Tempo Comum, 30ª semana Liturgia de hoje
Católicos Orantes
Dúvidas da Fé

Os quatro temperamentos e a vida espiritual

Colérico, sanguíneo, melancólico ou fleumático? Entenda a teoria dos temperamentos e como ela ajuda no autoconhecimento cristão.

Atualizado em 7 min de leitura
Os quatro temperamentos e a vida espiritual em obra de Albrecht Dürer
Vier Apostel The Four Apostles, Albrecht Dürer, 1526. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Os quatro temperamentos (colérico, sanguíneo, melancólico e fleumático) são uma forma antiga de descrever as tendências naturais com que cada pessoa reage ao mundo. Na vida espiritual, servem como ferramenta de autoconhecimento: ajudam a perceber os pontos fortes que Deus nos deu e as fraquezas que precisamos combater. Não são doutrina da Igreja nem diagnóstico psicológico, e não substituem a graça, que aperfeiçoa a natureza de cada um.

O que são os quatro temperamentos?

Temperamento é a disposição natural, em grande parte inata, que marca o modo como reagimos às impressões: com mais rapidez ou lentidão, com mais intensidade ou leveza, de modo mais duradouro ou passageiro. Autores espirituais costumam resumir assim os quatro tipos:

TemperamentoReação típicaPonto forteDesafio comum
ColéricoRápida e intensa, com impressões duradourasDeterminação, liderançaIra, orgulho, impaciência
SanguíneoRápida, mas passageiraAlegria, sociabilidadeInconstância, superficialidade
MelancólicoLenta, mas profunda e duradouraProfundidade, fidelidadePessimismo, escrúpulo, rancor
FleumáticoLenta e moderadaCalma, paciênciaIndolência, omissão

Essas descrições são tendências, não destinos. Duas pessoas do mesmo temperamento podem ser muito diferentes por causa da educação, das escolhas, das virtudes adquiridas e, sobretudo, da ação de Deus na alma.

Leia também: Estilos de apego: o que são e como a fé ajuda a amar melhor

De onde vem a teoria dos temperamentos?

A ideia nasceu na medicina da Grécia antiga. Hipócrates, no século V antes de Cristo, explicava a saúde pelo equilíbrio de quatro humores do corpo: sangue, bile amarela, bile negra e fleuma. Séculos depois, o médico Galeno, no século II da era cristã, associou a predominância de cada humor a um modo de ser. Daí os nomes: sanguíneo (sangue), colérico (bile amarela), melancólico (bile negra) e fleumático (fleuma).

A medicina moderna abandonou a teoria dos humores. Mas a observação de que as pessoas têm modos típicos de reagir continuou útil como descrição prática do comportamento, e foi assim que ela chegou à literatura espiritual.

Na tradição espiritual católica

No século XX, o sacerdote Conrad Hock escreveu o livro Os quatro temperamentos, muito difundido em ambientes católicos, com conselhos concretos para cada tipo. Mais recentemente, o casal católico Art e Laraine Bennett popularizou o tema no livro O temperamento que Deus te deu, aplicando-o à vida familiar, ao casamento e à educação dos filhos. Alguns diretores espirituais usam essa linguagem porque ela ajuda a pessoa a se conhecer sem complicação.

A teoria dos temperamentos é doutrina da Igreja?

Não. A Igreja nunca definiu os temperamentos como verdade de fé, e o Catecismo não ensina essa classificação. Ela é uma ferramenta humana, útil e antiga, que pode ser usada com prudência. Também não é um diagnóstico psicológico: não serve para identificar transtornos, nem substitui a avaliação de um médico ou psicólogo quando há sofrimento persistente, ansiedade, tristeza profunda ou dificuldades sérias de convivência.

O que a Igreja ensina, e isso é doutrina segura, é que cada pessoa é criada por Deus com uma natureza única, ferida pelo pecado original e chamada à santidade pela graça. Os temperamentos ajudam a ler essa natureza concreta; a fé diz para onde ela deve ser conduzida.

Leia também: Temperamento melancólico: virtudes, desafios e santidade

Temperamento, caráter e personalidade: qual a diferença?

  • Temperamento: o "material" que recebemos, nossa tendência natural de reagir. Não escolhemos.
  • Caráter: o que construímos com a liberdade, os hábitos e as virtudes. É aqui que entra o esforço moral.
  • Personalidade: o conjunto, a pessoa concreta que resulta do temperamento trabalhado pelo caráter, pela história e pela graça.

Por isso ninguém pode dizer "sou colérico, então tenho o direito de explodir" ou "sou fleumático, não nasci para me esforçar". O temperamento explica uma tendência; não justifica o pecado. As virtudes cardeais e teologais são para todos.

A graça supõe a natureza: o que isso significa?

Santo Tomás de Aquino formulou um princípio que ilumina todo este tema: a graça não destrói a natureza, mas a aperfeiçoa. Deus não apaga o temperamento de ninguém. Ele cura o que está ferido e eleva o que é bom. A energia do colérico pode virar zelo apostólico; a alegria do sanguíneo, caridade acolhedora; a profundidade do melancólico, vida interior; a calma do fleumático, paz que pacifica.

"Basta-te a minha graça, pois é na fraqueza que a força se manifesta plenamente." (2Cor 12,9)

Como usar os temperamentos no caminho espiritual?

  1. Descubra seu temperamento predominante: faça o teste de temperamento e confirme o resultado com quem convive com você. Os outros costumam nos ver com mais clareza.
  2. Identifique o defeito dominante: cada temperamento tem uma inclinação mais forte para certos pecados capitais. Concentre-se nele no exame de consciência diário.
  3. Escolha uma virtude oposta: trabalhe uma virtude por vez, com propósitos concretos e pequenos.
  4. Agradeça seus dons: o autoconhecimento cristão não é só olhar defeitos. Reconheça e coloque a serviço os talentos naturais.
  5. Adapte a oração: cada temperamento tem facilidades e dificuldades próprias na oração. Conhecê-las evita desânimo.
  6. Use para amar melhor: entender o temperamento do cônjuge, dos filhos e dos colegas ajuda a ter paciência e a valorizar as diferenças.
  7. Busque direção espiritual: um sacerdote ou orientador experiente ajuda a aplicar tudo isso com equilíbrio.

Os temperamentos na família e na comunidade

Um dos frutos mais bonitos desse autoconhecimento é a caridade nas relações. Muitas brigas em casa nascem de modos diferentes de reagir. O cônjuge colérico quer resolver tudo na hora; o fleumático precisa de tempo. O filho sanguíneo fala de tudo; o melancólico guarda o que sente. Quando entendemos isso, deixamos de interpretar cada diferença como falta de amor.

O mesmo vale para a paróquia e os grupos de oração. Uma comunidade saudável precisa de quem tome a frente, de quem anime, de quem pense com profundidade e de quem mantenha a paz. São Paulo usa a imagem do corpo para falar dos dons: cada membro tem sua função, e nenhum pode dizer ao outro que não precisa dele (cf. 1Cor 12,21).

Quais erros evitar?

  • Rotular pessoas e reduzi-las a um tipo.
  • Usar o temperamento como desculpa para não mudar.
  • Achar que um temperamento é "mais santo" que outro. Há santos de todos os modos de ser, e todos chegaram lá pela graça.
  • Confundir traços de temperamento com problemas de saúde mental. Tristeza persistente não é "só melancolia"; ansiedade intensa não é "só jeito". Procure ajuda profissional quando necessário.

Perguntas frequentes

Quais são os quatro temperamentos?

Colérico, sanguíneo, melancólico e fleumático. Segundo os autores que usam essa classificação, costuma haver um temperamento predominante, com traços de um segundo.

A Igreja Católica ensina a teoria dos temperamentos?

Não como doutrina. É uma ferramenta antiga de autoconhecimento usada por autores espirituais, que pode ajudar desde que usada com prudência.

É possível mudar de temperamento?

O temperamento de base tende a permanecer, mas o caráter muda com a virtude e a graça. Você não deixa de ser quem é, mas pode ser purificado e aperfeiçoado.

Como descobrir meu temperamento?

Observe como você reage às situações, pergunte a quem o conhece bem e faça o teste de temperamento do Católicos Orantes como ponto de partida para a reflexão.

Para aprofundar

Fontes

Pe. Conrad Hock, Os quatro temperamentos; Art e Laraine Bennett, O temperamento que Deus te deu; Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica (princípio de que a graça não destrói a natureza, mas a aperfeiçoa); Catecismo da Igreja Católica, parte sobre as virtudes e as paixões; Bíblia Sagrada (tradução da CNBB). As explicações deste artigo não substituem o acompanhamento de um sacerdote.