O Salmo 24 celebra o Senhor, dono de toda a terra, e pergunta quem pode subir ao seu monte santo. A resposta é: quem tem mãos inocentes e coração puro. No final, as portas da cidade são convidadas a se abrir para que entre o Rei da glória.
Contexto do Salmo 24
Na numeração litúrgica e da Vulgata, ele é o Salmo 23. O título hebraico o atribui a Davi, segundo a tradição. É um salmo litúrgico, que muitos estudiosos ligam a uma procissão de entrada no Templo de Jerusalém, talvez com a arca da aliança, sinal da presença de Deus. A história de Davi levando a arca para Jerusalém (2Sm 6) costuma ser lembrada como pano de fundo, mas o salmo não a menciona diretamente.
O texto parece ter várias vozes: os peregrinos que chegam, os sacerdotes que respondem na porta, o coro que aclama. Por isso tem forma de diálogo.
Explicação do Salmo 24
Versículos 1 e 2: do Senhor é a terra
“Do Senhor é a terra e tudo o que ela contém, o mundo e os que nele habitam” (cf. Sl 24,1). O salmo começa com uma profissão de fé no Criador. Ele fundou a terra sobre os mares e a firmou sobre as águas. Na imagem antiga do mundo, as águas eram símbolo do caos; Deus as dominou e fez delas o alicerce da terra habitável.
Essa frase lembra que nada é nosso de modo absoluto. Tudo pertence a Deus. São Paulo a cita quando diz que os cristãos podem comer de tudo o que se vende no mercado, porque tudo vem do Senhor (1Cor 10,26).
Versículos 3 a 6: quem subirá ao monte do Senhor?
Os peregrinos perguntam: quem pode subir ao monte do Senhor, quem pode ficar no seu lugar santo? A resposta vem em quatro traços: mãos inocentes, coração puro, não entregar a alma à vaidade, isto é, aos ídolos, e não jurar falsamente.
As mãos falam das ações; o coração, das intenções; a recusa dos ídolos, da fidelidade a Deus; o juramento verdadeiro, da honestidade com o próximo. Não basta o rito exterior de entrar no Templo: é preciso a vida reta. Jesus dirá: felizes os puros de coração, porque verão a Deus (Mt 5,8). O Salmo 15 faz pergunta parecida.
Quem vive assim recebe a bênção e a justiça de Deus. O versículo 6 descreve essa geração como a dos que buscam a face do Deus de Jacó. Buscar a face de Deus era expressão para ir ao Templo e, mais profundamente, para desejar a sua presença.
Versículos 7 a 10: o Rei da glória
Agora a procissão chega às portas. Um coro grita: portas, levantai os vossos frontões; elevai-vos, portais antigos, para que entre o Rei da glória! Da parte de dentro, alguém pergunta: quem é esse Rei da glória? A resposta: o Senhor, forte e valente, o Senhor valente nas batalhas.
O diálogo se repete, e a resposta final é ainda mais solene: o Senhor dos exércitos, ele é o Rei da glória. “Senhor dos exércitos” é um título que fala de Deus como soberano sobre todas as forças do céu e da terra. A imagem das portas que se levantam é poética: o Rei é tão grande que as portas parecem pequenas para ele.
O que o Salmo 24 ensina para a fé católica?
O salmo ensina que tudo pertence a Deus, e que só pode estar na sua presença quem busca a santidade de vida. A liturgia não substitui a conversão do coração; ela a pede e a alimenta.
A Igreja leu a entrada do Rei da glória à luz de Cristo. O Catecismo, ao falar da entrada de Jesus em Jerusalém no Domingo de Ramos, lembra este salmo: o Rei da glória entra na sua cidade montado num jumentinho (CIC n. 559). Na tradição dos Padres da Igreja, os versículos 7 a 10 foram aplicados também à Ascensão, quando Cristo entra no céu com a nossa humanidade.
Na Liturgia das Horas, o Salmo 24 é um dos salmos que podem ser usados como invitatório, a abertura da primeira oração do dia, no lugar do Salmo 95. Assim, cada manhã, a Igreja abre as portas do dia para que entre o Rei da glória. Saiba mais na introdução à Liturgia das Horas para leigos.
Reflexão para hoje
A pergunta “quem subirá ao monte do Senhor?” vale para cada domingo. Vamos à Missa, entramos na igreja, fazemos o sinal da cruz. Mas que mãos e que coração levamos? O salmo não quer nos afastar de Deus por sermos imperfeitos. Quer que a nossa ida ao templo seja também um desejo de mudar de vida. Por isso a Missa começa com o ato penitencial.
“Não entregar a alma à vaidade” é uma expressão atual. Há ídolos modernos que pedem a nossa alma: a aparência, o sucesso, a opinião dos outros, o consumo. Buscar a face de Deus é escolher outro centro.
E o final do salmo pode ser lido como pergunta pessoal: as portas do meu coração estão abertas para o Rei da glória? Às vezes as fechamos por medo, por orgulho, por cansaço. Cristo não força a entrada; ele espera que as portas se levantem.
Para rezar com o Salmo 24
- Lembro que tudo o que tenho pertence a Deus, inclusive o meu tempo e os meus talentos?
- Que ídolos têm pedido a minha alma hoje?
- Que porta do meu coração preciso abrir para o Rei da glória entrar?
Sugestão de oração:
Senhor, a terra e tudo o que ela contém são teus. Dá-me mãos inocentes e um coração puro, para que eu possa estar na tua presença. Livra-me dos ídolos que querem a minha alma. Abro hoje as portas da minha vida para ti, Rei da glória: entra e reina em mim. Amém.
Fontes
Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica; Liturgia das Horas.
Perguntas sobre Salmo 24
Quem pode subir ao monte do Senhor, segundo o Salmo 24?
Quem é o “Rei da glória” do Salmo 24?
Por que o Salmo 24 fala de portas que se levantam?
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