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Salmo 124: se o Senhor não estivesse do nosso lado

Leia Salmo 124 na sua Bíblia e acompanhe aqui a explicação, o que a Igreja ensina e uma reflexão para rezar.

O rei Davi toca a harpa cercado de anjos
Hendrick ter Brugghen, O rei Davi tocando harpa entre anjos, 1628. Domínio público, via Wikimedia Commons.

O Salmo 124 é uma ação de graças do povo de Israel por ter escapado de um perigo mortal. Se o Senhor não estivesse do nosso lado, dizem eles, os inimigos nos teriam devorado e as águas nos teriam arrastado. Mas Deus rompeu o laço e o povo escapou como um pássaro. O salmo termina com uma frase que a Igreja reza até hoje: o nosso auxílio está no nome do Senhor.

Contexto do Salmo 124

Na numeração litúrgica, é o Salmo 123. É o quinto dos "cânticos das subidas" (Salmos 120 a 134), e o título hebraico o atribui "a Davi", segundo a tradição. Os estudiosos discutem a autoria e a época.

É uma ação de graças coletiva. O salmo não diz de que perigo o povo foi salvo. Pode ser uma lembrança geral de toda a história de Israel, cheia de ameaças: o Egito, os povos vizinhos, o exílio. Essa falta de detalhe permite que cada geração reze o salmo pensando nas suas próprias libertações. O primeiro versículo parece um convite feito por um líder do canto: "que Israel o diga". O povo repete a frase, como num diálogo litúrgico.

Explicação do Salmo 124

Versículos 1 a 5: se o Senhor não estivesse conosco

O salmo começa com uma hipótese que causa arrepio: se o Senhor não estivesse do nosso lado, que Israel o diga, se o Senhor não estivesse do nosso lado quando os homens se levantaram contra nós. A repetição dá peso à frase. O povo olha para trás e percebe por quão pouco não foi destruído.

Seguem três imagens do que teria acontecido. A primeira: eles nos teriam engolido vivos, no fogo da sua ira. É a imagem de um monstro ou da própria morte, que engole a vítima, como o abismo que engoliu os rebeldes no deserto (Nm 16,32-33).

A segunda e a terceira usam a água: as águas nos teriam submergido, a torrente teria passado sobre nós, as águas impetuosas teriam passado sobre a nossa alma. Quem conhece as chuvas do Oriente Médio sabe como um leito seco pode virar, em minutos, uma enxurrada violenta. Na Bíblia, as grandes águas também são símbolo do caos e da morte, das quais só Deus pode salvar (Sl 69,2-3; Jn 2). E lembram a travessia do Mar Vermelho, onde as águas que ameaçavam Israel se abriram (Ex 14).

Versículos 6 e 7: o laço se rompeu

Agora vem o louvor: bendito seja o Senhor, que não nos entregou como presa aos seus dentes. A imagem é a de uma fera que já tinha a vítima na boca.

Depois, uma imagem mais delicada: nossa vida escapou como um pássaro do laço do caçador; o laço se rompeu e nós escapamos. Os caçadores antigos usavam redes e armadilhas para pegar aves. O povo era esse pássaro pequeno, sem forças para lutar. A libertação não veio da sua esperteza, mas de algo que rompeu a armadilha por fora.

Versículo 8: o nosso auxílio está no nome do Senhor

O salmo termina com uma profissão de fé: “O nosso auxílio está no nome do Senhor, que fez o céu e a terra” (Sl 124,8). É quase igual ao Salmo 121,2. O "nome" do Senhor é a sua presença, o seu poder, ele mesmo. Quem criou o universo é capaz de socorrer o seu povo em qualquer perigo.

O que o Salmo 124 ensina para a fé católica?

O Salmo 124 ensina a gratidão e a memória. O Catecismo lembra que a oração dos salmos recorda os acontecimentos de salvação do passado e ao mesmo tempo se abre ao futuro (CIC n. 2586). Fazer memória das libertações de Deus é o que alimenta a confiança no presente.

A pergunta implícita do salmo é retomada por São Paulo: se Deus está por nós, quem estará contra nós? (Rm 8,31). Para o cristão, a maior libertação é a de Cristo, que nos arrancou do laço do pecado e da morte. O pássaro que escapa pode ser lido como imagem da alma resgatada pela graça.

O último versículo entrou na liturgia. "O nosso auxílio está no nome do Senhor", com a resposta "que fez o céu e a terra", é uma invocação usada no início de muitas bênçãos e orações da Igreja. Na Liturgia das Horas, o salmo é rezado, como os demais cânticos das subidas, na oração da Igreja ao longo da semana.

Reflexão para hoje

Vale a pena fazer o exercício do salmo: olhar para trás e perguntar "e se Deus não estivesse comigo?". Aquela doença que passou, aquele acidente que quase aconteceu, aquela crise na família que parecia sem saída. Muitas vezes só percebemos depois o quanto fomos protegidos.

Há momentos em que nos sentimos como o pássaro na armadilha: presos a um vício, a uma dívida, a um medo. O salmo não promete que vamos sair por nossa força. Ele lembra que o laço pode ser rompido por Deus, e convida a pedir esse socorro. Quem já saiu de uma armadilha assim sabe que a resposta certa é o louvor.

Por fim, o salmo é rezado no plural. Nossas famílias e comunidades também têm histórias de libertação. Contá-las aos filhos e netos é uma forma de transmitir a fé.

Para rezar com o Salmo 124

  • Lembro-me de alguma situação em que, se Deus não estivesse ao meu lado, tudo teria sido diferente?
  • Há algum "laço" na minha vida do qual preciso pedir que Deus me liberte?
  • Costumo agradecer as libertações que recebi, ou só me lembro de Deus no perigo?

Sugestão de oração:

Bendito sejas, Senhor, porque estiveste do meu lado quando eu não percebia. Rompe os laços que ainda me prendem e dá-me um coração agradecido. O meu auxílio está no teu nome, que fizeste o céu e a terra. Amém.

Fontes

Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 2586; Liturgia das Horas.

Perguntas sobre Salmo 124

Qual é o tema do Salmo 124?

É uma ação de graças do povo que escapou de um grande perigo. Ele reconhece que, se Deus não estivesse ao seu lado, teria sido engolido pelos inimigos e arrastado pelas águas.

De onde vem a frase "o nosso auxílio está no nome do Senhor"?

Vem do último versículo do Salmo 124 (Sl 124,8). A Igreja a usa como invocação no início de várias bênçãos e orações, respondendo: "que fez o céu e a terra".

O que significa a imagem do pássaro que escapou do laço?

O caçador armava armadilhas para pegar passarinhos. O povo se compara a um pássaro preso que, de repente, vê o laço se romper e voa livre. Não foi a força do pássaro que o salvou, mas a ação de Deus.

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