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1 Timóteo

1 Timóteo 6: o amor ao dinheiro, raiz de todos os males

Leia 1 Timóteo 6 na sua Bíblia e acompanhe aqui a explicação, o que a Igreja ensina e uma reflexão para rezar.

São Paulo de manto vermelho lê com atenção um livro aberto, com a espada ao lado
Guercino, São Paulo, séc. XVII. Domínio público, via Wikimedia Commons.

1 Timóteo 6 encerra a carta com advertências sobre os falsos mestres que fazem da religião fonte de lucro. Paulo ensina que a piedade com contentamento é a verdadeira riqueza e que o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males. Exorta Timóteo ao bom combate da fé, orienta os ricos a serem generosos e pede que se guarde o depósito recebido.

Contexto de 1 Timóteo 6

É o último capítulo da carta e retoma temas do começo: os falsos mestres (capítulo 1) e a missão de Timóteo de guardar a sã doutrina. Éfeso era uma cidade comercial e rica, com grandes diferenças sociais. Na comunidade havia escravos e senhores, ricos e pobres. Paulo fala a cada grupo e termina com um tom solene, quase uma última recomendação ao discípulo.

Explicação de 1 Timóteo 6

Versículos 1 e 2: os escravos e seus senhores

Paulo pede aos escravos cristãos que respeitem seus senhores, para que o nome de Deus e a doutrina não sejam difamados. Os que têm senhores cristãos não devem desprezá-los por serem irmãos, mas servi-los ainda melhor.

Este texto pede leitura cuidadosa. A escravidão era parte da estrutura de todo o Império Romano, e os primeiros cristãos, uma pequena minoria, não tinham meios de aboli-la. Paulo não a aprova como ideal. Ele semeia algo que a corrói por dentro: senhor e escravo são irmãos em Cristo (veja Gl 3,28 e a Carta a Filêmon, onde pede que o escravo Onésimo seja recebido como irmão). Na lista de pecados de 1Tm 1,10, o tráfico de pessoas aparece entre os males graves. A Igreja, ao longo da história, tirou as consequências desse Evangelho e hoje ensina claramente que a escravidão é uma grave ofensa à dignidade humana.

Versículos 3 a 10: a piedade não é fonte de lucro

Quem ensina outra doutrina e não aceita as palavras sadias de nosso Senhor Jesus Cristo é orgulhoso e nada entende. Tem a mania das discussões e das brigas de palavras, que geram inveja, discórdia, ofensas e suspeitas. São pessoas de mente corrompida, que pensam que a religião é um meio de ganhar dinheiro.

Paulo vira o argumento: a piedade é, sim, grande lucro, quando acompanhada de contentamento, isto é, a capacidade de viver satisfeito com o necessário. Nada trouxemos ao mundo e nada podemos levar dele (veja Jó 1,21). Tendo alimento e roupa, fiquemos contentes.

Os que querem enriquecer a qualquer custo caem em tentação, em armadilhas e em muitos desejos insensatos e nocivos, que afundam as pessoas na ruína e na perdição. E vem a frase famosa: "a raiz de todos os males é o amor ao dinheiro" (1Tm 6,10). O problema não é o dinheiro em si, mas o apego a ele. Por causa dessa cobiça, alguns se desviaram da fé e se torturaram com muitos sofrimentos.

Versículos 11 a 16: o bom combate da fé

Timóteo é chamado de "homem de Deus", título dado no Antigo Testamento a Moisés e aos profetas. Ele deve fugir dessas coisas e buscar a justiça, a piedade, a fé, o amor, a perseverança e a mansidão. Deve combater o bom combate da fé e conquistar a vida eterna, para a qual foi chamado quando fez sua bela profissão de fé diante de muitas testemunhas, talvez no batismo ou na ordenação.

Paulo lhe dá uma ordem solene, diante de Deus que dá vida a todas as coisas e de Cristo Jesus, que diante de Pôncio Pilatos deu o seu belo testemunho. É uma das poucas menções de Pilatos fora dos Evangelhos e dos Atos, e ecoa o Credo que rezamos. Timóteo deve guardar o mandamento sem mancha até a manifestação de Nosso Senhor Jesus Cristo, que Deus mostrará no tempo certo.

Segue uma doxologia: Deus é o bendito e único Soberano, Rei dos reis e Senhor dos senhores, o único que possui a imortalidade, que habita uma luz inacessível, que nenhum ser humano viu nem pode ver. Numa cidade onde se cultuavam deuses e o imperador, essas palavras afirmam que só Deus é Senhor.

Versículos 17 a 19: conselho aos ricos

Aos ricos deste mundo, Paulo não manda abandonar tudo, mas lhes dá uma direção. Não sejam orgulhosos, nem ponham a esperança na instabilidade das riquezas, mas em Deus, que nos dá tudo com abundância para que desfrutemos. Que façam o bem, sejam ricos em boas obras, generosos e dispostos a partilhar. Assim juntarão um tesouro que é base sólida para o futuro e alcançarão a verdadeira vida. É um eco do ensino de Jesus sobre o tesouro no céu (Mt 6,19-21).

Versículos 20 e 21: guarda o depósito

A carta termina com um apelo: Timóteo, guarda o depósito. Depósito era aquilo que se confiava a alguém para ser guardado e devolvido intacto. Aqui é a fé recebida dos apóstolos. Timóteo deve evitar as conversas vazias e profanas e as contradições de uma falsa ciência, em grego gnose, isto é, um suposto conhecimento superior. Alguns, professando essa ciência, se desviaram da fé. A graça esteja convosco.

O que 1 Timóteo 6 ensina para a fé católica?

O tema do depósito da fé é central para a Igreja. O Catecismo explica que os apóstolos confiaram à Igreja inteira o depósito da fé, contido na Sagrada Tradição e na Sagrada Escritura, e cita esta passagem (CIC 84). O Magistério não está acima desse depósito, mas a seu serviço, para guardá-lo e transmiti-lo fielmente.

A doutrina social da Igreja também se apoia neste capítulo. Os bens da terra têm um destino universal: a riqueza é um dom que traz responsabilidade, e o rico é chamado a partilhar. A cobiça é condenada pelo décimo mandamento. O contentamento, ou sobriedade, é uma virtude cristã que liberta do consumismo.

Por fim, a menção de Pôncio Pilatos e da manifestação de Cristo no fim dos tempos mostra que a fé está ligada a fatos reais da história e espera a volta gloriosa do Senhor, como professamos no Credo.

Reflexão para hoje

Vivemos rodeados de anúncios que dizem que seremos felizes quando tivermos mais. Paulo propõe outra medida: ter o necessário e estar em paz com Deus. Isso não significa desprezar o trabalho ou a prosperidade honesta, mas não deixar que o dinheiro ocupe o lugar de Deus. Uma boa pergunta para o fim do mês: meu modo de gastar mostra em que coloco minha esperança?

O capítulo também alerta contra a religião usada como negócio. Desconfie de quem promete bênçãos em troca de dinheiro. A Igreja pede o dízimo e a partilha para sustentar a missão e os pobres, mas a graça de Deus não se compra.

E para quem tem mais, o conselho é ser rico em boas obras. Ajudar uma família necessitada, apoiar a paróquia, pagar com justiça quem trabalha para nós: assim o dinheiro se torna caminho de vida eterna, e não armadilha. Veja também nosso texto sobre a virtude da caridade.

Para rezar com 1 Timóteo 6

  • Estou contente com o que tenho, ou vivo inquieto querendo sempre mais?
  • Onde coloco minha segurança: nas riquezas ou em Deus?
  • Que boa obra concreta posso fazer com meus bens neste mês?

Sugestão de oração:

Senhor, Rei dos reis, que habitas uma luz inacessível, livra meu coração do amor ao dinheiro. Dá-me contentamento com o necessário e generosidade com quem precisa. Ajuda-me a combater o bom combate da fé e a guardar intacto o tesouro que recebi da tua Igreja. Amém.

Fontes

Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica.

Perguntas sobre 1 Timóteo 6

A Bíblia diz que o dinheiro é a raiz de todos os males?

Não exatamente. 1 Timóteo 6,10 diz que a raiz de todos os males é o amor ao dinheiro, isto é, o apego e a cobiça. O dinheiro usado com justiça e generosidade pode fazer muito bem.

O que é o depósito da fé em 1 Timóteo 6,20?

É o conjunto da fé recebida dos apóstolos, confiado à Igreja para ser guardado e transmitido intacto. O Catecismo ensina que ele está contido na Tradição e na Sagrada Escritura.

Por que 1 Timóteo 6 manda os escravos obedecerem?

Paulo falava dentro de uma sociedade escravista que os cristãos não podiam mudar de imediato. Ele semeou a igualdade de todos como irmãos em Cristo, e a Igreja hoje ensina claramente que a escravidão ofende gravemente a dignidade humana.

Está lendo a Bíblia inteira? Acompanhe no Plano de leitura da Bíblia ou reze o texto com a Lectio Divina.