Números 29 completa o calendário de ofertas iniciado no capítulo anterior e se dedica às festas do sétimo mês, o mais solene do ano de Israel. São três celebrações: o dia das Trombetas, no primeiro dia do mês; o Dia da Expiação, no décimo; e a festa das Tendas, do décimo quinto dia em diante, por sete dias, seguida de uma assembleia no oitavo dia. Para cada dia o texto indica os animais e as ofertas.
Contexto de Números 29
O capítulo 28 tratou do culto diário, semanal e mensal e das festas da primavera, Páscoa e Semanas. O capítulo 29 passa às festas do outono, no sétimo mês, tempo do fim das colheitas e da expectativa das chuvas. O número sete, que na Bíblia sugere plenitude, domina o capítulo: sétimo mês, sete dias de festa, múltiplos de sete nas ofertas. As mesmas festas aparecem em Levítico 23, com outras informações sobre o modo de celebrá-las.
Explicação de Números 29
Versículos 1 a 6: o dia das Trombetas
No primeiro dia do sétimo mês há assembleia santa e não se faz nenhum trabalho servil. É um dia de aclamação, marcado pelo toque das trombetas ou do chifre de carneiro. Oferecem-se um novilho, um carneiro e sete cordeiros, com suas ofertas, e um bode pelo pecado, além das ofertas da lua nova e do sacrifício perpétuo. O som das trombetas convocava o povo e o colocava diante de Deus. Na tradição judaica posterior, esse dia se tornou o Ano Novo, Rosh Hashaná.
Versículos 7 a 11: o Dia da Expiação
No dia dez do sétimo mês há outra assembleia santa. O povo deve mortificar-se, isto é, jejuar e fazer penitência, e não trabalhar. Além das ofertas habituais, há o sacrifício pela expiação descrito em Levítico 16, quando o sumo sacerdote entrava no Santo dos Santos uma vez por ano com o sangue das vítimas para purificar o santuário e o povo.
É o dia mais sério do calendário de Israel, o Yom Kippur. Ensina que o pecado não é um detalhe: ele rompe a comunhão com Deus, e o povo inteiro precisa de perdão e purificação.
Versículos 12 a 34: os sete dias da festa das Tendas
No dia quinze começa a festa das Tendas, também chamada das Cabanas. Durante sete dias o povo morava em cabanas, recordando os anos do deserto (Lv 23,42-43), e agradecia pela colheita. Era a festa mais alegre do ano.
As ofertas são as mais abundantes de todo o calendário. Cada dia há dois carneiros, catorze cordeiros e um bode pelo pecado, mas o número de novilhos vai diminuindo: treze no primeiro dia, doze no segundo, e assim até sete no sétimo dia. Ao todo são setenta novilhos. Uma antiga interpretação judaica relacionou esse número às setenta nações da humanidade, enumeradas em Gênesis 10, como se Israel oferecesse sacrifícios por todos os povos. O texto bíblico não explica o número, mas é certo que a festa das Tendas tinha horizonte universal: o profeta Zacarias anuncia que todas as nações subirão a Jerusalém para celebrá-la (Zc 14,16).
Versículos 35 a 38: o oitavo dia
Depois dos sete dias, o oitavo é uma assembleia solene, sem trabalho servil. As ofertas são menores: um novilho, um carneiro e sete cordeiros, com o bode pelo pecado. Depois da abundância da festa, o povo se recolhe numa celebração mais simples, como quem encerra uma grande festa em família.
Versículo 39: além dos votos e das ofertas livres
O texto conclui que essas são as ofertas fixas das festas, além das que cada pessoa apresenta por voto ou por vontade espontânea. O culto público e o culto pessoal andam juntos. Essa menção aos votos prepara o capítulo seguinte.
O que Números 29 ensina para a fé católica?
Estas festas encontram em Jesus o seu sentido pleno. A Carta aos Hebreus mostra que Cristo é o sumo sacerdote que entrou, não num santuário feito por mãos humanas, mas no próprio céu, uma vez por todas, com o seu próprio sangue, obtendo uma redenção eterna (Hb 9,11-12.24-26). O que o Dia da Expiação repetia a cada ano, a cruz realizou de modo definitivo.
O Evangelho de João situa uma parte importante do ministério de Jesus na festa das Tendas (Jo 7,2). No último dia, o mais solene, Jesus se levanta e convida quem tem sede a vir a ele e beber, anunciando o dom do Espírito (Jo 7,37-39). A festa da água e da colheita aponta para ele.
Também o oitavo dia ganhou um sentido novo para os cristãos. Jesus ressuscitou no primeiro dia da semana, que os cristãos chamaram também de oitavo dia, o dia da nova criação. A Igreja, como Israel, vive o ano inteiro em ritmo de festa, e o seu centro é a Páscoa do Senhor celebrada cada domingo.
Reflexão para hoje
O sétimo mês de Israel juntava três atitudes: despertar, ao som das trombetas; arrepender-se, no Dia da Expiação; e alegrar-se, na festa das Tendas. É um bom caminho espiritual. Deus primeiro nos chama, depois nos purifica e por fim nos faz festejar.
Muitas pessoas vivem só uma dessas atitudes. Há quem viva sempre em penitência, sem alegria, e quem queira só festa, sem conversão. A liturgia da Igreja também une as duas coisas: a Quaresma prepara a Páscoa, o Advento prepara o Natal. A confissão sincera abre espaço para a alegria verdadeira.
As cabanas da festa recordavam que Israel foi peregrino no deserto e que tudo o que tem vem de Deus. Também nós somos peregrinos. Lembrar disso ajuda a viver com gratidão e com menos apego.
Para rezar com Números 29
- Qual trombeta Deus está tocando hoje para me despertar?
- Reservo na minha vida tempos de verdadeira penitência e de verdadeira festa?
- Tenho sede de quê? Já levei essa sede a Jesus?
Sugestão de oração:
Senhor Jesus, sumo sacerdote que entraste no céu por nós, desperta-me quando eu adormecer na fé, purifica-me dos meus pecados e dá-me a alegria da tua festa. Sacia a minha sede com a água viva do teu Espírito. Amém.
Fontes
Bíblia Sagrada (tradução da CNBB).
Perguntas sobre Números 29
Quais são as festas descritas em Números 29?
Por que são oferecidos setenta novilhos na festa das Tendas?
Jesus celebrou a festa das Tendas?
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