são chamados a bendizer a Deus, que manteve o seu povo com vida e não deixou seus pés vacilarem. Em seguida o salmo fala de uma provação: Deus provou o povo como se prova a prata, levou-o à rede, pôs um peso sobre seus ombros, deixou que homens passassem por cima de suas cabeças. O povo passou pelo fogo e pela água.
A imagem do fogo que purifica a prata é frequente na Bíblia (Pr 17,3; Ml 3,3; 1Pd 1,7). O salmo não diz que Deus se diverte com o sofrimento, mas que, dentro da provação, ele trabalha para purificar o seu povo. E a prova termina bem: Deus fez o povo sair para a abundância. O fogo e a água, que podiam destruir, se tornam passagem para a vida.
Versículos 13 a 15: o cumprimento dos votos
Aqui o salmo muda de voz. Já não é o povo que fala, mas uma pessoa. Ela vai entrar na casa de Deus com holocaustos para cumprir os votos que os lábios pronunciaram na hora da angústia. Fala de animais gordos, carneiros, bois e cabritos. É uma oferta generosa, à altura da graça recebida.
O holocausto era o sacrifício em que o animal era inteiramente queimado, sinal de entrega total a Deus. Para o leitor cristão, esses sacrifícios antigos apontam para a oferta única de Cristo, que se entregou inteiramente ao Pai (Hb 10,10).
Versículos 16 a 20: vinde ouvir o que ele fez por mim
O fiel convida todos os que temem a Deus a ouvirem o seu testemunho. Ele clamou ao Senhor, e o louvor já estava na sua língua. Então faz uma observação importante: se tivesse guardado maldade no coração, o Senhor não o teria escutado. Mas Deus o ouviu e atendeu à sua súplica.
A frase não significa que só os perfeitos são ouvidos. Significa que a oração precisa de sinceridade. Quem reza enquanto acaricia o mal no coração está dividido. O salmo termina com uma bênção: bendito seja Deus, que não rejeitou a oração nem afastou o seu amor.
O que o Salmo 66 ensina para a fé católica?
O Salmo 66 mostra que a história da salvação é também a história de cada fiel. As maravilhas do Êxodo são lidas pela Igreja como figura do Batismo: a passagem pela água que liberta da escravidão do pecado (1Cor 10,1-2). Assim, quando o salmo fala do povo que atravessou o mar, o cristão pode pensar no próprio Batismo.
A leitura católica das provações segue a mesma linha: o sofrimento não é bom em si, mas, unido a Cristo, pode purificar e fazer amadurecer a fé. São Pedro usa a mesma imagem do ouro provado no fogo para falar da fé dos cristãos (1Pd 1,6-7).
O testemunho final ensina a ação de graças como resposta à oração atendida. O Catecismo lembra que a ação de graças caracteriza a oração da Igreja e que cada acontecimento pode tornar-se oferta de ação de graças (CIC n. 2637 e 2638). A Igreja reza este salmo na Liturgia das Horas, e nele aprende a contar as maravilhas de Deus.
Reflexão para hoje
Todos passamos por fogo e água: doenças, crises no casamento, dificuldades financeiras, perdas. O Salmo 66 não esconde essas provações, mas as olha a partir do fim: Deus nos fez sair para a abundância. Lembrar das vezes em que Deus já nos tirou de situações difíceis dá coragem para enfrentar as de hoje.
O salmo também ensina a cumprir promessas. Na hora do aperto, é fácil prometer muita coisa a Deus. Passada a dificuldade, é fácil esquecer. O salmista volta ao Templo e cumpre o que prometeu. Gratidão é memória que vira ação.
Por fim, o convite "vinde ouvir o que ele fez por mim" é um modelo de evangelização simples. Contar com humildade o que Deus fez na nossa vida, em família, entre amigos, pode tocar mais do que muitos argumentos.
Para rezar com o Salmo 66
- Por quais provações já passei em que hoje consigo ver a mão de Deus?
- Fiz alguma promessa a Deus que ainda não cumpri?
- A quem eu poderia contar, com simplicidade, o que Deus fez por mim?
Sugestão de oração:
Senhor, toda a terra te aclama, e eu também quero te louvar. Tu me fizeste passar pelo fogo e pela água e me levaste à abundância. Purifica o meu coração de toda maldade, para que minha oração seja sincera. Bendito sejas, porque não rejeitaste a minha prece nem afastaste de mim o teu amor. Amém.
Fontes
Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 2637 e 2638.
Perguntas sobre Salmo 66
O que significa o Salmo 66?
O que quer dizer 'provaste-nos como se prova a prata'?
Por que o Salmo 66 diz que Deus não ouviria quem tem maldade no coração?
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