João 21 é o epílogo do Evangelho. Jesus ressuscitado aparece aos discípulos às margens do lago de Tiberíades, depois de uma noite de pesca sem resultado, e lhes dá uma pesca abundante. Na refeição junto às brasas, ele pergunta três vezes a Pedro se o ama e lhe confia o cuidado das suas ovelhas. O capítulo termina falando do destino de Pedro e do discípulo amado.
Contexto de João 21
O capítulo 20 terminou com uma conclusão do livro (João 20). Por isso muitos estudiosos consideram o capítulo 21 um epílogo acrescentado pela comunidade do evangelista, talvez depois da morte do discípulo amado; os detalhes são debatidos. A Igreja o recebe como parte inspirada e canônica do Evangelho, e ele está presente nos manuscritos completos do Evangelho que chegaram até nós. A cena volta à Galileia, onde tudo começou, e retoma imagens dos capítulos anteriores: a pesca lembra o chamado dos primeiros discípulos (Lucas 5), a fogueira de brasas lembra as negações de Pedro (João 18), e o pão e o peixe lembram a multiplicação dos pães (João 6).
Explicação de João 21
Versículos 1 a 3: uma noite sem nada
Estão juntos Simão Pedro, Tomé, Natanael, os filhos de Zebedeu e outros dois discípulos. Pedro diz que vai pescar, e os outros vão com ele. Saem de barco, mas naquela noite não pegam nada. Depois de tudo o que viveram, parecem ter voltado à vida antiga. A noite, em João, é também o tempo em que se trabalha sem a luz de Cristo.
Versículos 4 a 8: é o Senhor
Ao amanhecer, Jesus está na praia, mas os discípulos não o reconhecem. Ele pergunta, com carinho, se têm algo para comer; chama-os de “filhinhos”. Eles respondem que não. Jesus manda lançar a rede do lado direito do barco. Fazem isso, e a rede fica tão cheia que não conseguem puxá-la. O discípulo que Jesus amava é o primeiro a reconhecer: “É o Senhor!” (Jo 21,7). O amor enxerga primeiro. Pedro, ao ouvir, veste a roupa e se lança na água para chegar logo a Jesus. Os outros vêm no barco, arrastando a rede.
Versículos 9 a 14: a refeição na praia
Em terra, veem uma fogueira de brasas com peixe em cima e pão. Jesus pede que tragam alguns dos peixes que acabaram de pescar. Pedro puxa a rede para a terra, cheia de cento e cinquenta e três peixes grandes, e, apesar de tantos, a rede não se rompe. Desde a antiguidade se buscou um sentido simbólico para o número, e não há consenso; o ponto claro é a abundância e a rede intacta, imagem da Igreja que reúne muitos sem se dividir. Jesus convida: vinde comer. Nenhum discípulo ousa perguntar quem é, porque sabem que é o Senhor. Ele toma o pão e o dá a eles, e faz o mesmo com o peixe. O gesto lembra a Eucaristia. O evangelista conta que esta foi a terceira vez que Jesus se manifestou aos discípulos depois de ressuscitar.
Versículos 15 a 17: tu me amas?
Depois da refeição, Jesus pergunta a Simão, filho de João, se o ama mais do que estes. Pedro responde que sim, que Jesus sabe que ele o ama. Jesus diz: apascenta os meus cordeiros. Pergunta uma segunda vez, e confia-lhe as ovelhas. Na terceira vez, Pedro fica triste, porque lembra as três negações, e responde: Senhor, tu sabes tudo, tu sabes que eu te amo. Jesus diz: apascenta as minhas ovelhas.
No texto grego aparecem dois verbos para “amar”. Nas duas primeiras perguntas, Jesus usa o verbo do amor total e gratuito; Pedro responde com o verbo da amizade. Na terceira, Jesus usa o verbo de Pedro. Muitos veem nisso um Jesus que desce até onde Pedro consegue chegar; outros estudiosos acham que os verbos são usados quase como sinônimos. Em qualquer leitura, a cena é de reconciliação: a cada negação corresponde uma declaração de amor, e o amor é a condição para a missão. As ovelhas continuam sendo de Jesus: “as minhas ovelhas”.
Versículos 18 a 19: segue-me
Jesus anuncia o futuro de Pedro: quando jovem, ele se cingia e ia aonde queria; quando for velho, estenderá as mãos, e outro o cingirá e o levará aonde não quer. O evangelista explica que Jesus indicava com que morte Pedro glorificaria a Deus. A tradição da Igreja recorda o martírio de Pedro em Roma, e a expressão “estender as mãos” foi entendida como alusão à crucifixão. Então Jesus diz: segue-me. É o mesmo chamado do começo, agora com o peso da cruz.
Versículos 20 a 23: e este?
Pedro se volta e vê o discípulo amado, aquele que na Ceia se reclinara sobre o peito de Jesus. Pergunta: Senhor, e este? Jesus responde que, se quiser que ele permaneça até a sua volta, isso não é da conta de Pedro: tu, segue-me. O evangelista esclarece que espalharam o boato de que esse discípulo não morreria, mas Jesus não disse isso. Cada discípulo tem o seu caminho.
Versículos 24 a 25: o testemunho verdadeiro
O livro termina identificando o discípulo amado como aquele que dá testemunho e escreveu estas coisas, e a comunidade afirma: sabemos que o seu testemunho é verdadeiro. A última frase é quase um sorriso: Jesus fez tantas outras coisas que, se fossem escritas uma por uma, o mundo inteiro não poderia conter os livros. O Evangelho não esgota Jesus; abre caminho para conhecê-lo.
O que João 21 ensina para a fé católica?
A Igreja vê neste capítulo a confirmação da missão de Pedro como pastor de todo o rebanho, ligada à promessa das chaves em Mateus 16. A Constituição Lumen Gentium, do Concílio Vaticano II, cita esta passagem ao recordar que o Senhor constituiu Pedro pastor de todo o seu rebanho (n. 22), e ensina que o Romano Pontífice, sucessor de Pedro, é princípio e fundamento perpétuo e visível da unidade da Igreja (n. 23). Leia sobre São Pedro, o primeiro Papa e sobre a sucessão apostólica.
O texto mostra também que a autoridade na Igreja é serviço e nasce do amor a Cristo. Pedro não é escolhido por ser perfeito, mas por ter sido perdoado e amar. A refeição na praia ecoa a Eucaristia, onde o Ressuscitado continua a dar-se aos seus. Este Evangelho é proclamado no 3º Domingo da Páscoa do Ano C.
Reflexão para hoje
Há noites em que se trabalha muito e não se pega nada. Projetos que não dão certo, esforços na família que parecem inúteis, uma pastoral que não cresce. Jesus aparece justamente ao amanhecer dessas noites e pergunta se temos algo para comer. Ele não humilha; convida a tentar de novo, do jeito dele.
Pedro tinha negado Jesus três vezes perto de uma fogueira, e Jesus o recebe perto de outra fogueira. Deus não apaga a nossa história, mas a cura. Quem carrega a lembrança de uma traição, de uma queda, de uma omissão grave, pode ouvir a pergunta que cura: tu me amas? A resposta sincera, mesmo pequena, basta para recomeçar.
Por fim, a pergunta de Pedro sobre o outro discípulo é muito humana. Vivemos comparando a nossa vida com a dos outros: quem foi mais abençoado, quem sofreu menos. Jesus responde com carinho e firmeza: que te importa? Tu, segue-me.
Para rezar com João 21
- Em que área da minha vida estou trabalhando a noite toda sem pescar nada?
- Como eu responderia hoje se Jesus me perguntasse: tu me amas?
- Tenho me comparado aos outros em vez de seguir o meu caminho com Jesus?
Sugestão de oração:
Senhor Jesus ressuscitado, que esperas os teus amigos na praia depois da noite, vem ao meu encontro nas minhas noites sem fruto. Tu sabes tudo, tu sabes que eu te amo, mesmo com as minhas fraquezas. Cura as minhas quedas e ajuda-me a seguir-te e a cuidar dos que me confiaste. Amém.
Fontes
Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Concílio Vaticano II, Constituição Dogmática Lumen Gentium.
Perguntas sobre João 21
Por que Jesus perguntou três vezes a Pedro se ele o amava?
O que significam os 153 peixes de João 21?
João 21 fala do Papa?
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