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Salmo 137: junto aos rios da Babilônia, explicado

Leia Salmo 137 na sua Bíblia e acompanhe aqui a explicação, o que a Igreja ensina e uma reflexão para rezar.

O rei Davi toca a harpa cercado de anjos
Hendrick ter Brugghen, O rei Davi tocando harpa entre anjos, 1628. Domínio público, via Wikimedia Commons.

O Salmo 137 é o lamento dos judeus levados para o exílio na Babilônia. Sentados junto aos rios de uma terra estrangeira, eles choram a lembrança de Jerusalém, penduram as harpas e se recusam a cantar para quem os humilhou. O salmo termina com versículos muito duros contra Edom e contra a Babilônia, que pedem uma leitura atenta ao contexto e à fé da Igreja.

Contexto do Salmo 137

Na numeração litúrgica, usada pela Vulgata e por muitos livros de oração, este é o Salmo 136. Não tem título nem atribuição de autor. É um dos raros salmos que o próprio texto permite situar historicamente: ele fala do exílio na Babilônia, depois que o exército de Nabucodonosor tomou Jerusalém e destruiu o Templo, em 587 ou 586 antes de Cristo (2Rs 25,1-21).

Quanto ao gênero, é um lamento coletivo, com uma parte final de imprecação, isto é, de pedido de castigo contra os inimigos. Os estudiosos discutem se foi composto ainda no exílio ou logo depois do retorno, quando a memória da dor estava viva. O tom é de quem viu tudo de perto.

Explicação do Salmo 137

Versículos 1 a 3: as harpas penduradas

O salmo começa com uma cena inesquecível: “Junto aos rios da Babilônia, ali nos sentamos e choramos, lembrando-nos de Sião” (Sl 137,1). Os rios são o Eufrates e os canais que irrigavam a planície da Mesopotâmia. Sentar-se no chão era gesto de luto. Os exilados choram não só a perda da casa, mas a perda do lugar onde Deus habitava no meio do povo.

Nas árvores à beira da água, eles penduram as harpas. Os que os levaram cativos pedem canções e alegria: cantem para nós um dos cânticos de Sião. É uma zombaria. Os vencedores querem ouvir os hinos do Templo destruído como diversão exótica.

Versículos 4 a 6: se eu te esquecer, Jerusalém

A resposta é uma pergunta: como cantar um cântico do Senhor em terra estrangeira? Não se trata de proibição de rezar fora de Jerusalém, mas de recusa em transformar a fé em espetáculo para os opressores. Os cânticos de Sião eram oração, não entretenimento.

Em seguida vem um juramento pessoal. Se eu te esquecer, Jerusalém, que a minha mão direita fique paralisada, e que a minha língua se cole ao céu da boca. A mão direita tocava a harpa; a língua cantava. O salmista prefere perder a capacidade de fazer música a esquecer a cidade de Deus. Jerusalém é a sua maior alegria.

Versículo 7: o pedido contra Edom

Os edomitas, povo vizinho e aparentado com Israel (descendentes de Esaú, irmão de Jacó), apoiaram a destruição de Jerusalém. O salmista lembra que eles gritavam: arrasai, arrasai até os alicerces. Outros textos da Bíblia guardam a mesma mágoa (Ab 1,10-14; Lm 4,21-22). O pedido é que Deus se lembre disso, isto é, que faça justiça.

Versículos 8 e 9: as palavras mais duras

O salmo se volta, por fim, contra a Babilônia. Feliz quem te retribuir o mal que nos fizeste. E o último versículo é o mais chocante de todo o Saltério: feliz quem pegar os teus filhinhos e os esmagar contra a pedra. Não há como suavizar o texto. Ele expressa o grito de um povo que sofreu a brutalidade da guerra, em que nem as crianças eram poupadas, e que, na linguagem crua das guerras antigas, pede que o opressor sofra o mesmo.

É importante notar que o salmista não diz que ele mesmo fará isso. Ele entrega a vingança a Deus e expõe diante dele a ferida inteira. Esses versículos são um testemunho honesto da dor humana, e não um modelo de comportamento.

O que o Salmo 137 ensina para a fé católica?

A Igreja recebe todos os salmos como Palavra de Deus, inclusive os mais duros. O Catecismo ensina que os salmos são o espelho das maravilhas de Deus na história do seu povo e das situações humanas vividas pelo salmista (CIC n. 2588). O Salmo 137 mostra que até a raiva e o desejo de vingança podem ser levados à oração, em vez de serem transformados em ação. Quem reza assim entrega a Deus o julgamento.

Ao mesmo tempo, o cristão lê este salmo à luz de Cristo, que mandou amar os inimigos e rezar pelos que nos perseguem (Mt 5,44), e que na cruz pediu perdão pelos que o crucificavam (Lc 23,34). A revelação caminha: o que no Antigo Testamento é grito por justiça encontra em Jesus a resposta do perdão. Por isso, a Instrução Geral da Liturgia das Horas (n. 131) explica que alguns salmos e versículos de caráter imprecatório foram omitidos no saltério da oração pública da Igreja, embora continuem fazendo parte da Escritura.

Os Padres da Igreja deram também uma leitura espiritual. Santo Agostinho, no seu comentário a este salmo (o Salmo 136 na numeração que ele usava), viu na Babilônia a imagem da cidade deste mundo, e em Jerusalém a imagem da cidade de Deus, pela qual o cristão suspira. Os filhinhos da Babilônia seriam os maus desejos ainda pequenos, que devem ser quebrados contra a pedra, que é Cristo, antes que cresçam. É uma leitura alegórica, que não apaga o sentido literal, mas ajuda a rezar o salmo como cristãos.

Reflexão para hoje

Muitas pessoas vivem um tipo de exílio: quem mudou de cidade ou de país em busca de trabalho, quem perdeu a casa, quem foi afastado da família, quem sente que a fé não tem lugar no ambiente em que vive. O Salmo 137 dá voz a essa saudade. Ele ensina a não esquecer as raízes e a não negociar o que é sagrado para agradar aos outros.

O salmo também ensina algo sobre a raiva. Todos nós já sentimos vontade de que alguém pagasse pelo mal que nos fez. Engolir esse sentimento ou fingir que ele não existe não ajuda. O caminho bíblico é dizê-lo a Deus, com sinceridade, e deixar que ele cuide da justiça. Aos poucos, em Cristo, a ferida pode ser curada e o desejo de vingança pode dar lugar ao perdão.

Para rezar com o Salmo 137

  • Em que situação da minha vida me sinto como estrangeiro, longe de casa ou da fé?
  • Há alguma mágoa que eu ainda não tive coragem de entregar a Deus em oração?
  • O que significa, para mim, não esquecer Jerusalém, isto é, manter Deus como minha maior alegria?

Sugestão de oração:

Senhor, tu conheces as minhas saudades e as minhas feridas. Eu te entrego também a raiva que sinto e o mal que me fizeram. Faz justiça como só tu sabes fazer, cura o meu coração e ensina-me a perdoar como Jesus perdoou. Que eu nunca me esqueça de ti, minha maior alegria. Amém.

Leia também o Salmo 136 e o Salmo 138. Para outra voz do exílio, veja Lamentações 1.

Fontes

Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 2588; Instrução Geral da Liturgia das Horas, n. 131; Santo Agostinho, Comentário aos Salmos (Salmo 136 na numeração da Vulgata).

Perguntas sobre Salmo 137

Qual é o contexto histórico do Salmo 137?

Ele fala do exílio na Babilônia, depois que Jerusalém foi destruída por Nabucodonosor no século VI antes de Cristo. Os exilados choram a saudade da cidade santa.

Como entender o último versículo do Salmo 137?

É o grito de um povo que sofreu a violência da guerra e entrega a Deus o desejo de justiça. Não é um modelo de conduta. O cristão o lê à luz de Cristo, que ensinou a amar os inimigos.

Por que os exilados não quiseram cantar os cânticos de Sião?

Porque os opressores pediam esses hinos como diversão. Para Israel, eles eram oração ligada ao Templo, e não espetáculo para quem os humilhou.

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