O Salmo 118 é um grande canto de ação de graças pela vitória que Deus concedeu. Começa e termina com o refrão eterno é o seu amor, conta a salvação de alguém cercado de inimigos e chega a uma procissão festiva até o templo. Nele estão frases que o Novo Testamento aplicou a Jesus: a pedra rejeitada que se tornou pedra angular, bendito o que vem em nome do Senhor e este é o dia que o Senhor fez.
Contexto do Salmo 118
Na numeração litúrgica e da Vulgata, ele é o Salmo 117. Não traz título nem autor. É um salmo de ação de graças com forma litúrgica: alterna vozes, como as de um solista e de um coro, e parece acompanhar uma procissão que entra pelas portas do templo.
Fecha o Hallel, os Salmos 113 a 118, que a tradição judaica canta nas grandes festas. Muitos o associam à festa das Tendas, por causa dos ramos e da procissão, e também à Páscoa. Quem fala pode ser o rei, depois de uma batalha, ou o povo personificado; os estudiosos discutem. O certo é que um eu fala em nome de todos e convida a comunidade a agradecer.
Explicação do Salmo 118
Versículos 1 a 4: eterno é o seu amor
O salmo abre com a fórmula: dai graças ao Senhor porque ele é bom, eterno é o seu amor. Três grupos são chamados a repetir o refrão: Israel, a casa de Aarão, isto é, os sacerdotes, e os que temem o Senhor. É a mesma divisão do Salmo 115. Todos têm motivo para proclamar o amor fiel de Deus.
Versículos 5 a 9: melhor confiar no Senhor
O orante conta: na angústia invoquei o Senhor, e ele me respondeu e me pôs em lugar espaçoso. A angústia, em hebraico, sugere aperto; a salvação é largueza. O Senhor está comigo, não temo; que pode me fazer o homem? A Carta aos Hebreus retoma essa confiança (Hb 13,6). Daí a conclusão sapiencial: é melhor refugiar-se no Senhor do que confiar no homem, melhor do que confiar nos poderosos.
Versículos 10 a 14: cercado pelas nações
Todas as nações me cercaram, diz ele, e em nome do Senhor eu as derrotei. A frase se repete com força crescente: cercaram por todos os lados, cercaram como abelhas, arderam como fogo de espinhos, que queima rápido e se apaga. Empurraram para que caísse, mas o Senhor o amparou. Então vem uma citação do cântico de Moisés depois do Mar Vermelho: o Senhor é a minha força e o meu canto, ele foi a minha salvação (Ex 15,2). A vitória pessoal é lida como um novo Êxodo.
Versículos 15 a 18: não morrerei, mas viverei
Nas tendas dos justos ressoam gritos de alegria e de vitória: a direita do Senhor fez proezas, a direita do Senhor é exaltada. E o orante declara: não morrerei, mas viverei, para contar as obras do Senhor. Reconhece que Deus o castigou duramente, mas não o entregou à morte. A provação foi correção, não abandono. A Igreja canta esses versículos no Domingo de Páscoa, porque neles ressoa a vitória de Cristo sobre a morte.
Versículos 19 a 21: as portas da justiça
Agora a procissão chega ao templo. O orante pede: abri-me as portas da justiça, quero entrar para dar graças ao Senhor. Alguém responde da porta: esta é a porta do Senhor, por ela entram os justos. Ele entra agradecendo, porque Deus o atendeu e foi a sua salvação. Jesus dirá de si mesmo: eu sou a porta (Jo 10,9).
Versículos 22 a 24: a pedra angular
“A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular” (Sl 118,22). A pedra angular era a pedra principal de uma construção, que sustenta e une as paredes, ou, segundo outros, a pedra que fecha o arco. Uma pedra considerada inútil pelos construtores acabou sendo a mais importante. Assim foi o orante, ou o povo: desprezado pelos fortes, exaltado por Deus. Isto vem do Senhor, é uma maravilha aos nossos olhos. E o povo exclama: este é o dia que o Senhor fez, alegremo-nos e nele exultemos.
Jesus cita esse versículo depois da parábola dos vinhateiros homicidas, aplicando-o a si mesmo (Mt 21,42). Pedro o anuncia diante do Sinédrio: Jesus é a pedra que vós rejeitastes e que se tornou pedra angular (At 4,11), e o retoma na sua carta (1Pd 2,7).
Versículos 25 a 29: Hosana e a procissão
Vem o grito: ó Senhor, salva-nos; ó Senhor, dá-nos prosperidade. A expressão hebraica salva-nos é hoshia na, de onde vem a palavra Hosana. Os sacerdotes respondem com a bênção: bendito o que vem em nome do Senhor; da casa do Senhor nós vos abençoamos. O Senhor é Deus, ele nos ilumina. A procissão avança com ramos até os ângulos do altar. O orante conclui: tu és o meu Deus, eu te dou graças. E o salmo termina como começou: dai graças ao Senhor, porque ele é bom, eterno é o seu amor.
O que o Salmo 118 ensina para a fé católica?
Na entrada de Jesus em Jerusalém, a multidão o aclama com as palavras deste salmo: Hosana, bendito o que vem em nome do Senhor (Mt 21,9). O Catecismo recorda essa cena e diz que a Igreja retoma essa aclamação no Santo da liturgia eucarística, para abrir o memorial da Páscoa do Senhor (CIC n. 559). Cada Missa, portanto, faz ecoar o Salmo 118.
A Igreja lê o salmo como profecia da Páscoa. Jesus é o justo cercado de inimigos, rejeitado pelos chefes, entregue à morte, mas que não ficou na morte. Ele é a pedra rejeitada que Deus tornou fundamento da Igreja. Por isso o Salmo 118 é o salmo responsorial do Domingo de Páscoa, e o refrão este é o dia que o Senhor fez para nós ressoa de modo especial na Oitava da Páscoa, abrindo o Tempo Pascal.
O salmo ensina também o sentido cristão do sofrimento. O Senhor castigou, mas não entregou à morte. As provações, unidas a Cristo, não são o fim; podem ser caminho de purificação e de vida nova.
Reflexão para hoje
Muita gente se sente uma pedra rejeitada. Quem foi desprezado na escola, deixado de lado no trabalho, julgado na família ou excluído por ser pobre conhece essa dor. O Salmo 118 diz que o olhar de Deus é diferente do olhar dos construtores. Aquilo que o mundo descarta, Deus pode colocar no centro. Foi assim com Jesus, e pode ser assim conosco.
A frase não morrerei, mas viverei é uma boa oração para os momentos de doença ou de cansaço profundo. Não é negação da morte, que um dia chegará, mas confiança em que a vida com Deus é mais forte. E o motivo de viver é dado pelo próprio salmo: contar as obras do Senhor. Cada dia a mais é ocasião de testemunhar.
Por fim, este é o dia que o Senhor fez vale para todo domingo e, de certo modo, para todo dia. Antes de reclamar do dia que começa, podemos recebê-lo como presente. Mesmo um dia difícil foi feito pelo Senhor e pode ser vivido com ele.
Para rezar com o Salmo 118
- Em que momento me senti rejeitado e descobri depois que Deus me sustentava?
- Onde eu tenho confiado mais nos homens do que no Senhor?
- Como posso viver o domingo como o dia que o Senhor fez, e não só como fim de semana?
Sugestão de oração:
Senhor, tu és bom e eterno é o teu amor. Na minha angústia eu te invoco: põe-me em lugar espaçoso. Jesus, pedra rejeitada e pedra angular, sustenta a minha vida e a da minha família. Não me deixes morrer no pecado, mas faze-me viver para contar as tuas obras. Hosana, bendito o que vem em nome do Senhor. Amém.
Fontes
Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 559; Lecionário, Domingo de Páscoa.
Perguntas sobre Salmo 118
Quem é a pedra rejeitada do Salmo 118?
Por que o Salmo 118 é cantado na Páscoa?
O que significa Hosana?
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