Tempo Comum, 30ª semana Liturgia de hoje
Católicos Orantes
Levítico

Levítico 17: a vida está no sangue, explicação

Leia Levítico 17 na sua Bíblia e acompanhe aqui a explicação, o que a Igreja ensina e uma reflexão para rezar.

Moisés e o sumo sacerdote Aarão ao lado das tábuas da Lei
Autor desconhecido, Moisés e Aarão com as tábuas da Lei, 1692. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Levítico 17 trata do sangue e do lugar dos sacrifícios. Os animais oferecidos deviam ser levados à Tenda do Encontro, e não sacrificados em qualquer lugar, e o povo estava proibido de comer sangue, porque a vida está no sangue. O capítulo abre a parte do Levítico conhecida como Código de Santidade e ajuda a entender o valor do sangue de Cristo.

Contexto de Levítico 17

Muitos estudiosos chamam os capítulos 17 a 26 de Código de Santidade, porque neles se repete o chamado de Deus: sede santos, porque eu sou santo. Se os capítulos anteriores tratavam sobretudo dos sacerdotes e dos ritos, aqui a santidade se estende à vida de todo o povo: alimentação, família, sexualidade, justiça, festas.

O capítulo 17 faz a ponte. Ainda fala de sacrifícios, como os capítulos 1 a 7, mas já mira o cotidiano. O povo está no deserto, e o perigo é misturar o culto ao Senhor com os costumes religiosos dos povos vizinhos.

Explicação de Levítico 17

Versículos 1 a 7: sacrificar só diante do Senhor

Deus manda dizer a Aarão, aos seus filhos e a todo Israel que quem imolar um boi, um cordeiro ou uma cabra, dentro ou fora do acampamento, sem levar o animal à entrada da Tenda do Encontro, será considerado culpado de sangue e eliminado do povo. Os animais deviam ser apresentados ao sacerdote como sacrifícios de comunhão.

O motivo aparece no versículo 7: os israelitas não deviam mais oferecer sacrifícios aos espíritos do campo, que algumas traduções chamam de sátiros ou demônios em forma de bode. Havia o costume de oferecer animais a forças ligadas ao deserto. A lei corta isso pela raiz: todo sangue derramado num rito pertence ao Senhor. Centralizar o culto na Tenda era um modo de proteger a fé no único Deus.

Versículos 8 e 9: a mesma regra para o estrangeiro

A norma vale também para o estrangeiro que mora no meio de Israel. Quem oferecer holocausto ou sacrifício sem levá-lo à Tenda do Encontro será eliminado. A santidade do lugar de culto não admite exceções. Mais tarde, o Deuteronômio aplicará a mesma ideia ao lugar que o Senhor escolherá (Dt 12), que será o Templo de Jerusalém.

Versículos 10 a 12: a vida está no sangue

Este é o centro do capítulo. Deus diz que se voltará contra quem comer sangue, seja israelita ou estrangeiro. E explica: a vida da carne está no sangue, e Deus o deu para ser usado sobre o altar, para fazer a expiação pelas vidas, porque é o sangue que faz a expiação pela vida (Lv 17,11).

Duas ideias se unem aqui. Primeiro, o sangue é a vida, e a vida pertence só a Deus; por isso o ser humano não pode apropriar-se dela comendo o sangue. Já em Gênesis 9,4 essa proibição aparece depois do dilúvio. Segundo, o sangue tem um uso sagrado: no altar, ele expia. Oferecer o sangue é oferecer a vida a Deus.

Versículos 13 e 14: o sangue da caça

Quem caçar um animal ou ave que pode ser comido deve derramar o sangue e cobri-lo com terra. Mesmo fora do culto, o sangue não é tratado como coisa comum. Cobri-lo com terra é um gesto de respeito, quase um pequeno sepultamento da vida que foi tirada. O versículo repete a razão: a vida de toda carne é o seu sangue.

Versículos 15 e 16: o animal morto ou dilacerado

Quem comer um animal que morreu sozinho ou foi despedaçado por feras, israelita ou estrangeiro, deve lavar as roupas, banhar-se e ficar impuro até a tarde. Esse animal não foi sangrado corretamente, e por isso o sangue ainda estava nele. Quem não se purificar carregará a sua culpa.

O que Levítico 17 ensina para a fé católica?

O Catecismo ensina que o Antigo Testamento sempre considerou o sangue como um sinal sagrado da vida, e liga isso ao respeito pela vida humana, que vem de Deus (CIC n. 2260). A proibição de comer sangue é uma pedagogia: ensina que a vida não é nossa para dispor dela como quisermos.

Os primeiros cristãos ainda pediram aos convertidos vindos do paganismo que se abstivessem do sangue e de carnes sufocadas, para facilitar a convivência com os cristãos de origem judaica (At 15,20.29). Com o tempo, a Igreja entendeu que essas normas alimentares pertenciam à Lei cultual, que se cumpriu em Cristo, e deixou de exigi-las.

E aqui aparece uma novidade surpreendente. A mesma Bíblia que proíbe beber sangue mostra Jesus dizendo que quem bebe o seu sangue tem a vida eterna (Jo 6,53-56). O que era proibido, porque a vida pertence a Deus, torna-se dom: Deus mesmo nos dá a sua vida no sangue de Cristo. Na Última Ceia, Jesus chama o cálice de sangue da aliança, derramado por muitos (Mc 14,24). A Eucaristia é o cumprimento pleno de Levítico 17,11: o sangue que expia e dá vida.

Reflexão para hoje

Vivemos num mundo que muitas vezes banaliza a vida. Violência nas ruas, nas telas, no trânsito. Levítico 17 nos educa a olhar a vida como algo sagrado, até a vida de um animal caçado. Se o sangue de um animal merecia ser coberto com terra, quanto mais a vida de cada pessoa humana merece respeito, da concepção até a morte natural.

O capítulo também fala de fidelidade a um só Deus. Os israelitas eram tentados a oferecer um pouco ao Senhor e um pouco aos espíritos do deserto. Hoje a tentação é parecida: rezar e, ao mesmo tempo, buscar horóscopo, amuletos ou simpatias. Deus pede um coração inteiro.

Por fim, cada Missa é um convite a receber com gratidão o que Levítico apenas anunciava. Quando o sacerdote eleva o cálice, estamos diante do sangue que foi dado para a nossa vida. Vale a pena comungar com consciência desse dom.

Para rezar com Levítico 17

  • Respeito a vida, a minha e a dos outros, como um dom que pertence a Deus?
  • Há em mim alguma busca de proteção fora de Deus, como superstições ou simpatias?
  • Como recebo a Eucaristia: como rotina ou como o dom da vida de Cristo?

Sugestão de oração:

Senhor Jesus, que derramaste o teu sangue para nos dar a vida, ensina-me a respeitar toda vida como dom do Pai. Afasta de mim toda idolatria e superstição, e faz que eu receba com fé e gratidão o teu Corpo e o teu Sangue. Amém.

Fontes

Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 2260.

Capítulos vizinhos: Levítico 16 e Levítico 18. Veja também Gênesis 9, João 6 e Atos dos Apóstolos 15. Para rezar: Ladainha do Preciosíssimo Sangue de Jesus.

Perguntas sobre Levítico 17

Por que Levítico 17 proíbe comer sangue?

Porque, na Bíblia, a vida está no sangue e a vida pertence a Deus. O sangue tinha um uso sagrado no altar, para a expiação, e não podia ser tratado como alimento comum.

Os católicos podem comer alimentos com sangue?

Sim. A proibição faz parte das normas cultuais e alimentares da Antiga Aliança, que não obrigam os cristãos. Permanece o ensinamento de fundo: a vida é sagrada e vem de Deus.

Como Levítico 17 se liga à Eucaristia?

Levítico 17,11 diz que o sangue faz a expiação pela vida. Na Eucaristia, Jesus nos dá o seu próprio sangue, derramado para o perdão dos pecados, para que tenhamos a vida eterna (Jo 6,54).

Está lendo a Bíblia inteira? Acompanhe no Plano de leitura da Bíblia ou reze o texto com a Lectio Divina.