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2 Coríntios

2 Coríntios 11: falsos apóstolos e os sofrimentos de Paulo

Leia 2 Coríntios 11 na sua Bíblia e acompanhe aqui a explicação, o que a Igreja ensina e uma reflexão para rezar.

São Paulo de barba farta e manto azul, com a espada e o livro das Escrituras
Peter Paul Rubens, São Paulo, c. 1611. Domínio público, via Wikimedia Commons.

2 Coríntios 11 é o capítulo em que Paulo, a contragosto, faz o próprio elogio para defender a comunidade de falsos pregadores. Ele fala do seu zelo pela Igreja como noiva de Cristo, denuncia os falsos apóstolos, lembra que Satanás se disfarça de anjo de luz e apresenta a impressionante lista dos sofrimentos que enfrentou pelo Evangelho.

Contexto de 2 Coríntios 11

O capítulo continua a defesa iniciada no capítulo 10. Pregadores vindos de fora tinham chegado a Corinto, apresentando-se como apóstolos superiores. Eram de origem judaica, orgulhavam-se de suas credenciais, talvez de visões e de eloquência, e aceitavam sustento da comunidade. Paulo os chama com ironia de “superapóstolos”.

Para responder, ele usa um recurso conhecido: o “discurso do insensato”. Ele finge ser louco e se elogia, como os adversários faziam, mas o conteúdo do elogio são suas fraquezas. É um texto cheio de ironia, que deve ser lido com atenção ao tom.

Explicação de 2 Coríntios 11

Versículos 1 a 6: o zelo de Deus pela Igreja

Paulo pede que os coríntios suportem um pouco de loucura da parte dele. Diz que tem por eles o próprio zelo de Deus. Ele os uniu a um só esposo, para apresentá-los a Cristo como virgem pura. A imagem do povo como esposa de Deus vem dos profetas, como Oseias 2,21 e 22, e é aplicada à Igreja, esposa de Cristo (Ef 5,25 a 27).

Paulo teme que, assim como a serpente enganou Eva com astúcia (Gn 3), os pensamentos deles se corrompam e se afastem da simplicidade e da pureza diante de Cristo. Os novos pregadores anunciavam, na prática, outro Jesus, outro espírito, outro evangelho. E os coríntios aceitavam com facilidade. Paulo admite que talvez não seja um orador profissional, mas não lhe falta conhecimento.

Versículos 7 a 11: anunciar o Evangelho de graça

Uma das críticas a Paulo era que ele não aceitava sustento dos coríntios, como faziam os outros mestres. No mundo grego, isso podia ser visto como sinal de que seu ensino tinha pouco valor, ou como recusa de amizade. Paulo pergunta, com ironia, se foi um pecado anunciar o Evangelho de graça.

Ele explica que foi ajudado pelos irmãos da Macedônia para não ser peso para ninguém em Corinto. Paulo trabalhava com as próprias mãos, fazendo tendas (At 18,3). E garante que continuará assim, não por falta de amor, Deus sabe que os ama, mas para não dar pretexto aos adversários.

Versículos 12 a 15: falsos apóstolos

Aqui Paulo é duro. Esses pregadores são falsos apóstolos, trabalhadores desonestos, que se disfarçam de apóstolos de Cristo. E acrescenta: não é de admirar, pois o próprio Satanás se disfarça de anjo de luz. Também seus servidores se disfarçam de servidores da justiça, mas o fim deles será de acordo com suas obras.

A frase sobre o anjo de luz é um alerta permanente. O mal raramente se apresenta como mal. Muitas vezes vem com aparência de bem, de piedade ou de verdade. Por isso é preciso discernimento. Veja mais em anjos e demônios na doutrina católica.

Versículos 16 a 21a: o discurso do insensato

Paulo pede de novo que ninguém o tome por louco, ou que pelo menos o aceitem como louco para que também ele possa se gloriar um pouco. Ele deixa claro que isso não é falar segundo o Senhor. Com muita ironia, diz que os coríntios, tão sensatos, suportam com prazer os insensatos: aceitam ser escravizados, explorados, tratados com arrogância, até esbofeteados. E conclui, ironicamente, que ele foi fraco demais para fazer isso.

Versículos 21b a 29: a lista dos sofrimentos

Então começa o elogio. Os adversários se gloriam de ser hebreus, israelitas, descendência de Abraão? Paulo também é. São servos de Cristo? Paulo, falando como louco, diz que é mais ainda. E apresenta, como credenciais, não sucessos, mas sofrimentos.

Trabalhos, prisões, açoites sem conta, perigos de morte. Cinco vezes recebeu dos judeus os quarenta açoites menos um: a Lei limitava a pena a quarenta golpes (Dt 25,3), e o costume era parar em trinta e nove para não ultrapassar o limite. Três vezes foi batido com varas, castigo romano, como em Filipos (At 16,22 e 23). Uma vez foi apedrejado, em Listra (At 14,19). Três vezes naufragou e passou uma noite e um dia em alto-mar. Muitos desses fatos não estão narrados nos Atos, o que mostra que a vida de Paulo foi ainda mais dura do que conhecemos.

Ele cita perigos de rios, de assaltantes, do próprio povo e dos pagãos, na cidade, no deserto e no mar, e entre falsos irmãos. Fome, sede, jejuns, frio e falta de roupa. E, acima de tudo, a preocupação diária com todas as igrejas. Quem fraqueja sem que ele fraqueje também? Quem tropeça sem que ele arda por dentro? O maior peso de Paulo não é físico: é o amor pastoral.

Versículos 30 a 33: gloriar-se da fraqueza

Paulo chega à conclusão do seu raciocínio: se é preciso se gloriar, ele se gloriará das suas fraquezas. E jura diante de Deus que não mente. Para terminar, conta um episódio quase cômico: em Damasco, o governador do rei Aretas vigiava a cidade para prendê-lo, e ele foi descido num cesto por uma janela da muralha e escapou. Aretas IV era rei dos nabateus. Os Atos narram a mesma fuga, atribuindo a perseguição aos judeus da cidade (At 9,23 a 25). Os soldados romanos recebiam honra por ser os primeiros a subir uma muralha inimiga. Paulo se gaba de ter descido uma muralha, fugindo.

O que 2 Coríntios 11 ensina para a fé católica?

O capítulo apresenta a Igreja como esposa de Cristo, chamada à fidelidade e à pureza da fé. A Igreja tem o dever de guardar o Evangelho recebido dos apóstolos e de não aceitar “outro evangelho”. Essa é uma das raízes da importância da Tradição apostólica.

Também alerta para o discernimento espiritual. O mal pode se disfarçar de bem. Por isso a fé deve ser vivida em comunhão com a Igreja, que ajuda a reconhecer o que vem de Deus.

Por fim, mostra o modelo do pastor segundo Cristo: alguém que se gasta pelo rebanho, sofre por ele e carrega no coração a preocupação com todas as comunidades. A vida de São Paulo é o melhor comentário deste capítulo.

Reflexão para hoje

Hoje há muitas vozes que falam de Deus, de espiritualidade e de felicidade, nem todas fiéis ao Evangelho. Algumas são muito atraentes, eloquentes, cheias de promessas fáceis. Paulo nos ensina a desconfiar do brilho exterior e a perguntar: isso me leva ao Jesus que morreu e ressuscitou, ou a outro Jesus, feito sob medida?

A lista de sofrimentos de Paulo também pode consolar quem está cansado de servir. Pais, catequistas, ministros, voluntários, todos conhecem noites sem dormir e preocupações com os outros. Paulo não esconde esse peso. Ele mostra que esse cansaço vivido por amor é sinal de autenticidade, não de fracasso.

E o episódio do cesto tem uma lição de humildade. O grande apóstolo foi descido por uma janela, numa fuga nada heroica. Deus também se serve dos nossos momentos sem glória.

Para rezar com 2 Coríntios 11

  • Sei distinguir o Evangelho verdadeiro das mensagens que apenas parecem boas?
  • Pelo bem de quem eu tenho me cansado, e entrego esse cansaço a Deus?
  • Consigo aceitar os momentos sem glória da minha vida como lugar onde Deus age?

Sugestão de oração:

Senhor Jesus, esposo da Igreja, guardai-me fiel ao vosso Evangelho. Dai-me discernimento para não ser enganado por aparências de bem. Fortalecei todos os que se cansam pelo bem dos outros e ensinai-me a amar a vossa Igreja com o zelo de São Paulo. Amém.

Fontes

Bíblia Sagrada (tradução da CNBB).

Perguntas sobre 2 Coríntios 11

Quem eram os “superapóstolos” de 2 Coríntios 11?

Eram pregadores de origem judaica que chegaram a Corinto, se apresentavam como apóstolos superiores e criticavam Paulo. Ele os chama com ironia de superapóstolos e depois de falsos apóstolos.

O que significa que Satanás se disfarça de anjo de luz?

Significa que o mal costuma se apresentar com aparência de bem, de piedade ou de verdade. Por isso Paulo pede discernimento diante de quem anuncia outro evangelho.

Por que Paulo recebeu “quarenta açoites menos um”?

A Lei de Moisés limitava a pena a quarenta golpes (Dt 25,3). O costume era aplicar trinta e nove para não correr o risco de ultrapassar o limite.

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