S. João XXIII, papa
Celebrado em 11 de Outubro
O pontificado de João XXIII não durou cinco anos, mas é um daqueles que nunca se esquece. Depois de anos de experiência no exterior e de passar por duas guerras, o "Papa bom" convocou o Concílio Vaticano II, em 1959, para enfrentar os desafios do mundo contemporâneo. João XXIII é santo desde 2014.
S. João XXIII: O Papa da Bondade e da Renovação
No calendário litúrgico, o dia 11 de outubro nos convida a celebrar a memória de um dos mais queridos e influentes pontífices da história recente da Igreja: São João XXIII. Conhecido afetuosamente como o "Papa Bom", sua passagem pela Cátedra de Pedro, embora breve, foi um catalisador de transformações profundas, cujo eco ressoa até os dias de hoje. Ele não apenas compreendeu os desafios de seu tempo, mas teve a coragem e a fé de guiar a Igreja para um novo horizonte, inaugurando uma era de renovação e diálogo com o mundo moderno.
Vida e História: Um Pastor para Tempos Turbulentos
A vida de Angelo Giuseppe Roncalli, que mais tarde seria o Papa João XXIII, foi moldada por um século de profundas mudanças e conflitos. Nascido no final do século XIX, ele viveu intensamente os acontecimentos do século XX, incluindo as duas Guerras Mundiais que devastaram a Europa e o mundo. Essa experiência não foi meramente passiva; suas "anos de experiência no exterior", como diplomata e representante da Santa Sé em diversas nações, proporcionaram-lhe uma visão de mundo rara e privilegiada. Ele viu de perto o sofrimento humano, a complexidade das relações internacionais e a busca incessante por paz em um planeta dilacerado por ideologias e conflitos.
Essa vivência internacional, longe dos corredores tradicionais do Vaticano, permitiu-lhe desenvolver uma sensibilidade única para as realidades fora dos muros da Igreja. Ele não era um teórico isolado, mas um pastor que conhecia o "cheiro das ovelhas", e mais ainda, o cheiro do mundo. Essa vasta experiência, aliada a uma profunda fé e um caráter afável, preparou-o para uma missão que poucos poderiam prever.
Eleito Papa em 1958, já numa idade avançada, muitos o consideraram um pontífice de transição. No entanto, o que se seguiu foi uma das mais surpreendentes e impactantes lideranças na história da Igreja. Em 1959, menos de um ano após sua eleição, João XXIII chocou o mundo e a própria Cúria Romana ao anunciar sua intenção de convocar um Concílio Ecumênico: o Concílio Vaticano II.
Sua motivação era clara: "enfrentar os desafios do mundo contemporâneo". A Igreja precisava de um aggiornamento, uma atualização, para comunicar a perene mensagem de Cristo de forma relevante para uma nova geração. O mundo do pós-guerra era diferente: globalizado, secularizado, marcado por avanços científicos e tecnológicos, mas também por novas formas de pobreza e injustiça. João XXIII percebeu que a Igreja não podia permanecer isolada, mas deveria abrir suas janelas e portas para dialogar, compreender e iluminar essa realidade complexa com a luz do Evangelho. Seu pontificado, que durou menos de cinco anos, foi dominado por essa visão audaciosa, que mudaria para sempre o rosto da Igreja Católica.
Espiritualidade e Virtudes: A Simplicidade de um Coração Paterno
A alcunha de "Papa Bom" não era apenas um título carinhoso; era a expressão de uma espiritualidade profundamente encarnada. A bondade de João XXIII não era ingenuidade, mas uma virtude evangélica que irradiava de um coração humilde e cheio de caridade. Sua simplicidade era notável: ele recebia a todos com um sorriso acolhedor, tratava cardeais e camponeses com a mesma dignidade e ouvia com atenção genuína.
Sua relação com Deus era caracterizada por uma fé sólida e uma confiança filial na Providência divina. A decisão de convocar o Concílio Vaticano II, em meio a céticos e resistentes, demonstrava uma coragem que só poderia vir de uma profunda convicção de que estava seguindo uma inspiração do Espírito Santo. Ele não temia as mudanças, mas as via como oportunidades para a Igreja crescer e se renovar, sempre fiel à sua essência.
O carisma de João XXIII era o de um pai amoroso e acessível. Ele quebrou muitos protocolos papais, saindo do Vaticano para visitar hospitais e prisões, mostrando que a Igreja deve ir ao encontro dos que sofrem, dos marginalizados. Sua pastoral era de inclusão, de diálogo e de esperança. Ele via o bem em cada pessoa e em cada situação, buscando sempre pontes em vez de muros. Essa abertura e otimismo eram frutos de uma vida de oração e discernimento, que o capacitava a ver o mundo e a Igreja com os olhos de Cristo.
Legado e Influência: Um Concílio para o Futuro
O legado de São João XXIII é inseparável do Concílio Vaticano II. Embora ele não tenha visto sua conclusão – faleceu em 1963, antes do término do Concílio –, sua visão e impulso inicial foram decisivos. O Vaticano II transformou a liturgia, promoveu o ecumenismo, incentivou o papel dos leigos na Igreja, reafirmou a dignidade da pessoa humana e abriu a Igreja para um diálogo mais profundo com o mundo moderno e outras religiões. Foi um evento de proporções gigantescas, um verdadeiro Pentecostes para a Igreja, que continua a moldar sua vida e missão.
Além do Concílio, João XXIII deixou um legado de documentos importantes, como as encíclicas Mater et Magistra (sobre a questão social) e, notavelmente, Pacem in Terris (Paz na Terra), escrita no auge da Guerra Fria. Esta última foi um apelo profético pela paz mundial, pela justiça social e pelos direitos humanos, dirigida não apenas aos católicos, mas a "todos os homens de boa vontade", demonstrando sua visão universal e seu compromisso com a dignidade de cada pessoa.
Sua santidade foi reconhecida oficialmente pela Igreja em 2014, quando foi canonizado pelo Papa Francisco. Sua canonização foi um tributo à sua vida de virtude heroica, à sua profunda fé e à sua capacidade de renovar a Igreja e inspirar milhões de pessoas com sua bondade e sua visão de um futuro de esperança. Sua obra, o Vaticano II, continua sendo um farol que guia a Igreja em sua missão no século XXI.
Reflexão para Hoje: O Chamado à Abertura e à Caridade
A vida de São João XXIII oferece lições valiosas para nós, cristãos do século XXI.
Primeiramente, ele nos ensina a coragem da fé e a abertura ao Espírito Santo. Em um mundo que muda rapidamente, somos frequentemente tentados ao medo do novo, à rigidez ou ao fechamento. João XXIII nos desafia a discernir os sinais dos tempos e a ter a ousadia de "abrir as janelas" de nossa própria vida, de nossas comunidades e de nossa Igreja para permitir que o Espírito sopre novos ventos de renovação e criatividade.
Em segundo lugar, sua alcunha de "Papa Bom" nos recorda a primazia da caridade e da simplicidade evangélica. Em um mundo complexo e muitas vezes polarizado, a bondade genuína, a humildade e a capacidade de tratar a todos com dignidade e amor são virtudes revolucionárias. Ele nos convida a sermos pontes, não muros; a buscar o diálogo, não o confronto; a irradiar a alegria do Evangelho em cada encontro.
Por fim, São João XXIII nos inspira a um compromisso profético com a paz e a justiça. Sua encíclica Pacem in Terris é um lembrete perene de que a fé não pode ser divorciada do compromisso com um mundo mais justo e fraterno. Somos chamados a ser construtores da paz em nossos lares, comunidades e no cenário global, defendendo a dignidade de cada pessoa e buscando soluções para os desafios contemporâneos à luz do Evangelho.
Que a celebração de São João XXIII nos inspire a viver com a mesma fé, bondade e coragem, contribuindo para uma Igreja e um mundo mais próximos do Reino de Deus.