O Salmo 17 é a súplica de um inocente acusado e perseguido. Ele pede que Deus examine a sua causa, se esconde à sombra das asas do Senhor e termina com o desejo mais profundo de quem reza: contemplar a face de Deus e saciar-se da sua presença.
Contexto do Salmo 17
Na numeração litúrgica e da Vulgata, ele é o Salmo 16. O título hebraico o chama de “Oração de Davi”, atribuição que se recebe como tradição. É uma súplica individual, do tipo que os estudiosos chamam de oração do inocente: alguém sofre acusações injustas e recorre a Deus como juiz.
Em Israel, quem era acusado sem provas podia buscar refúgio no santuário e pedir o julgamento divino. Muitos estudiosos pensam que salmos como este nasceram desse ambiente, embora não haja certeza. O que se vê no texto é uma pessoa que fala com Deus de noite, sente-se cercada e confia que de manhã verá a salvação.
Explicação do Salmo 17
Versículos 1 e 2: ouve a causa justa
O salmista começa com três pedidos: ouve, atende, dá ouvidos. Ele insiste que a sua oração não sai de lábios mentirosos. Pede que a sentença venha da presença de Deus, porque só os olhos do Senhor veem o que é reto. Não se trata de orgulho: ele simplesmente não tem outro tribunal a quem apelar.
Versículos 3 a 5: o exame do coração
Ele diz que Deus pode sondar o seu coração, visitá-lo de noite, prová-lo como se prova o metal no fogo, e não encontrará maldade. Afirma que guardou a boca e evitou os caminhos do violento, seguindo as palavras de Deus.
Essa declaração de inocência pode soar estranha para nós, que sabemos que todos somos pecadores. Mas o salmista não diz que nunca pecou em nada; diz que, nesta causa concreta, não é culpado do que o acusam. É a consciência limpa diante de uma acusação injusta. Ele ainda pede que os seus passos fiquem firmes nas veredas de Deus, sinal de que reconhece precisar da ajuda divina para perseverar.
Versículos 6 a 9: a pupila dos olhos e a sombra das asas
Aqui o salmo ganha calor. O orante chama porque sabe que Deus responde. Pede que o Senhor mostre as maravilhas da sua misericórdia, ele que salva os que se refugiam à sua direita.
Vêm então duas imagens muito ternas: “Guarda-me como a pupila dos olhos, esconde-me à sombra das tuas asas” (Sl 17,8). A pupila é a parte do corpo que protegemos instintivamente, fechando a pálpebra antes de qualquer pensamento. As asas lembram a ave que cobre os filhotes, imagem presente também em Dt 32,10-11 e em outros salmos (Sl 36,8; Sl 91,4). Jesus usará uma imagem semelhante ao chorar sobre Jerusalém, comparando-se à galinha que quer reunir os pintinhos (Mt 23,37).
Versículos 10 a 12: o cerco dos inimigos
Os adversários são descritos com dureza. Fecharam o coração, que em hebraico se diz literalmente “fecharam a gordura”, expressão para a insensibilidade. Falam com arrogância, rodeiam os passos do justo, espreitam para derrubá-lo. São comparados a um leão faminto escondido à espera da presa. A imagem mostra o medo real de quem se sente caçado.
Versículos 13 a 15: levanta-te, Senhor, e verei a tua face
O salmista pede que Deus se levante, enfrente o inimigo e o derrube. Em seguida fala dos “homens deste mundo”, cuja parte está nesta vida: têm o ventre cheio, filhos fartos e ainda deixam sobras aos pequenos. O texto hebraico destes versículos é difícil e as traduções variam bastante, mas o contraste final é claro.
Enquanto eles se contentam com bens passageiros, o justo deseja outra coisa: na justiça, contemplará a face de Deus, e ao despertar se saciará da sua imagem. O “despertar” pode ser simplesmente o amanhecer depois de uma noite de angústia, quando o inocente esperava a resposta de Deus. Mas a Tradição cristã também ouviu aqui um eco da esperança da ressurreição e da visão de Deus.
O que o Salmo 17 ensina para a fé católica?
O salmo ensina que Deus é o verdadeiro juiz, que vê o coração. Diante de calúnias, a primeira atitude do fiel não é a vingança, mas a entrega da causa a Deus. Jesus, acusado injustamente diante do Sinédrio e de Pilatos, viveu isso de modo perfeito: São Pedro diz que, insultado, não respondia com insultos, mas entregava-se àquele que julga com justiça (1Pd 2,23).
Ensina também o desejo de ver a face de Deus. O Catecismo lembra que o desejo de Deus está inscrito no coração do homem, que foi criado por Deus e para Deus (CIC n. 27). O final do Salmo 17 é esse desejo em forma de oração: nada nesta vida sacia tanto quanto a presença do Senhor. A fé católica chama de visão beatífica essa plenitude prometida aos que morrem na graça de Deus.
Por fim, o salmo mostra o modo como a Igreja reza os salmos de súplica: unidos a Cristo, o Justo perseguido, e em nome de todos os que hoje sofrem injustiça.
Reflexão para hoje
Quase todo mundo já foi mal interpretado ou acusado de algo que não fez. No trabalho, na família, num grupo da igreja. A reação comum é se defender a qualquer custo, falar mal de quem falou mal, ou se fechar em mágoa. O Salmo 17 propõe outro caminho: levar a causa a Deus, de noite, com honestidade, deixando que ele examine o coração.
Esse exame é importante. Antes de dizer “sou inocente”, o salmista se deixa provar. Às vezes, ao rezar assim, descobrimos que temos parte de culpa; outras vezes, ganhamos a paz de saber que agimos com retidão. Em ambos os casos, saímos da oração mais livres.
E há o consolo das imagens: a pupila e as asas. Quem se sente frágil pode rezar com elas como uma criança que se esconde no colo. O final do salmo lembra que, por mais que outros pareçam ter mais sucesso e conforto, a nossa verdadeira satisfação é acordar diante de Deus.
Para rezar com o Salmo 17
- Existe alguma acusação ou mágoa que eu preciso entregar a Deus, em vez de alimentá-la?
- Deixo que o Senhor examine o meu coração, ou só peço que ele julgue os outros?
- O que me sacia de verdade: as coisas “desta vida” ou a presença de Deus?
Sugestão de oração:
Senhor, tu conheces o meu coração melhor do que eu. Examina-me e purifica o que não for reto. Quando eu for acusado ou incompreendido, guarda-me como a pupila dos teus olhos e esconde-me à sombra das tuas asas. Dá-me a paz de esperar a tua justiça e o desejo de ver a tua face. Amém.
Fontes
Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica.
Perguntas sobre Salmo 17
O que significa “guarda-me como a pupila dos olhos”?
O salmista do Salmo 17 diz que não tem pecado?
Qual é o sentido do último versículo do Salmo 17?
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