Romanos 14 trata de um problema muito prático da comunidade de Roma: cristãos com sensibilidades diferentes sobre alimentos e dias de festa. Paulo pede que os “fortes” não desprezem os “fracos” e que os “fracos” não julguem os “fortes”. Todos pertencem ao Senhor e prestarão contas a ele. O princípio que guia tudo é a caridade: não ser motivo de queda para o irmão.
Contexto de Romanos 14
A comunidade de Roma reunia cristãos vindos do judaísmo e do paganismo. Alguns, provavelmente ligados às tradições judaicas, evitavam certos alimentos, sobretudo carne, talvez por medo de que viesse de sacrifícios aos ídolos ou não respeitasse as regras de pureza. Também davam importância a determinados dias. Outros se sentiam livres dessas práticas. Os estudiosos discutem quem eram exatamente esses grupos, mas a questão de fundo é clara: como conviver com quem pensa diferente em coisas que não são essenciais.
Paulo trata de um assunto parecido em 1 Coríntios 8, a respeito das carnes oferecidas aos ídolos.
Explicação de Romanos 14
Versículos 1 a 4: acolher sem discutir opiniões
Paulo pede que se acolha quem é fraco na fé, sem entrar em discussões sobre opiniões. Um acredita que pode comer de tudo; outro, mais fraco, come só legumes. Quem come não despreze quem não come, e quem não come não julgue quem come, porque Deus acolheu a ambos.
Fraco, aqui, não é quem tem pouca fé em Cristo, mas quem ainda tem a consciência presa a certas práticas e escrúpulos. Paulo pergunta: quem és tu para julgar o servo de outro? Cada um está de pé ou cai diante do seu próprio senhor. E o Senhor tem poder para mantê-lo de pé.
Versículos 5 a 9: vivemos e morremos para o Senhor
Uns dão preferência a certos dias, outros consideram todos iguais. Cada um esteja plenamente convicto em sua própria mente. Quem observa o dia o faz pelo Senhor; quem come, come pelo Senhor, porque dá graças a Deus; quem não come também dá graças.
Paulo então eleva o tema: nenhum de nós vive para si mesmo e ninguém morre para si mesmo. Se vivemos, vivemos para o Senhor; se morremos, morremos para o Senhor. “Quer vivamos, quer morramos, pertencemos ao Senhor” (Rm 14,8). Foi para isso que Cristo morreu e voltou à vida: para ser Senhor dos mortos e dos vivos.
Versículos 10 a 12: todos compareceremos diante de Deus
Por que julgas o teu irmão? Por que desprezas o teu irmão? Todos compareceremos diante do tribunal de Deus. Paulo cita Isaías 45,23: diante de mim todo joelho se dobrará e toda língua dará glória a Deus. Cada um prestará contas de si mesmo. Quem se lembra de que será julgado tem menos vontade de julgar os outros.
Versículos 13 a 18: não ser pedra de tropeço
Em vez de julgar, cuidemos de não pôr tropeço ou escândalo diante do irmão. Paulo diz que está convencido, no Senhor Jesus, de que nada é impuro em si mesmo, o que lembra o ensino de Jesus sobre os alimentos (Mc 7,19). Mas, para quem considera algo impuro, aquilo se torna impuro.
Se o teu irmão fica perturbado por causa do que comes, já não estás agindo segundo o amor. Não faças perecer, por causa de comida, aquele por quem Cristo morreu. E Paulo dá uma definição bonita: o Reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, paz e alegria no Espírito Santo. Quem serve a Cristo dessa maneira agrada a Deus e é aprovado pelos homens.
Versículos 19 a 23: buscar o que constrói a paz
Busquemos o que contribui para a paz e para a edificação mútua. Tudo é puro, mas é mau para quem come causando tropeço. O que é bom é não comer carne nem beber vinho nem fazer nada que leve o teu irmão a tropeçar. O Catecismo cita este versículo entre as regras que valem em todos os casos para a consciência, ao lado da regra de ouro (CIC n. 1789).
A fé que tens, guarda-a para ti diante de Deus. Feliz quem não se condena naquilo que aprova. Mas quem come com dúvida já está condenado, porque não age segundo a convicção. A última frase, tudo o que não procede da fé é pecado, se refere aqui à convicção da consciência: agir contra o que a própria consciência julga certo é falta. Paulo não está dizendo que toda ação de quem não é cristão seja pecado.
O que Romanos 14 ensina para a fé católica?
- Não julgar o coração do irmão. Só Deus é juiz das intenções. Podemos avaliar atos, mas não condenar pessoas.
- A consciência deve ser respeitada e formada. Não se deve agir contra a própria consciência, e é preciso evitar escandalizar a consciência do outro (CIC n. 1789).
- Distinguir o essencial do secundário. Na Igreja há unidade na fé e liberdade legítima em muitas práticas e devoções. A caridade orienta tudo.
- Pertencemos ao Senhor na vida e na morte. Esta certeza sustenta a esperança cristã diante da morte. Leia o que a Igreja ensina sobre a morte.
Reflexão para hoje
Nas paróquias e nas famílias também existem “fortes” e “fracos”. Há quem prefira a missa mais tradicional e quem goste de músicas mais animadas, quem reze o terço todos os dias e quem prefira a leitura da Bíblia, quem jejue com rigor e quem tenha uma prática mais simples. Paulo não manda que todos façam igual. Pede que ninguém despreze nem julgue o outro, e que todos busquem a paz.
A pergunta que Paulo ensina a fazer é: o que eu vou fazer edifica ou derruba o meu irmão? Às vezes, por amor, vale a pena abrir mão de um direito. Um pai que deixa de beber diante de um filho que luta contra o álcool, por exemplo, vive exatamente o que Paulo propõe. A liberdade cristã não é fazer o que eu quero, mas amar.
Para rezar com Romanos 14
- Sobre quem eu costumo fazer julgamentos por causa de práticas diferentes das minhas?
- Alguma atitude minha pode estar sendo pedra de tropeço para alguém?
- Eu vivo com a consciência de que pertenço ao Senhor, na vida e na morte?
Sugestão de oração:
Senhor Jesus, a ti pertenço na vida e na morte. Livra-me de julgar meus irmãos e de desprezar quem pensa diferente de mim. Ensina-me a buscar o que constrói a paz e a renunciar ao que pode ferir a fé dos outros. Que o teu Reino de justiça, paz e alegria cresça em mim. Amém.
Fontes
Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 1789.
Perguntas sobre Romanos 14
Quem são os fracos e os fortes na fé em Romanos 14?
O que significa “tudo o que não procede da fé é pecado”?
O que é o Reino de Deus segundo Romanos 14,17?
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