O Salmo 120 é o primeiro dos quinze "cânticos das subidas". Nele, alguém cercado por mentiras e hostilidade clama a Deus, pede para ser livre da língua enganosa e confessa seu cansaço de viver entre quem odeia a paz. É uma oração curta, de quem sofre com a calúnia e deseja um lugar de paz.
Contexto do Salmo 120
Na numeração litúrgica, é o Salmo 119. Abre a coleção dos Salmos 120 a 134, chamados no título hebraico de "cântico das subidas" (ou "cântico das peregrinações"). A explicação mais comum é que eram cantados pelos peregrinos que subiam a Jerusalém nas grandes festas; outros pensam nos degraus do Templo ou na volta do exílio. O sentido exato do título é debatido.
Pelo gênero, é uma súplica individual com tom de lamentação. Não traz nome de autor. Faz sentido que a série de peregrinação comece longe de Jerusalém: o orante está em terra estranha, entre gente agressiva, e é daí que nasce o desejo de partir para a casa de Deus.
Explicação do Salmo 120
Versículos 1 e 2: o clamor de quem é caluniado
O salmo começa com uma lembrança de fé: na angústia, o orante clamou ao Senhor e foi atendido. Essa experiência passada dá coragem para o pedido presente: livra-me, Senhor, dos lábios mentirosos e da língua enganadora.
O sofrimento aqui não é doença nem guerra, mas a palavra falsa: calúnia, intriga, mentira dita para destruir. Na Bíblia, a língua tem grande força para o bem e para o mal (Pr 18,21; Tg 3,5-8). O salmista sabe que contra a difamação muitas vezes não há defesa humana. Por isso recorre a Deus.
Versículos 3 e 4: o castigo da língua enganosa
Agora ele se dirige à própria língua mentirosa, como se falasse com ela: o que Deus te dará, que acréscimo terás? A resposta vem em duas imagens: flechas afiadas de guerreiro e brasas de giesta, uma planta do deserto cuja madeira dava um carvão que queimava muito tempo.
As imagens podem ser lidas de dois modos, e ambos fazem sentido. Ou descrevem o mal que a língua faz (fere como flecha, queima como brasa), ou anunciam o castigo que ela vai receber, com a mesma medida que usou. Em qualquer caso, o salmista não pega em armas: deixa o julgamento nas mãos de Deus.
Versículos 5 a 7: estrangeiro entre os que odeiam a paz
Vem um lamento: ai de mim, que vivo como estrangeiro em Meseque e moro entre as tendas de Quedar. Meseque era um povo distante, ao norte, na Ásia Menor; Quedar, uma tribo nômade do deserto árabe. Dificilmente alguém vivesse nos dois lugares ao mesmo tempo. Os nomes funcionam como imagem: é como morar entre bárbaros, longe de casa.
O final resume o drama: tempo demais ele viveu com quem detesta a paz. Ele é pela paz; mas, quando fala, os outros querem guerra. A palavra "paz" (shalom) prepara os salmos seguintes, que vão terminar pedindo paz sobre Jerusalém e sobre Israel (Sl 122; 125; 128).
O que o Salmo 120 ensina para a fé católica?
O Salmo 120 mostra que a oração nasce muitas vezes da aflição. O Catecismo lembra que os salmos expressam a confiança do crente quando ele é cercado por inimigos e tentações, sempre com confiança no amor e na fidelidade de Deus (CIC n. 2589). Aqui é exatamente isso: um homem ferido pela mentira que se volta para o Senhor.
Na leitura cristã, o salmo lembra Jesus, que foi acusado por falsas testemunhas (Mt 26,59-60) e não respondeu com violência. Ele chamou felizes os que promovem a paz e os que são perseguidos e caluniados por causa dele (Mt 5,9.11). O cristão aprende com o salmo a não devolver mentira com mentira.
O salmo também abre a série dos cânticos de peregrinação. A vida cristã é uma subida para a casa do Pai. A Igreja reza esses salmos na Liturgia das Horas, especialmente na Hora Média, como oração de um povo a caminho.
Reflexão para hoje
Quem já foi alvo de fofoca, de uma acusação injusta no trabalho ou de uma mentira espalhada na família ou nas redes sociais entende este salmo. A dor da calúnia é especial: ela atinge o nome, a reputação, e muitas vezes não há como desmentir tudo. O salmo nos autoriza a levar essa dor a Deus com palavras francas.
Ele também nos põe diante de um espelho. A língua enganosa que o salmista teme pode ser a nossa. Um comentário maldoso, uma meia verdade, um julgamento apressado também são flechas. Rezar o Salmo 120 é pedir para ser livre da mentira dos outros e também da que mora em nós.
Por fim, há uma frase muito bonita: "eu sou pela paz". Em ambientes tensos, o cristão é chamado a ser alguém que não alimenta a guerra, mesmo quando é mal compreendido. Não é fraqueza; é fidelidade. E esse cansaço de viver entre conflitos é o primeiro passo da peregrinação para Deus.
Para rezar com o Salmo 120
- Já fui ferido por palavras falsas? Entreguei essa dor a Deus ou a guardo como ressentimento?
- Minhas palavras constroem a paz ou acendem brasas?
- Em que ambiente da minha vida preciso ser, com mais coragem, "homem ou mulher de paz"?
Sugestão de oração:
Senhor, livra-me da mentira que me fere e da mentira que eu mesmo digo. Guarda o meu nome nas tuas mãos e faz de mim instrumento da tua paz, mesmo onde há guerra. Põe-me a caminho da tua casa. Amém.
Fontes
Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 2589; Liturgia das Horas.
Perguntas sobre Salmo 120
O que são os "cânticos das subidas"?
O que são Meseque e Quedar no Salmo 120?
O que o Salmo 120 ensina sobre a mentira?
Está lendo a Bíblia inteira? Acompanhe no Plano de leitura da Bíblia ou reze o texto com a Lectio Divina.