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Lucas

Lucas 1: anunciação, Magnificat e Benedictus explicados

Leia Lucas 1 na sua Bíblia e acompanhe aqui a explicação, o que a Igreja ensina e uma reflexão para rezar.

São Lucas escreve o Evangelho com a pena sobre o livro aberto, com o touro ao fundo, pintura de Frans Hals
Frans Hals, São Lucas, c. 1625. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Lucas 1 abre o Evangelho com dois anúncios do anjo Gabriel: a Zacarias, sobre o nascimento de João Batista, e a Maria, sobre o nascimento de Jesus, o Filho de Deus. O capítulo traz ainda a visita de Maria a Isabel e dois cânticos que a Igreja reza todos os dias: o Magnificat e o Benedictus. É o início da salvação contado a partir de casas simples e de pessoas que esperavam em Deus.

Contexto de Lucas 1

A tradição da Igreja atribui este Evangelho a Lucas, companheiro de São Paulo, chamado por ele de “médico amado” (Cl 4,14). O mesmo autor escreveu os Atos dos Apóstolos. A data exata é discutida pelos estudiosos; muitos a situam nas últimas décadas do século I, mas não há consenso.

Lucas escreve para cristãos vindos do mundo grego, representados por Teófilo. Os capítulos 1 e 2 formam o chamado “Evangelho da infância”. Eles mostram, em quadros paralelos, João e Jesus: dois anúncios, dois nascimentos, dois cânticos. João é grande, mas Jesus é maior. O pano de fundo é o reinado de Herodes, o Grande, rei da Judeia sob o domínio de Roma.

Explicação de Lucas 1

Versículos 1 a 4: o prólogo a Teófilo

Lucas começa como os historiadores do seu tempo. Diz que outros já tinham narrado os fatos, que ele investigou tudo com cuidado desde o princípio e que escreve em ordem. Ele se apoia nas “testemunhas oculares e ministros da Palavra”, isto é, nos apóstolos. O objetivo é pastoral: que Teófilo reconheça a solidez do ensinamento que recebeu. O nome significa “amigo de Deus”, e todo leitor pode se ver nele.

Versículos 5 a 25: o anúncio a Zacarias

Zacarias é sacerdote da classe de Abias (cf. 1Cr 24,10) e Isabel descende de Aarão. Os dois são justos, mas não têm filhos, o que na época era vivido como grande dor. A cena acontece no Templo de Jerusalém, na hora da oferta do incenso, quando o povo rezava do lado de fora.

Gabriel, o mesmo anjo do livro de Daniel (Dn 9,21), anuncia que a oração foi ouvida. O menino se chamará João, nome que quer dizer “Deus faz graça”. Ele não beberá vinho, será cheio do Espírito Santo e caminhará com o espírito e o poder de Elias, para preparar o povo, como prometia o profeta Malaquias (Ml 3,23-24). A história lembra outras mulheres estéreis que Deus visitou, como Sara e Ana (1Sm 1).

Zacarias pede um sinal e fica mudo até o cumprimento da promessa. Não é um castigo cruel, mas um tempo de silêncio para amadurecer a fé. Isabel, ao conceber, reconhece a bondade de Deus, que tirou dela a vergonha diante dos outros.

Versículos 26 a 38: a anunciação a Maria

No sexto mês, Gabriel é enviado a Nazaré, aldeia pequena da Galileia, sem nenhuma importância nas Escrituras. Maria é uma virgem prometida em casamento a José, da casa de Davi. A saudação do anjo convida à alegria e chama Maria de “cheia de graça”: a palavra grega indica alguém que foi e permanece repleta do favor de Deus.

O anjo anuncia um filho que se chamará Jesus (“Deus salva”). Ele será Filho do Altíssimo e receberá o trono de Davi, cumprindo a promessa feita ao rei (2Sm 7,12-16). Maria pergunta como isso acontecerá, pois não conhece homem. Não é dúvida, é desejo de entender. A resposta fala do Espírito Santo que virá sobre ela e do poder do Altíssimo que a cobrirá com sua sombra, imagem que lembra a nuvem da glória de Deus sobre a Tenda do Encontro (Ex 40,34-35).

Como sinal, o anjo revela a gravidez de Isabel, porque para Deus nada é impossível. Maria responde: “Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38). Com esse sim livre, o Filho eterno se faz homem em seu seio.

Versículos 39 a 45: a visitação

Maria parte depressa para uma cidade da região montanhosa de Judá. Ao ouvir sua saudação, o menino salta no ventre de Isabel, e Isabel, cheia do Espírito Santo, a proclama bendita entre as mulheres e bendito o fruto do seu ventre. Ela a chama “a mãe do meu Senhor” e a declara feliz porque acreditou.

Muitos leitores percebem aqui um eco da arca da aliança levada por Davi a Jerusalém (2Sm 6): a mesma pergunta admirada, a mesma alegria e a permanência de três meses. Maria leva em si a presença de Deus.

Versículos 46 a 56: o Magnificat

Maria responde com um cântico de louvor, muito próximo do cântico de Ana (1Sm 2,1-10). Ela engrandece o Senhor e se alegra em Deus, seu Salvador. Reconhece que Deus olhou para a pequenez da sua serva e anuncia que todas as gerações a chamarão bem-aventurada.

Depois o cântico se abre para o povo inteiro. Deus dispersa os soberbos, derruba os poderosos dos tronos, eleva os humildes, sacia os famintos e despede os ricos de mãos vazias. Tudo isso é fidelidade à promessa feita a Abraão. Maria fica com Isabel cerca de três meses e volta para casa.

Versículos 57 a 66: o nascimento de João

Nasce o menino, e vizinhos e parentes se alegram. No oitavo dia, na circuncisão, querem dar-lhe o nome do pai. Isabel insiste: “João”. Zacarias escreve numa tabuinha o mesmo nome, e logo volta a falar, bendizendo a Deus. Todos se perguntam o que será este menino, porque a mão do Senhor estava com ele.

Versículos 67 a 80: o Benedictus

Cheio do Espírito Santo, Zacarias profetiza. Bendiz o Deus de Israel, que visitou o seu povo e suscitou uma força de salvação na casa de Davi, lembrando a aliança com Abraão. Depois se dirige ao filho: ele será profeta do Altíssimo e irá à frente do Senhor para preparar seus caminhos, anunciando a salvação pelo perdão dos pecados.

O cântico termina com a imagem do sol nascente que vem do alto para iluminar os que estão nas trevas e guiar nossos passos no caminho da paz. O menino cresce e vive no deserto até o dia de se apresentar a Israel.

O que Lucas 1 ensina para a fé católica?

O capítulo é a base bíblica da fé na Encarnação e na concepção virginal de Jesus, que professamos no Credo: “encarnou-se pelo Espírito Santo, no seio da Virgem Maria”. O Catecismo da Igreja Católica ensina que “a Anunciação a Maria inaugura a plenitude dos tempos” (CIC n. 484), isto é, o cumprimento das promessas de Deus.

Maria aparece como modelo da fé. O Catecismo afirma que ela realiza, do modo mais perfeito, a “obediência da fé” (CIC n. 148), acolhendo a palavra do anjo e crendo que para Deus nada é impossível. A saudação de Gabriel e a de Isabel formam a primeira parte da Ave-Maria.

A liturgia reza estes textos todos os dias. O Magnificat é cantado nas Vésperas e o Benedictus nas Laudes. A anunciação é celebrada em 25 de março, na solenidade da Anunciação do Senhor, e a visitação é o Evangelho da Assunção de Nossa Senhora. As duas cenas são também os dois primeiros mistérios gozosos do Rosário.

Reflexão para hoje

Zacarias e Isabel rezaram durante anos sem ver resposta. Deus não os esqueceu. Muitas famílias vivem esperas longas: um filho, um emprego, uma cura, a conversão de alguém querido. Lucas 1 lembra que a demora não é abandono. Deus age no tempo dele, muitas vezes quando já não esperávamos.

Maria não recebe todas as explicações. Recebe o essencial e confia. O sim dela não foi dito uma vez só: foi renovado em Belém, no exílio, em Nazaré e ao pé da cruz. Nosso sim também é feito de pequenos sins diários, no trabalho bem feito, na paciência em casa, na fidelidade à oração.

A visitação mostra o fruto desse sim. Maria não fica fechada na própria alegria. Vai servir a parente idosa. Quem acolhe Jesus logo procura alguém para ajudar. Talvez hoje haja uma visita a fazer, um telefonema adiado, uma pessoa sozinha esperando um gesto.

Para rezar com Lucas 1

  • Em que área da minha vida Deus me pede hoje um “faça-se”?
  • Como reajo quando minhas orações parecem não ter resposta, como as de Zacarias?
  • Quem eu poderia visitar ou servir nesta semana, como Maria fez com Isabel?

Sugestão de oração:

Senhor, que olhaste para a pequenez da tua serva, olha também para mim. Dá-me a fé de Maria para dizer sim à tua vontade, mesmo sem entender tudo. Que eu leve Jesus aos outros com alegria e serviço. Amém.

Fontes

Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 148 e 484.

Perguntas sobre Lucas 1

O que significa cheia de graça em Lucas 1?

A expressão traduz uma palavra grega que indica alguém que foi e permanece repleta do favor de Deus. A Igreja vê nela um sinal de que Maria foi preparada por Deus de modo único para ser a Mãe do Salvador.

Por que Zacarias ficou mudo?

Ele pediu um sinal porque duvidou do anúncio do anjo. O silêncio foi o próprio sinal e durou até o nascimento de João, quando ele confirmou o nome e voltou a louvar a Deus.

Onde estão o Magnificat e o Benedictus na Bíblia?

O Magnificat, cântico de Maria, está em Lucas 1,46-55. O Benedictus, cântico de Zacarias, está em Lucas 1,68-79. A Igreja os reza diariamente nas Vésperas e nas Laudes.

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