Muitos católicos, ao olharem para o calendário litúrgico e se depararem com a expressão Tempo Comum, podem cair no erro de pensar que se trata de um período de menor importância, uma época "banal" ou "vazia" entre as grandes festas do Natal e da Páscoa. Nada poderia estar mais longe da verdade. Na sabedoria da Santa Igreja, o Tempo Comum é, na realidade, o tempo da graça operante na normalidade da vida, o momento propício para o crescimento silencioso e constante da semente da fé.
Diferente dos tempos fortes, como o Advento, que nos prepara para a vinda de Cristo, ou a Quaresma, que nos convida à penitência rumo à Ressurreição, o Tempo Comum não celebra um aspecto específico do mistério de Cristo. Ele celebra o próprio mistério de Cristo em sua plenitude. É o tempo de caminhar com Jesus pelas estradas da Galileia, ouvir seus ensinamentos no Sermão da Montanha, ver seus milagres e aprender a ser discípulo no dia a dia de nossa existência.
Neste artigo, exploraremos a profundidade teológica e espiritual deste tempo litúrgico, fundamentados no Magistério da Igreja e nas Sagradas Escrituras, para descobrirmos como santificar o nosso cotidiano.
O que é o Tempo Comum na Liturgia?
O Tempo Comum (em latim, Tempus per annum) é a parte do Ano Litúrgico que não está incluída nos ciclos do Natal e da Páscoa. Segundo as Normas Universais sobre o Ano Litúrgico e o Calendário, este tempo compreende 33 ou 34 semanas no curso do ano. É o período mais longo do calendário cristão, ocupando grande parte da nossa vida orante.
Este tempo é dividido em duas partes distintas:
- Primeira parte: Inicia-se na segunda-feira após a Festa do Batismo do Senhor e estende-se até a terça-feira antes da Quarta-feira de Cinzas.
- Segunda parte: Recomeça na segunda-feira após o Domingo de Pentecostes e termina antes das Primeiras Vésperas do Primeiro Domingo do Advento.
A cor litúrgica deste tempo é o verde. Longe de ser uma escolha aleatória, o verde na liturgia simboliza a esperança e o crescimento espiritual. Assim como uma planta precisa de tempo, sol e água para crescer silenciosamente até dar frutos, a alma cristã necessita deste "tempo comum" para amadurecer a fé recebida no Batismo e renovada na Páscoa. Para compreender melhor a simbologia das cores sagradas, é fundamental estudar as cores litúrgicas e seus significados na tradição da Igreja.
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A Espiritualidade do Cotidiano: A Vida Oculta de Jesus
Para vivermos bem o Tempo Comum, devemos olhar para a Vida Oculta de Jesus em Nazaré. O Catecismo da Igreja Católica (CIC) nos ensina que, durante a maior parte de sua vida, Jesus compartilhou a condição da imensa maioria dos homens: uma vida cotidiana sem grandeza aparente, vida de trabalho manual, vida religiosa judaica submetida à Lei de Deus, vida na comunidade (CIC 531).
Jesus passou cerca de 30 anos vivendo o que chamaríamos de "tempo comum". Ele trabalhou com mãos humanas, amou com coração humano e obedeceu a seus pais terrenos. O Evangelho de Lucas resume esses anos dizendo: "Jesus desceu, então, com seus pais para Nazaré e era-lhes submisso... E Jesus crescia em sabedoria, em estatura e em graça, diante de Deus e dos homens" (Lc 2,51-52).
Isso nos revela uma verdade extraordinária: a rotina é lugar de santificação. Não precisamos estar em êxtase místico constante ou realizando grandes milagres públicos para agradar a Deus. A santidade forja-se na fidelidade das pequenas coisas: no trabalho honesto, na louça lavada com amor, no cuidado com os filhos, na paciência no trânsito. O próprio Cristo santificou essas atividades ao realizá-las.
O exemplo de São José e a santificação do trabalho
Neste contexto, a figura de São José é primordial. Como carpinteiro, ele ensinou a Jesus o valor do trabalho e da dignidade humana. No Tempo Comum, somos chamados a imitar São José, Patrono da Igreja Universal, transformando nossos escritórios, fábricas e lares em verdadeiros altares onde oferecemos a Deus o sacrifício do nosso esforço diário.
A Liturgia da Palavra: O Caminho do Discipulado
Durante o Tempo Comum, a Igreja nos oferece uma leitura contínua dos Evangelhos Sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), distribuídos em um ciclo de três anos (Anos A, B e C) para as leituras dominicais. Isso nos permite percorrer toda a biografia e os ensinamentos de Cristo de forma pedagógica.
- Ano A: Lemos predominantemente o Evangelho de São Mateus, que destaca Jesus como o novo Moisés e o Mestre que cumpre as Escrituras.
- Ano B: Lemos o Evangelho de São Marcos, focado na identidade de Jesus como Filho de Deus e no segredo messiânico.
- Ano C: Lemos o Evangelho de São Lucas, o evangelista da misericórdia, que destaca a predileção de Jesus pelos pobres e pecadores.
- O Evangelho de São João é lido em tempos especiais e intercalado no final do Ano B.
Essa estrutura litúrgica tem um objetivo claro: formar o discípulo. Domingo após domingo, somos confrontados com as exigências do Reino de Deus. Ouvimos as parábolas, as bem-aventuranças e os chamados à conversão. O Tempo Comum é a "escola da Igreja", onde nos sentamos aos pés do Mestre para aprender a viver como Ele viveu.
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Como viver a santidade nas pequenas coisas?
A Constituição Dogmática Lumen Gentium, do Concílio Vaticano II, proclamou a "vocação universal à santidade". Todos os fiéis, de qualquer estado ou condição, são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade. Mas como fazer isso no Tempo Comum, quando não há grandes festas litúrgicas?
1. A fidelidade ao dever de estado
A santidade consiste em fazer a vontade de Deus. Para a maioria de nós, a vontade de Deus manifesta-se nos deveres do nosso estado de vida: ser um bom pai, uma boa mãe, um estudante dedicado, um profissional ético. São Francisco de Sales ensinava que florescemos onde Deus nos plantou.
2. A Pequena Via de Santa Teresinha
Uma grande mestra para o Tempo Comum é Santa Teresinha do Menino Jesus. Ela desenvolveu a "Pequena Via", que consiste em fazer as pequenas coisas com um grande amor. Apanhar um alfinete do chão por amor a Deus pode converter uma alma, dizia ela. Podemos aprender muito sobre essa espiritualidade ao estudar Santa Teresinha e o Pequeno Caminho, aplicando sua doutrina em nossas segundas-feiras monótonas ou nas terças-feiras cansativas.
3. A vida de oração constante
O Tempo Comum exige disciplina. Sem a emoção das grandes festas, é a fidelidade que sustenta a oração. É o tempo de enraizar hábitos:
- A oração da manhã (oferecimento do dia);
- A leitura orante da Bíblia (Lectio Divina);
- O exame de consciência à noite;
- A oração do Santo Terço.
Sobre esta última prática, a Virgem Maria, em diversas aparições aprovadas pela Igreja, pediu a oração diária do Rosário. Não apenas em maio ou outubro, mas sempre. Para aprofundar essa prática, recomenda-se o guia completo para rezar o Santo Terço, que nos ajuda a meditar a vida de Cristo repetidamente, dia após dia.
O Domingo: A Páscoa Semanal
O coração do Tempo Comum é o Domingo. O Papa São João Paulo II, na Carta Apostólica Dies Domini, recorda-nos que o Domingo não é apenas um "fim de semana", mas o "Dia do Senhor". Cada Domingo é uma "Páscoa semanal", onde celebramos a vitória de Cristo sobre a morte.
No Tempo Comum, o preceito dominical ganha uma relevância vital. É a âncora que impede que nossa semana seja tragada pelo secularismo. A Eucaristia dominical é a "fonte e o ápice" de toda a vida cristã (LG 11). É ali que levamos as alegrias e sofrimentos da semana que passou e buscamos força para a semana que se inicia.
A negligência com a Missa dominical no Tempo Comum é um sintoma de arrefecimento da fé. Como nos exorta a Carta aos Hebreus: "Não abandonemos a nossa assembleia, como é costume de alguns" (Hb 10,25).
Oração para viver bem o Tempo Comum
Para nos ajudar a viver a santidade neste tempo litúrgico, podemos recorrer à oração, pedindo a graça de ver Deus em todas as coisas. Abaixo, uma oração inspirada na tradição da Igreja para a santificação do cotidiano:
"Senhor Deus, que na vossa providência santificastes o tempo e a história através da Encarnação do vosso Filho, concedei-nos a graça de viver este Tempo Comum com extraordinário amor.
Que a monotonia dos dias não apague a chama da nossa fé, mas que, a exemplo da Sagrada Família de Nazaré, possamos encontrar-Vos no trabalho, no descanso e no convívio familiar.
Ensinai-nos, ó Pai, a valorizar o momento presente como o único tempo que temos para amar-Vos. Que a vossa Palavra seja lâmpada para os nossos pés em cada semana deste tempo litúrgico.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo. Amém."
Conclusão: O Extraordinário no Ordinário
O Tempo Comum é, portanto, o grande teste da nossa fé. É fácil ser cristão na emoção do Natal ou na solenidade da Páscoa; o desafio, e o mérito, está em ser cristão na terça-feira à tarde, quando ninguém está olhando, exceto Deus.
Como nos ensina São Paulo, o grande Apóstolo cujas cartas frequentemente lemos neste tempo: "Tudo o que fizerdes, em palavras ou obras, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai" (Cl 3,17). Que possamos aproveitar cada uma das semanas do Tempo Comum para tecer, com os fios dourados da oração e da caridade, o manto da nossa santidade diária. Não espere por momentos extraordinários; faça do seu tempo comum um tempo de graça.
Perguntas frequentes
Quantas semanas tem o Tempo Comum?
Segundo as Normas Universais sobre o Ano Litúrgico e o Calendário, o Tempo Comum compreende 33 ou 34 semanas, sendo o período mais longo do calendário cristão.
Quando começa e quando termina o Tempo Comum?
A primeira parte vai da segunda-feira após a Festa do Batismo do Senhor até a terça-feira antes da Quarta-feira de Cinzas. A segunda recomeça na segunda-feira após Pentecostes e termina antes das Primeiras Vésperas do 1º Domingo do Advento.
Por que a cor do Tempo Comum é verde?
O verde simboliza a esperança e o crescimento espiritual: assim como a planta cresce silenciosamente até dar frutos, a alma precisa deste tempo para amadurecer a fé recebida no Batismo e renovada na Páscoa.
Qual Evangelho é lido em cada ano litúrgico?
No Ano A lê-se predominantemente São Mateus; no Ano B, São Marcos; no Ano C, São Lucas. O Evangelho de São João é lido em tempos especiais e intercalado no Ano B.
Fontes
Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica (n. 531); Normas Universais sobre o Ano Litúrgico e o Calendário; Concílio Vaticano II, Constituição Dogmática Lumen Gentium (n. 11); São João Paulo II, Carta Apostólica Dies Domini.
As explicações deste artigo não substituem o acompanhamento de um sacerdote.