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Salmo 31: em tuas mãos entrego o meu espírito

Leia Salmo 31 na sua Bíblia e acompanhe aqui a explicação, o que a Igreja ensina e uma reflexão para rezar.

O rei Davi toca a harpa cercado de anjos
Hendrick ter Brugghen, O rei Davi tocando harpa entre anjos, 1628. Domínio público, via Wikimedia Commons.

O Salmo 31 é a oração de alguém cercado de perigos, abandonado pelos amigos e alvo de calúnias, que decide se refugiar em Deus. Dele vêm as palavras que Jesus rezou ao morrer na cruz: em tuas mãos entrego o meu espírito. É um salmo que passa da angústia à confiança e termina num convite à coragem.

Contexto do Salmo 31

Na numeração litúrgica, que segue a tradução grega e a Vulgata, ele é o Salmo 30. O título hebraico o dedica ao mestre de canto e o atribui a Davi, segundo a tradição. Não há indicação de uma situação histórica precisa.

É uma súplica individual misturada com ação de graças. O orante alterna pedidos e louvores, como se rezasse em dois tempos: o da aflição e o da certeza de ter sido ouvido. Muitas expressões lembram o profeta Jeremias, que também fala do terror por todos os lados (Jr 20,10). A Igreja reza este salmo na Sexta-feira Santa, como salmo responsorial, e o versículo da entrega forma o responsório breve das Completas, a oração antes de dormir.

Explicação do Salmo 31

Versículo 1: o título

O título indica o uso no culto (ao mestre de canto) e a ligação com Davi. Na Bíblia da CNBB ele conta como versículo 1, por isso a oração começa no versículo 2.

Versículos 2 a 9: Deus, rochedo e refúgio

O salmista se abriga em Deus e pede para não ser envergonhado. Usa imagens de defesa militar: rochedo, fortaleza, cidadela. Pede que Deus o tire da rede que lhe armaram em segredo. No centro está a frase que atravessou os séculos: “Em tuas mãos entrego o meu espírito; tu me resgataste, Senhor, Deus fiel” (Sl 31,6).

A palavra espírito aqui significa o sopro de vida, a própria existência. Entregar o espírito nas mãos de alguém é confiar a ele a própria vida, como se deposita um tesouro com quem é digno de confiança. O orante rejeita os ídolos vazios e se alegra porque Deus viu a sua miséria e não o entregou ao inimigo, mas pôs seus pés num lugar espaçoso, imagem de liberdade.

Versículos 10 a 14: o retrato da angústia

O tom muda. O salmista descreve seu estado: olhos gastos de tanto chorar, vida consumida pela tristeza, anos passados entre gemidos, ossos enfraquecidos. Pior que a dor física é a solidão. Tornou-se motivo de zombaria para os vizinhos e de medo para os conhecidos; quem o vê na rua foge. Sente-se esquecido como um morto, como um vaso quebrado. Ouve cochichos e conspirações contra sua vida. É a experiência de quem é rejeitado por todos.

Versículos 15 a 19: os meus dias estão em tuas mãos

Mesmo assim, ele afirma: tu és o meu Deus. Diz que seu destino está nas mãos do Senhor, retomando a imagem das mãos do versículo 6. Pede que Deus faça brilhar sua face sobre o servo, eco da bênção sacerdotal de Números 6,25. Pede também que os mentirosos e arrogantes se calem. Não é vingança pessoal: é o desejo de que a mentira perca a força diante da verdade de Deus.

Versículos 20 a 25: louvor e convite à coragem

A súplica termina em ação de graças. O salmista exclama como é grande a bondade que Deus guarda para quem o teme, e lembra que Deus esconde os seus no segredo de sua presença, longe das intrigas humanas. Confessa que, na hora do pânico, chegou a pensar que estava longe dos olhos de Deus, mas foi ouvido. Por fim, convida a comunidade a amar o Senhor e encerra com um apelo: sede fortes e tende coragem, vós todos que esperais no Senhor.

O que o Salmo 31 ensina para a fé católica?

A leitura cristã deste salmo é guiada pelo próprio Jesus. Segundo São Lucas, sua última palavra na cruz foi: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23,46). Jesus rezou com o Salmo 31 e acrescentou a palavra Pai. O Catecismo, ao comentar as palavras de Jesus na cruz, diz que nelas orar e dar-se coincidem (CIC n. 2605). A morte de Cristo não foi um fracasso sem sentido, mas uma entrega filial e livre. Veja o relato em Lucas 23.

Por isso o salmo ensina como o cristão pode viver a hora da morte e cada noite, que é uma pequena imagem dela. Ao rezar as Completas, a Igreja repete todos os dias a entrega do versículo 6. Santo Estêvão, o primeiro mártir, morreu com uma oração parecida, entregando o espírito ao Senhor Jesus (At 7,59).

O salmo também mostra que a confiança não elimina o sofrimento. O orante chora, sente-se esquecido, tem medo. A fé não exige fingir que tudo está bem: ela leva a dor para dentro da oração. O Catecismo lembra que os salmos, rezados por Cristo e nele realizados, continuam essenciais para a oração da Igreja (CIC n. 2586).

Reflexão para hoje

Há fases em que tudo parece desmoronar: a doença, o desemprego, a calúnia no trabalho, o afastamento de amigos. O Salmo 31 dá palavras para esses dias. Ele não pede que a gente esconda a tristeza; ao contrário, descreve com honestidade o cansaço e a solidão. Mas, no meio da descrição, aparece o ponto de virada: tu és o meu Deus.

A frase os meus dias estão em tuas mãos pode ser rezada quando a agenda foge do controle ou quando o futuro assusta. Ela não é resignação passiva. É decidir onde colocar o peso da vida. Quem entrega a Deus o que não consegue resolver continua trabalhando e lutando, mas sem carregar sozinho o que só Deus pode sustentar.

Um hábito simples ajuda: antes de dormir, repetir em silêncio em tuas mãos, Senhor, entrego o meu espírito. É uma forma de encerrar o dia, confiando a Deus os problemas que ficaram sem solução e as pessoas que nos preocupam. Quem aprende a se entregar todas as noites aprende, aos poucos, a se entregar também na hora final.

Para rezar com o Salmo 31

  • Que situação da minha vida eu preciso entregar hoje nas mãos de Deus?
  • Quando me sinto esquecido ou incompreendido, levo isso para a oração ou guardo só para mim?
  • Como posso ser apoio para alguém que está vivendo a solidão descrita neste salmo?

Sugestão de oração:

Senhor, meu rochedo e meu refúgio, coloco em tuas mãos a minha vida, o meu dia e as pessoas que amo. Quando o medo me cercar, faze brilhar sobre mim a tua face. Dá-me a confiança de Jesus, que se entregou ao Pai na cruz, e a coragem de quem espera em ti. Amém.

Fontes

Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica.

Perguntas sobre Salmo 31

Qual salmo diz em tuas mãos entrego o meu espírito?

É o Salmo 31, versículo 6 (Salmo 30 na numeração litúrgica). Jesus rezou essas palavras na cruz, acrescentando a palavra Pai, segundo Lucas 23,46.

Quando o Salmo 31 é rezado na liturgia?

Ele é o salmo responsorial da Sexta-feira Santa. O versículo da entrega também é o responsório breve das Completas, a oração da noite da Liturgia das Horas.

O Salmo 31 é um salmo de tristeza ou de confiança?

É as duas coisas. O salmista descreve com franqueza a angústia e a solidão, mas a oração termina em louvor e num convite à coragem para todos os que esperam no Senhor.

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