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Êxodo

Êxodo 23: justiça, as três festas e o anjo do Senhor

Leia Êxodo 23 na sua Bíblia e acompanhe aqui a explicação, o que a Igreja ensina e uma reflexão para rezar.

Moisés ergue as tábuas da Lei com os Dez Mandamentos
Rembrandt, Moisés com as tábuas da Lei, 1659. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Êxodo 23 encerra o Código da Aliança. O capítulo pede justiça honesta nos tribunais, ajuda até ao animal do inimigo, descanso para a terra a cada sete anos e para as pessoas a cada sete dias, e organiza as três grandes festas anuais de Israel. No fim, Deus promete enviar um anjo à frente do povo para guardá-lo no caminho e conduzi-lo até a terra prometida.

Contexto de Êxodo 23

Estamos no fim das leis dadas por Deus a Moisés depois dos Dez Mandamentos (Ex 20,22 a 23,33). O capítulo seguinte narra a ratificação da Aliança, quando essas palavras serão lidas ao povo. As leis passam da vida social para o culto e terminam com uma visão de futuro: a entrada na terra de Canaã. As festas descritas aqui aparecem de forma mais detalhada em Levítico 23 e Deuteronômio 16.

Explicação de Êxodo 23

Versículos 1 a 3: verdade no testemunho

Não se deve espalhar boatos falsos nem se unir ao culpado como testemunha mentirosa. Também não se deve seguir a maioria para fazer o mal, nem falsear o testemunho para acompanhar a multidão. E, curiosamente, não se deve favorecer o pobre num processo só porque é pobre. A justiça de Deus defende o fraco, mas não aceita sentença injusta, para nenhum lado.

Versículos 4 e 5: o animal do inimigo

Se você encontrar o boi ou o jumento do seu inimigo perdido, deve devolvê-lo. Se vir o jumento de quem o odeia caído sob a carga, não o abandone: ajude a levantá-lo. A inimizade não dispensa da caridade concreta. É uma semente do que Jesus dirá sobre amar os inimigos (Mateus 5).

Versículos 6 a 9: tribunais justos

Não se pode distorcer o direito do pobre, nem aceitar acusação falsa. O texto pede para não fazer morrer o inocente e o justo, frase que o Catecismo cita ao tratar do respeito à vida (CIC n. 2261). O suborno é proibido porque cega quem enxerga e perverte as palavras dos justos. E de novo o estrangeiro: vocês conhecem a vida do estrangeiro, porque foram estrangeiros no Egito.

Versículos 10 a 13: o ano sabático e o sábado

Durante seis anos se semeia a terra, mas no sétimo ela deve descansar, e o que nascer sozinho fica para os pobres e para os animais do campo. O mesmo vale para a vinha e o olival. O sábado semanal é recordado com uma razão social: para que o boi e o jumento descansem e o filho da serva e o estrangeiro recuperem as forças. O descanso é dom para todos, inclusive para a criação. O trecho termina pedindo para não pronunciar o nome de outros deuses.

Versículos 14 a 19: as três festas anuais

Três vezes por ano Israel deve celebrar festa ao Senhor. A festa dos Ázimos, no mês de Abib, recorda a saída do Egito, com sete dias de pão sem fermento. A festa da Colheita celebra as primícias do trabalho no campo. A festa da Recolha, no fim do ano agrícola, agradece a colheita completa. Mais tarde essas festas serão ligadas à Páscoa, a Pentecostes e às Tendas. Ninguém deve se apresentar diante do Senhor de mãos vazias. Seguem regras de culto: não oferecer o sangue do sacrifício com pão fermentado, não deixar a gordura até a manhã, levar as primícias à casa do Senhor e não cozinhar o cabrito no leite da própria mãe. O sentido exato desta última regra é discutido; muitos estudiosos pensam que se opunha a algum rito pagão ou expressava respeito pela vida. A tradição judaica tirou dela a separação entre carne e laticínios.

Versículos 20 a 26: o anjo que guia e guarda

Deus promete enviar um anjo à frente do povo, para guardá-lo no caminho e levá-lo ao lugar preparado. O povo deve respeitá-lo e ouvir sua voz, porque o nome de Deus está nele. Se Israel obedecer, Deus será inimigo dos seus inimigos. O povo não deve adorar os deuses de Canaã, mas servir ao Senhor, que abençoará o pão e a água, afastará as doenças e dará fecundidade e vida longa. O Evangelho de Marcos começa citando uma frase que une esta promessa e o profeta Malaquias: eu envio o meu mensageiro à tua frente (Mc 1,2).

Versículos 27 a 33: a terra dada pouco a pouco

Deus fará os povos da terra recuarem diante de Israel, com temor e com vespas, imagem de um flagelo que espalha confusão. Mas não de uma só vez, para que a terra não fique deserta e os animais selvagens não se multipliquem: pouco a pouco, até que Israel cresça e ocupe a terra. As fronteiras vão do mar Vermelho ao mar dos filisteus e do deserto até o rio. Israel não deve fazer aliança com esses povos nem com seus deuses, para não cair numa armadilha. Esses textos sobre a conquista refletem a mentalidade de uma época e a preocupação com a idolatria; a Igreja os lê à luz da revelação progressiva (Dei Verbum 15), sem tomá-los como modelo para relações entre povos.

O que Êxodo 23 ensina para a fé católica?

A Igreja lê este capítulo nas três dimensões da Aliança: a justiça social, o culto e a confiança na guia de Deus. As exigências de verdade no tribunal e de recusa do suborno são aplicações do oitavo e do quinto mandamentos e continuam válidas. O ano sabático, com o descanso da terra e a atenção aos pobres, inspira a reflexão cristã sobre o cuidado com a criação e sobre o jubileu.

A promessa do anjo é um dos textos com que a Igreja celebra os anjos da guarda: Ex 23,20-23 é a primeira leitura da memória dos Santos Anjos da Guarda, em 2 de outubro. A fé da Igreja ensina que cada fiel conta com a proteção e a guia de um anjo no caminho da vida (CIC n. 336). Veja a oração ao anjo da guarda e a doutrina católica sobre os anjos. As festas, por sua vez, encontram sua plenitude no Mistério Pascal: Cristo é a nossa Páscoa (1Cor 5,7), e o Espírito Santo é dado em Pentecostes como primícias da nova criação.

Reflexão para hoje

A ordem de ajudar o jumento do inimigo é desconcertante de tão prática. Não pede sentimentos bonitos, pede um gesto: parar e ajudar a levantar a carga. Talvez hoje seja ajudar um vizinho com quem não falamos, ou tratar com justiça um colega de quem não gostamos. A caridade começa assim.

Também é forte a advertência contra seguir a maioria para fazer o mal. Nas redes sociais, no trabalho, até em grupos de família, é fácil repetir boatos e acompanhar a onda. O cristão é chamado a conferir a verdade antes de falar.

E há a promessa do anjo. Ninguém caminha sozinho. Deus nos conduz pouco a pouco, sem pressa, respeitando o nosso ritmo de crescimento. Quando a conquista de uma virtude ou de uma mudança de vida parece lenta, vale lembrar o “pouco a pouco” de Deus.

Para rezar com Êxodo 23

  • Já segui a maioria em algo que eu sabia não ser justo?
  • Que gesto concreto posso fazer por alguém com quem tenho dificuldade?
  • Eu me lembro de rezar ao meu anjo da guarda e de ouvir as inspirações de Deus?

Sugestão de oração:

Senhor, que envias teu anjo à minha frente para me guardar no caminho, dá-me ouvidos atentos à tua voz. Faz-me justo nas palavras, generoso até com quem me ofende e fiel nas festas da tua Aliança. Conduz-me pouco a pouco até a terra que preparaste para mim. Amém.

Fontes

Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica; Concílio Vaticano II, Constituição Dogmática Dei Verbum.

Perguntas sobre Êxodo 23

Quais são as três festas de Êxodo 23?

A festa dos Ázimos, que recorda a saída do Egito; a festa da Colheita, das primícias do campo; e a festa da Recolha, no fim do ano agrícola. Mais tarde foram ligadas à Páscoa, a Pentecostes e às Tendas.

O anjo de Êxodo 23 é o anjo da guarda?

O texto fala do anjo que Deus envia para guiar e proteger Israel no deserto. A Igreja lê este trecho na memória dos Santos Anjos da Guarda, em 2 de outubro, como fundamento da proteção que Deus dá a cada fiel.

O que significa não cozinhar o cabrito no leite da mãe?

O sentido exato é discutido. Muitos estudiosos pensam que a regra se opunha a algum rito pagão ou expressava respeito pela vida, e a tradição judaica tirou dela a separação entre carne e laticínios.

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