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Romanos 2: o julgamento de Deus e a lei no coração

Leia Romanos 2 na sua Bíblia e acompanhe aqui a explicação, o que a Igreja ensina e uma reflexão para rezar.

São Paulo, idoso e de barba branca, escreve uma carta à luz junto a um grande livro aberto
Jan Lievens, O Apóstolo Paulo, c. 1627–1629. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Romanos 2 vira o jogo do capítulo anterior. Quem aplaudia a condenação dos pagãos descobre que também está diante do julgamento de Deus. Paulo ensina que Deus não faz acepção de pessoas, que retribui a cada um segundo as suas obras e que a verdadeira pertença a Deus está no coração, não apenas nos sinais exteriores.

Contexto de Romanos 2

Este capítulo faz parte da primeira grande seção da carta (Rm 1,18 a 3,20), em que Paulo mostra que todos, pagãos e judeus, precisam da salvação trazida por Cristo. No capítulo 1 ele falou dos pagãos. Agora se dirige a um interlocutor imaginário, que no começo pode ser qualquer pessoa que julga os outros e, a partir do versículo 17, é claramente um judeu orgulhoso da Lei.

Paulo usa um estilo conhecido na época, a diatribe: faz perguntas, responde a objeções e conversa com um opositor fictício. Ele mesmo era judeu, fariseu de formação, e ama o seu povo. Não fala com desprezo, mas para mostrar que os privilégios recebidos de Deus aumentam a responsabilidade.

Explicação de Romanos 2

Versículos 1 a 5: quem julga se condena

Paulo começa de forma direta: quem julga o outro condena a si mesmo, porque faz as mesmas coisas. Quem leu a lista de pecados do capítulo 1 e pensou “graças a Deus não sou assim” recebe aqui um alerta. O ensino lembra a palavra de Jesus: não julgueis, para não serdes julgados (Mt 7,1).

Paulo fala da bondade, da tolerância e da paciência de Deus. Essa bondade não é licença para continuar pecando: ela existe para conduzir à conversão. Quem endurece o coração acumula para si ira para o dia em que se revelará o justo julgamento de Deus.

Versículos 6 a 11: Deus retribui segundo as obras

Aqui está uma frase fundamental: Deus “retribuirá a cada um segundo as suas obras” (Rm 2,6). Paulo retoma o Salmo 62 (Sl 62,13) e o livro dos Provérbios (Pr 24,12). Aos que perseveram no bem, buscando glória, honra e imortalidade, Deus dará a vida eterna. Aos que se rebelam contra a verdade e obedecem à injustiça, virá a ira.

Este trecho é importante para entender bem a carta. O mesmo Paulo que vai ensinar que somos justificados pela fé, e não pelas obras da Lei, afirma com clareza que o julgamento final levará em conta as obras. Não há contradição. As boas obras de quem vive na graça são fruto dessa graça e não são indiferentes para a salvação. O Catecismo explica que o mérito do homem diante de Deus vem do fato de Deus ter querido livremente associá-lo à obra da sua graça (CIC n. 2008). E Deus não faz acepção de pessoas: o judeu e o grego serão julgados com a mesma justiça.

Versículos 12 a 16: a lei escrita no coração

Paulo explica que os pagãos, que não receberam a Lei de Moisés, também serão julgados. Quando eles, guiados pela natureza, fazem o que a Lei manda, mostram que a obra da Lei está gravada em seus corações. A consciência dá testemunho, e os pensamentos ora os acusam, ora os defendem.

A Igreja vê nesta passagem uma das bases bíblicas da lei moral natural: uma luz que Deus colocou na razão de todo ser humano, pela qual ele distingue o bem e o mal. O Catecismo ensina que a lei natural, presente no coração de cada homem e estabelecida pela razão, é universal nos seus preceitos (CIC n. 1956). Leia mais em a lei moral natural segundo a Igreja. No dia do julgamento, diz Paulo, Deus julgará por meio de Cristo Jesus até as coisas ocultas.

Versículos 17 a 24: o perigo de se gloriar na Lei

Agora o interlocutor é o judeu que confia na Lei e se considera guia de cegos e luz dos que estão nas trevas. Paulo não nega esses dons: a Lei é verdadeira e vem de Deus. Mas pergunta: tu que ensinas os outros, não ensinas a ti mesmo? Tu que pregas que não se deve roubar, roubas? Tu que condenas a idolatria, profanas o templo?

O ponto é a coerência. Conhecer a Lei não basta; é preciso vivê-la. Paulo cita o profeta Isaías (Is 52,5): por causa de vós, o nome de Deus é blasfemado entre as nações. A crítica vale também para os cristãos, sempre que a vida contradiz o que se professa.

Versículos 25 a 29: a circuncisão do coração

A circuncisão era o sinal da aliança de Deus com Abraão (Gn 17,10-11). Paulo diz que ela tem valor se a Lei é observada; mas, sem a obediência, torna-se como se não existisse. Ele retoma uma ideia que já estava no Antigo Testamento: a circuncisão do coração (Dt 10,16; Dt 30,6; Jr 4,4).

O verdadeiro judeu, conclui Paulo, não é o que o é só por fora, e a verdadeira circuncisão não é apenas a da carne. É a do coração, feita pelo Espírito, e não pela letra. O louvor dessa pessoa não vem dos homens, mas de Deus. Paulo não despreza o sinal exterior; ele mostra que o sinal pede uma vida interior que lhe corresponda.

O que Romanos 2 ensina para a fé católica?

  • Haverá um julgamento segundo as obras. A fé católica professa que Cristo virá julgar os vivos e os mortos, e que nossas obras, feitas na graça ou contra ela, contam diante de Deus.
  • Fé e obras não se opõem. O Concílio de Trento, no Decreto sobre a Justificação (sessão VI, 1547), ensina que a justificação é dom gratuito de Deus e que o justificado, cooperando com a graça, cresce em justiça pelas boas obras. Veja a página sobre a graça e a justificação.
  • Existe uma lei moral natural. Todo ser humano tem na consciência uma luz para reconhecer o bem e o mal (CIC n. 1956).
  • Os sinais pedem conversão interior. Assim como a circuncisão, também os sacramentos não são ritos vazios: pedem uma vida coerente com a graça recebida.

Reflexão para hoje

É fácil julgar. Basta abrir as redes sociais ou ouvir uma conversa no almoço de domingo para perceber como somos rápidos em apontar o erro dos outros. Paulo nos lembra que o mesmo dedo que aponta poderia muitas vezes apontar para nós. A paciência que Deus tem comigo é a mesma que ele tem com o meu vizinho.

O capítulo também vale para quem cresceu na Igreja. Ter sido batizado, crismado e casado na igreja é uma graça enorme. Mas a pergunta de Paulo continua atual: o que eu ensino aos meus filhos, eu vivo? O que eu digo na catequese ou no grupo de oração, eu pratico em casa e no trabalho? Um bom exame de consciência, como os que se encontram no guia como fazer uma boa confissão, ajuda a deixar que Deus circuncide o coração.

Para rezar com Romanos 2

  • Em quem eu costumo pensar quando ouço falar de pecado: em mim ou nos outros?
  • Como tenho respondido à paciência de Deus comigo?
  • Há uma distância entre o que eu digo crer e o que eu vivo?

Sugestão de oração:

Senhor, tu conheces o fundo do meu coração. Livra-me da pressa em julgar e dá-me a graça de me converter primeiro. Escreve a tua lei em mim, para que minha vida seja coerente com a fé que professo. Amém.

Fontes

Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 1956 e 2008; Concílio de Trento, Decreto sobre a Justificação (sessão VI).

Perguntas sobre Romanos 2

Romanos 2 contradiz a justificação pela fé?

Não. Paulo ensina que somos justificados gratuitamente pela fé em Cristo e, ao mesmo tempo, que Deus julgará cada um segundo as obras. Para a Igreja, as boas obras de quem vive na graça são fruto dessa graça e contam diante de Deus.

O que é a lei escrita no coração em Romanos 2,15?

É a lei moral natural, uma luz que Deus colocou na consciência de todo ser humano para distinguir o bem e o mal. Por ela, mesmo quem não conhece a Bíblia pode reconhecer deveres morais básicos.

O que significa circuncisão do coração?

É uma expressão do Antigo Testamento, retomada por Paulo, para falar de uma conversão interior. Não basta o sinal exterior: Deus quer um coração transformado pelo Espírito.

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