João 10 traz uma das imagens mais queridas do Evangelho: Jesus é o Bom Pastor, que conhece as suas ovelhas, as chama pelo nome e dá a vida por elas. Ele também se apresenta como a porta do redil. Na segunda parte, durante a festa da Dedicação, Jesus afirma: “Eu e o Pai somos um”, e mais uma vez tentam apedrejá-lo.
Contexto de João 10
O discurso continua o episódio do cego de nascença (João 9), que foi expulso pelos líderes. Jesus contrasta os maus guias com o verdadeiro pastor. No Antigo Testamento, reis e chefes eram chamados pastores, e os profetas denunciaram os pastores que exploravam o rebanho; Deus prometeu que ele mesmo cuidaria das suas ovelhas (Ez 34). Na Palestina, os rebanhos passavam a noite em currais cercados de pedra, às vezes de várias famílias, com um porteiro. De manhã, cada pastor chamava as suas ovelhas, que reconheciam a sua voz.
Explicação de João 10
Versículos 1 a 6: o pastor e o ladrão
Quem entra no redil sem passar pela porta, pulando o muro, é ladrão. O pastor entra pela porta, e o porteiro abre para ele. As ovelhas ouvem a sua voz, ele as chama pelo nome e as conduz para fora. Vai à frente delas, e elas o seguem. De um estranho elas fogem. O evangelista observa que os ouvintes não entenderam a comparação.
Versículos 7 a 10: eu sou a porta
Jesus explica: eu sou a porta das ovelhas. Quem entrar por ele será salvo, entrará e sairá e encontrará pastagem. O ladrão só vem para roubar, matar e destruir. Jesus veio para que as ovelhas tenham vida, e vida em abundância. A vida abundante não é só uma vida longa ou confortável, mas a própria vida de Deus partilhada conosco.
Versículos 11 a 18: o Bom Pastor dá a vida
Jesus declara: “Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida por suas ovelhas” (Jo 10,11). A palavra grega traduzida por “bom” significa também belo, verdadeiro, exemplar. O mercenário, que trabalha só pelo salário, foge quando vem o lobo, porque as ovelhas não são dele. O Bom Pastor conhece as suas ovelhas e é conhecido por elas, assim como o Pai o conhece e ele conhece o Pai. Esse conhecimento é amor e comunhão.
Jesus tem ainda outras ovelhas que não são deste redil e que também ele deve conduzir: haverá um só rebanho e um só pastor. É o anúncio da missão a todos os povos. Por fim, ele afirma que dá a vida livremente: ninguém a tira dele, ele a entrega e tem poder de retomá-la. A cruz não será um acidente, mas entrega por amor.
Versículos 19 a 21: nova divisão
As palavras causam divisão. Uns dizem que ele tem um demônio e está louco; outros respondem que essas não são palavras de endemoninhado, e perguntam se um demônio poderia abrir os olhos de cegos.
Versículos 22 a 30: a festa da Dedicação
Era inverno, festa da Dedicação em Jerusalém. Essa festa, hoje chamada Hanucá, lembrava a nova consagração do Templo pelos Macabeus, depois de ter sido profanado (1Mc 4,36-59). Jesus caminha no pórtico de Salomão. Cercam-no e pedem que diga claramente se é o Messias. Ele responde que já disse, e que as obras que faz em nome do Pai dão testemunho dele. Mas eles não creem porque não são das suas ovelhas. As suas ovelhas ouvem a sua voz, e ele lhes dá a vida eterna; ninguém as arrancará da sua mão, nem da mão do Pai. E conclui: eu e o Pai somos um.
Versículos 31 a 39: acusação de blasfêmia
Pegam pedras para apedrejá-lo, acusando-o de se fazer Deus, sendo homem. Jesus cita o Salmo 82,6, em que juízes humanos são chamados de “deuses” por receberem a palavra de Deus. Se a Escritura chama assim os que receberam a palavra, quanto mais aquele a quem o Pai consagrou e enviou ao mundo. E pede que, ao menos, creiam nas obras, para reconhecerem que o Pai está nele e ele no Pai. Tentam prendê-lo, mas ele escapa.
Versículos 40 a 42: além do Jordão
Jesus volta ao lugar onde João batizava no princípio. Muitos vão até ele e reconhecem que tudo o que João disse a seu respeito era verdade. E ali muitos creem nele. O capítulo termina em clima de fé, antes do grande sinal de Lázaro.
O que João 10 ensina para a fé católica?
A imagem do redil é usada pelo Catecismo para falar da Igreja: ela é o redil cuja porta única e necessária é Cristo, e o rebanho do qual o próprio Deus anunciou que seria o pastor (CIC n. 754). Cristo é o único Pastor, e os bispos e padres participam do seu cuidado como servos, chamados a dar a vida pelo rebanho e não a agir como mercenários.
O 4º Domingo da Páscoa é chamado Domingo do Bom Pastor, pois em cada ano se proclama uma parte deste capítulo, e nele a Igreja reza pelas vocações. Veja vocação sacerdotal, sinais e caminho. A frase “eu e o Pai somos um” é também um texto central para a fé na Trindade: o Pai e o Filho são distintos e um só Deus.
Reflexão para hoje
O Bom Pastor chama cada ovelha pelo nome. Numa época em que muita gente se sente só um número, um cadastro, um perfil, é consolador saber que Deus conhece você pessoalmente, com a sua história e as suas feridas.
Ouvir a voz do pastor exige silêncio. Há muitas vozes concorrendo pela nossa atenção, e algumas só querem roubar o nosso tempo, a nossa paz e a nossa fé. Reservar alguns minutos por dia para o Evangelho é aprender a reconhecer a voz certa no meio do barulho.
Todos temos alguma responsabilidade de pastor: pais com os filhos, chefes com a equipe, catequistas com as crianças. A pergunta é se agimos como mercenários, preocupados com o que ganhamos, ou como quem ama e se gasta pelos outros.
Para rezar com João 10
- Tenho reconhecido a voz de Jesus no meio de tantas outras vozes?
- Por quem sou responsável, e como cuido dessas pessoas?
- Rezo pelos padres e pelas vocações na minha comunidade?
Sugestão de oração:
Senhor Jesus, Bom Pastor, que me conheces pelo nome, guarda-me no teu rebanho. Que eu reconheça a tua voz e te siga. Dá à tua Igreja pastores segundo o teu coração, e faze de mim alguém que cuida dos outros com amor. Amém.
Fontes
Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica.
Perguntas sobre João 10
Por que Jesus se chama Bom Pastor?
O que significa “eu e o Pai somos um”?
Quando se lê João 10 na Missa?
Está lendo a Bíblia inteira? Acompanhe no Plano de leitura da Bíblia ou reze o texto com a Lectio Divina.