O Salmo 142 é a oração de alguém que se sente totalmente sozinho. Perseguido e sem forças, o salmista derrama diante de Deus a sua queixa, olha ao redor e não encontra ninguém que se importe com ele. Então declara que o Senhor é o seu refúgio e a sua porção na terra dos vivos, e pede para ser tirado da prisão em que se encontra.
Contexto do Salmo 142
Na numeração litúrgica, usada pela Vulgata e por muitos livros de oração, este é o Salmo 141. O título hebraico diz: poema de Davi, quando estava na caverna; oração. A atribuição a Davi é tradição, mas o próprio título situa o salmo num momento da vida dele: o tempo em que fugia do rei Saul e se escondia em cavernas no deserto. Os livros de Samuel narram dois episódios assim, na caverna de Odolam (1Sm 22,1) e na caverna de Engadi (1Sm 24).
O gênero é uma súplica individual. Na Bíblia da CNBB, o título conta como versículo 1, e a oração começa no versículo 2. O salmo é curto e muito pessoal. Não descreve longamente os inimigos; concentra-se na solidão do orante e na sua confiança em Deus. O Salmo 57 também é ligado, pelo título, a Davi na caverna.
Explicação do Salmo 142
Versículos 2 e 3: derramar a queixa
O salmista começa em voz alta: com a minha voz clamo ao Senhor, com a minha voz suplico ao Senhor. A repetição mostra intensidade. Ele não reza apenas em silêncio; grita. Em seguida, usa uma imagem forte: derramo diante dele a minha queixa, exponho diante dele a minha angústia. Derramar é esvaziar tudo, sem guardar nada, como quem vira um vaso.
A Bíblia não tem medo da queixa. Ana, mãe de Samuel, disse que estava derramando a alma diante do Senhor (1Sm 1,15). Queixar-se a Deus não é falta de fé; é confiar nele o suficiente para dizer a verdade.
Versículos 4 e 5: ninguém se importa comigo
Quando o espírito do salmista desfalece, ele sabe que Deus conhece o seu caminho. No caminho por onde anda, esconderam uma armadilha. Ele olha para a direita, lugar onde costumava ficar o defensor no tribunal, e não há ninguém que o reconheça. Não há refúgio, ninguém se preocupa com a sua vida.
É uma das descrições mais duras da solidão em toda a Bíblia. Não é só estar fisicamente sozinho numa caverna; é sentir que ninguém no mundo se importa. Mas, no meio desse vazio, há uma certeza: tu conheces o meu caminho.
Versículo 6: tu és o meu refúgio
Aqui está o coração do salmo: “Tu és o meu refúgio, a minha porção na terra dos vivos” (Sl 142,6). A palavra porção lembra a partilha da terra entre as tribos de Israel. A tribo de Levi não recebeu terra, porque o próprio Senhor era a sua herança (Nm 18,20). O salmista, que perdeu tudo, descobre que ainda tem o essencial: o próprio Deus.
Versículos 7 e 8: tira-me da prisão
Os pedidos finais são urgentes. Atende ao meu clamor, porque estou muito abatido. Livra-me dos que me perseguem, porque são mais fortes do que eu. Tira a minha alma da prisão, para que eu dê graças ao teu nome. A prisão pode ser a caverna, mas também a angústia que aprisiona por dentro.
O salmo termina com esperança: os justos vão me rodear quando me fizeres o bem. Aquele que se sentia sozinho imagina-se, no fim, cercado de irmãos que celebram com ele a salvação.
O que o Salmo 142 ensina para a fé católica?
A Igreja reza este salmo na Liturgia das Horas, nas Primeiras Vésperas do domingo da primeira semana do saltério, logo depois do Salmo 141. Ele ensina que a oração pode nascer do abandono e da escuridão, e que Deus está presente mesmo quando ninguém mais está.
Os cristãos sempre leram este salmo pensando também em Cristo. No Getsêmani e na Paixão, Jesus experimentou a solidão: os discípulos dormiram, fugiram, um o negou (Mc 14,37-50). Ninguém ficou à sua direita para defendê-lo. E, ainda assim, ele entregou a sua vida nas mãos do Pai. Quem reza o Salmo 142 nas horas de abandono reza unido a Cristo.
O versículo 6 expressa uma verdade central da vida espiritual: Deus é a nossa verdadeira herança. O Catecismo ensina que os salmos são o espelho das situações humanas vividas pelo salmista e, por isso, podem ser rezados por todos (CIC n. 2588). Este salmo é a oração de todo aquele que se sente encurralado.
Reflexão para hoje
Há muitas cavernas na vida de hoje. A depressão que isola. O desemprego que tira o chão. A doença que afasta os amigos. A velhice em que as visitas rareiam. Quem passa por isso conhece a sensação descrita no versículo 5: olho ao redor e ninguém se importa.
O Salmo 142 não oferece uma solução mágica. Ele ensina a fazer duas coisas. A primeira é derramar a queixa diante de Deus, sem filtro. A segunda é lembrar que, mesmo quando tudo foi tirado, o Senhor continua sendo a nossa porção. E o salmo deixa uma tarefa para quem está do lado de fora: ser o justo que rodeia o irmão quando ele sai da caverna. Uma visita, um telefonema, um café podem ser resposta de Deus a quem reza este salmo.
Para rezar com o Salmo 142
- Qual é a caverna que me aprisiona hoje? Já tive coragem de derramar essa queixa diante de Deus?
- Consigo dizer com sinceridade que o Senhor é a minha porção, mais do que as coisas que perdi?
- Quem, perto de mim, pode estar se sentindo sozinho e precisando da minha presença?
Sugestão de oração:
Senhor, quando ninguém parece se importar comigo, tu conheces o meu caminho. Eu derramo diante de ti a minha angústia. Tu és o meu refúgio e a minha herança. Tira-me da prisão do medo e da solidão, e coloca ao meu redor irmãos que me ajudem a te louvar. Amém.
Leia também o Salmo 141, rezado com ele nas Vésperas, e o Salmo 143. Para conhecer o episódio da caverna, veja 1 Samuel 24.
Fontes
Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 2588; Liturgia das Horas.
Perguntas sobre Salmo 142
Qual caverna é mencionada no título do Salmo 142?
O que significa dizer que Deus é a minha porção?
Quando o Salmo 142 é rezado na Liturgia das Horas?
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