Filipenses 2 contém um dos textos mais importantes do Novo Testamento: o hino de Cristo, que, sendo de condição divina, se esvaziou, fez-se servo e obedeceu até a morte de cruz, e por isso foi exaltado por Deus. Paulo apresenta esse hino como modelo de humildade para a comunidade. O capítulo também fala da salvação vivida com temor e tremor e apresenta dois colaboradores de Paulo: Timóteo e Epafrodito.
Contexto de Filipenses 2
No fim do capítulo 1, Paulo pediu que os filipenses permanecessem firmes num só espírito. Agora mostra o caminho dessa unidade: a humildade. Parece que havia algumas tensões na comunidade, que aparecerão claramente em Filipenses 4,2. Muitos estudiosos pensam que os versículos 6 a 11 eram um hino cristão já conhecido, que Paulo cita ou adapta; outros acham que ele mesmo o compôs. De todo modo, é um dos testemunhos mais antigos da fé na divindade de Cristo.
Explicação de Filipenses 2
Versículos 1 a 4: um só pensamento
Paulo faz um apelo com quatro condições: se há alguma consolação em Cristo, algum conforto no amor, alguma comunhão no Espírito, alguma ternura e compaixão. Se há, então que os filipenses completem a sua alegria, tendo o mesmo pensamento, o mesmo amor, uma só alma.
E dá conselhos concretos: nada façam por rivalidade ou vanglória, mas com humildade, considerando os outros superiores a si mesmos. Cada um não procure apenas o próprio interesse, mas também o dos outros. A humildade cristã não é se desprezar, mas dar ao outro o primeiro lugar.
Versículos 5 a 8: Cristo se esvaziou
Paulo convida a ter os mesmos sentimentos que estavam em Cristo Jesus. E então vem o hino. Cristo, sendo de condição divina, não considerou o ser igual a Deus como algo a que devesse se apegar. Ao contrário, esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de servo e tornando-se semelhante aos homens. A palavra grega para esvaziar-se é kénosis, que se tornou um termo da teologia.
Cristo não deixou de ser Deus. O que ele esvaziou foi a manifestação da glória divina, assumindo a fraqueza humana. E, encontrado em aspecto humano, humilhou-se ainda mais, fazendo-se obediente até a morte, e morte de cruz. A cruz era o castigo reservado aos escravos e aos criminosos mais desprezados. Cristo desceu até o ponto mais baixo. Há aqui um contraste com Adão, que quis ser como Deus (Gn 3,5): Cristo, que era Deus, escolheu o caminho do serviço.
Versículos 9 a 11: Deus o exaltou
Por isso, Deus o exaltou acima de tudo e lhe deu o nome que está acima de todo nome. O hino ecoa Isaías 45,23, onde o próprio Deus diz que diante dele todo joelho se dobrará. Agora, ao nome de Jesus se dobra todo joelho, no céu, na terra e debaixo da terra, e toda língua proclama: “Jesus Cristo é o Senhor” (Fl 2,11), para a glória de Deus Pai. Senhor, na Bíblia grega, era o nome usado para traduzir o nome de Deus. Atribuí-lo a Jesus é confessar que ele é Deus.
Versículos 12 e 13: temor e tremor
Paulo tira a consequência: assim como sempre obedeceram, os filipenses devem trabalhar pela própria salvação com temor e tremor, não só na presença dele, mas ainda mais na sua ausência. E explica: é Deus quem opera neles o querer e o fazer, segundo o seu desígnio de amor. Os dois versículos se completam. A salvação é obra de Deus, e por isso mesmo exige a nossa colaboração séria, com humildade.
Versículos 14 a 18: astros no mundo
Paulo pede que façam tudo sem murmurações nem discussões. Assim serão irrepreensíveis e puros, filhos de Deus sem mancha no meio de uma geração desviada, onde brilham como astros no mundo, mantendo firme a palavra da vida. O apóstolo terá motivo de orgulho no dia de Cristo, por não ter corrido nem trabalhado em vão.
E usa uma imagem da liturgia: mesmo que seu sangue seja derramado como libação sobre o sacrifício e a oferta da fé dos filipenses, ele se alegra com todos eles. A libação era o vinho derramado sobre a oferta no altar. Paulo vê sua possível morte como parte da oferta da comunidade a Deus, e convida: alegrem-se comigo.
Versículos 19 a 24: Timóteo
Paulo espera enviar logo Timóteo a Filipos, para ter notícias deles. Diz que não tem ninguém com os mesmos sentimentos, que se preocupe sinceramente com eles, porque todos procuram os próprios interesses, e não os de Jesus Cristo. Timóteo deu provas do seu valor: serviu com Paulo no Evangelho como um filho com o pai. Paulo também confia que logo poderá ir pessoalmente.
Versículos 25 a 30: Epafrodito
Epafrodito era o enviado dos filipenses, que levou a ajuda a Paulo. Paulo o chama de irmão, colaborador e companheiro de luta. Ele adoeceu gravemente e quase morreu, mas Deus teve compaixão dele e também de Paulo, para que não tivesse tristeza sobre tristeza. Epafrodito estava aflito porque os filipenses souberam da sua doença. Paulo o manda de volta e pede que o recebam com alegria e honrem pessoas assim, porque ele arriscou a vida pela obra de Cristo.
O que Filipenses 2 ensina para a fé católica?
O hino de Filipenses 2 é uma das bases bíblicas da fé na divindade e na humanidade de Cristo. O Catecismo cita a expressão de condição divina (Fl 2,6) ao explicar o título Senhor atribuído a Jesus pelas primeiras confissões de fé (CIC n. 449). E menciona Filipenses 2,6-11 entre os hinos que a Igreja compôs desde o início para celebrar o mistério de Cristo (CIC n. 2641).
A liturgia lê este hino em momentos centrais. Filipenses 2,6-11 é a segunda leitura do Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor, e também da Festa da Exaltação da Santa Cruz, em 14 de setembro. O caminho de Cristo, da humilhação à glória, é o centro da Semana Santa.
Os versículos 12 e 13 expressam o equilíbrio católico entre graça e liberdade. Deus age primeiro e dá o querer e o agir; o ser humano responde livremente, com temor e tremor. Não há salvação sem a graça, nem salvação imposta sem a nossa resposta.
Reflexão para hoje
O caminho de Cristo é o contrário do que o mundo propõe. O mundo diz: suba, apareça, defenda seus direitos. Cristo desceu, serviu e obedeceu. Ter os mesmos sentimentos de Cristo pode significar, em casa, ceder numa discussão sem importância, lavar a louça sem reclamar, ouvir antes de falar. No trabalho, ajudar um colega sem esperar reconhecimento.
O conselho de fazer tudo sem murmurar é muito concreto. A murmuração envenena as famílias e as comunidades. Quem reclama de tudo apaga a luz que deveria brilhar. Os cristãos são chamados a ser astros num mundo escuro, não pela perfeição, mas pela alegria e pela bondade.
E os exemplos de Timóteo e Epafrodito mostram que a santidade se faz de pessoas comuns que se dedicam aos outros. Talvez você conheça alguém assim na paróquia: aquela pessoa que sempre está presente, que cuida sem aparecer. Agradeça a Deus por ela, e honre pessoas assim, como pede Paulo.
Para rezar com Filipenses 2
- Em qual relação da minha vida eu preciso ter os mesmos sentimentos de Cristo?
- Murmuro e reclamo com frequência? Sobre o quê?
- Quem são os Timóteos e Epafroditos da minha vida, e como posso agradecer por eles?
Sugestão de oração:
Senhor Jesus, que sendo Deus te fizeste servo e obedeceste até a cruz, dá-me os teus sentimentos. Livra-me da vaidade, da rivalidade e da murmuração. Ensina-me a buscar o bem dos outros e a brilhar no mundo com a tua alegria. Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus Pai. Amém.
Fontes
Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 449 e 2641; Missal Romano, Domingo de Ramos e Festa da Exaltação da Santa Cruz.
Perguntas sobre Filipenses 2
O que significa que Cristo se esvaziou em Filipenses 2,7?
Em que missa se lê o hino de Filipenses 2?
O que significa trabalhar pela salvação com temor e tremor?
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