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Salmo 143: não entres em julgamento com teu servo

Leia Salmo 143 na sua Bíblia e acompanhe aqui a explicação, o que a Igreja ensina e uma reflexão para rezar.

O rei Davi toca a harpa cercado de anjos
Hendrick ter Brugghen, O rei Davi tocando harpa entre anjos, 1628. Domínio público, via Wikimedia Commons.

O Salmo 143 é a súplica de quem se sente esmagado pelo inimigo e reconhece que, diante de Deus, nenhum ser humano é justo. O salmista pede que o Senhor não o julgue segundo os seus méritos, mas o escute pela sua fidelidade. Recorda as obras antigas de Deus, estende as mãos como terra seca que espera chuva e pede: ensina-me a fazer a tua vontade.

Contexto do Salmo 143

Na numeração litúrgica, usada pela Vulgata e por muitos livros de oração, este é o Salmo 142. O título hebraico diz apenas: salmo de Davi, atribuição que deve ser entendida como tradição. É uma súplica individual, com muitos pontos de contato com outros salmos.

A tradição cristã o conta entre os sete salmos penitenciais, junto com os Salmos 6, 32, 38, 51, 102 e 130. É o último deles. Esses salmos foram reunidos pela Igreja como orações de arrependimento e confiança na misericórdia de Deus, e são rezados especialmente na Quaresma e em momentos de conversão. O Salmo 143 não fala de um pecado concreto como o Salmo 51, mas parte da consciência de que ninguém pode se apresentar a Deus com direito próprio.

Explicação do Salmo 143

Versículos 1 e 2: ninguém é justo diante de ti

O salmista pede que Deus escute a sua oração, preste atenção à sua súplica, e responda pela sua fidelidade e pela sua justiça. Ele não apela aos próprios méritos, mas ao caráter de Deus. E logo acrescenta: “Não entres em julgamento com o teu servo, pois nenhum vivente é justo diante de ti” (Sl 143,2).

É uma confissão humilde. Se Deus fosse medir cada vida com rigor, ninguém resistiria. São Paulo retomou essa ideia ao ensinar que ninguém é justificado pelas obras da Lei, mas pela fé em Cristo (Rm 3,20; Gl 2,16). A justiça de Deus, aqui, não é a de um juiz que condena, mas a fidelidade de quem salva.

Versículos 3 e 4: esmagado pelo inimigo

Em seguida, o salmista descreve a sua situação. O inimigo o persegue, esmaga a sua vida por terra, faz com que habite nas trevas como os que morreram há muito tempo. O seu espírito desfalece, o coração está paralisado por dentro. É uma imagem de depressão profunda, de quem se sente enterrado em vida.

Versículos 5 e 6: a memória e a sede

No meio da escuridão, o salmista faz memória. Lembro-me dos dias antigos, medito em todas as tuas obras, reflito sobre o que as tuas mãos fizeram. Recordar as ações de Deus no passado reacende a esperança no presente.

Então vem um gesto e uma imagem. Estendo as minhas mãos para ti; a minha alma tem sede de ti como terra seca. Quem conhece a seca sabe como a terra rachada parece pedir a chuva. Assim está a alma: rachada, esperando a água de Deus. O Salmo 63 usa uma imagem parecida (Sl 63,2).

Versículos 7 e 8: responde depressa

Os pedidos se tornam urgentes. Responde-me depressa, Senhor, o meu espírito se acaba. Não escondas de mim o teu rosto. E um pedido muito bonito: faze-me ouvir pela manhã o teu amor, porque em ti confio. A manhã, na Bíblia, é muitas vezes o momento da salvação, depois da noite de angústia. Mostra-me o caminho a seguir, porque a ti elevo a minha alma.

Versículos 9 e 10: ensina-me a fazer a tua vontade

O salmista pede libertação dos inimigos e encontra abrigo em Deus. Mas o pedido mais profundo vem no versículo 10: ensina-me a fazer a tua vontade, porque tu és o meu Deus. Que o teu bom espírito me guie por terreno plano. Ele não pede apenas para sair do sofrimento; pede para ser transformado por dentro, para viver segundo Deus.

Versículos 11 e 12: por causa do teu nome

O final pede vida e libertação por causa do nome do Senhor, pela sua justiça e pelo seu amor. O salmista pede também que Deus destrua os seus adversários, e termina com uma identidade: porque eu sou teu servo. O pedido contra os inimigos é a linguagem do Antigo Testamento para dizer que o mal deve ser vencido; o cristão o reza à luz do mandamento de Jesus de amar os inimigos (Mt 5,44).

O que o Salmo 143 ensina para a fé católica?

O versículo 2 é um dos fundamentos bíblicos da doutrina da graça. Ninguém pode se salvar sozinho nem exigir de Deus a salvação como pagamento. Tudo é dom. Por isso a Igreja reza este salmo como penitencial: o arrependimento verdadeiro começa quando deixamos de nos justificar e nos entregamos à misericórdia de Deus.

O versículo 10 aproxima o salmo do Pai-Nosso: seja feita a vossa vontade. E a menção ao bom espírito que guia o orante foi lida pela tradição cristã à luz do Espírito Santo, que conduz os filhos de Deus (Rm 8,14). A oração não é só pedir coisas, mas pedir para ser moldado por Deus.

O Catecismo ensina que o Saltério é o livro em que a Palavra de Deus se torna oração do homem (CIC n. 2587). Neste salmo, a palavra se faz pedido de perdão, de luz e de conversão.

Reflexão para hoje

Muitas pessoas vivem cansadas de tentar ser perfeitas. Cobram de si mesmas o tempo todo e se sentem sempre em dívida. O Salmo 143 traz alívio: diante de Deus, ninguém é justo por conta própria, e não precisa ser. O caminho é reconhecer a própria pobreza e confiar no amor de Deus. Isso não é desculpa para o pecado, mas libertação do peso de se salvar sozinho.

O salmo também fala a quem atravessa a depressão ou um longo tempo de tristeza. A sensação de estar nas trevas, com o coração paralisado, é descrita com realismo. E a resposta não é fingir alegria, mas estender as mãos como terra seca e pedir, todas as manhãs, para ouvir o amor de Deus. Buscar ajuda humana e médica também faz parte desse caminho; Deus age por meio das pessoas.

Para rezar com o Salmo 143

  • Tento me justificar diante de Deus, ou me entrego com humildade à sua misericórdia?
  • Que obras de Deus no meu passado eu posso recordar para renovar a esperança?
  • Estou disposto a pedir não só a solução dos meus problemas, mas a graça de fazer a vontade de Deus?

Sugestão de oração:

Senhor, não me julgues pelos meus méritos, mas escuta-me pela tua fidelidade. A minha alma tem sede de ti como terra seca. Faze-me ouvir pela manhã o teu amor, ensina-me a fazer a tua vontade e que o teu bom Espírito me guie por caminho plano. Eu sou teu servo. Amém.

Leia também o Salmo 142 e o Salmo 144. Para rezar outro salmo penitencial, veja o Salmo 51, e para preparar a confissão, o Ato de contrição.

Fontes

Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 2587.

Perguntas sobre Salmo 143

O Salmo 143 é um salmo penitencial?

Sim. É o último dos sete salmos penitenciais da tradição cristã, junto com os Salmos 6, 32, 38, 51, 102 e 130.

O que significa nenhum vivente é justo diante de ti?

Que ninguém pode se apresentar a Deus exigindo a salvação pelos próprios méritos. São Paulo retoma essa ideia ao falar da justificação pela fé em Cristo.

Qual é o pedido central do Salmo 143?

Além da libertação, o salmista pede: ensina-me a fazer a tua vontade. Ele quer ser guiado pelo bom espírito de Deus.

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