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Salmo 109: o salmo das maldições explicado

Leia Salmo 109 na sua Bíblia e acompanhe aqui a explicação, o que a Igreja ensina e uma reflexão para rezar.

O rei Davi toca a harpa cercado de anjos
Hendrick ter Brugghen, O rei Davi tocando harpa entre anjos, 1628. Domínio público, via Wikimedia Commons.

O Salmo 109 é a súplica de um homem inocente, atacado com calúnias por quem ele amava. É um dos salmos mais duros do Saltério, com uma longa série de maldições contra o acusador. Mas é também o grito de quem não se vinga, entrega a causa a Deus e termina confiando que o Senhor está à direita do pobre para salvá-lo.

Contexto do Salmo 109

Na numeração litúrgica e da Vulgata, ele é o Salmo 108. O título hebraico diz: Do mestre de canto. De Davi. Salmo, atribuição recebida como tradição. É uma súplica individual do tipo chamado imprecatório, porque contém imprecações, isto é, pedidos de castigo contra os inimigos.

O cenário parece ser um processo injusto. Fala-se de acusador, de julgamento, de condenação. O orante é pobre e indefeso, e seus adversários usam a mentira para destruí-lo. Por causa da dureza do texto, a reforma litúrgica deixou este salmo fora do ciclo ordinário da Liturgia das Horas. A Instrução Geral da Liturgia das Horas (n. 131) explica que os Salmos 58, 83 e 109, em que predomina o caráter imprecatório, foram omitidos por certa dificuldade psicológica, embora o próprio Novo Testamento conheça orações desse tipo (Ap 6,10) e de modo algum elas sirvam para incentivar maldições. O salmo continua sendo Palavra de Deus e pode ser rezado e meditado.

Explicação do Salmo 109

Versículos 1 a 5: amor pago com ódio

O salmista começa chamando Deus de Deus do meu louvor e pede que ele não se cale. Bocas mentirosas se abriram contra ele, com palavras de ódio e sem motivo. O mais doloroso vem no versículo 4: em troca do meu amor, eles me acusam. E logo em seguida, uma frase curta e marcante no hebraico: e eu, oração. Ou seja, diante do ataque, ele responde rezando. Pagaram o bem com o mal e o amor com o ódio.

Versículos 6 a 15: as maldições

Aqui o tom muda e o texto passa a falar de um único adversário. Pede-se que um ímpio seja posto contra ele e que um acusador esteja à sua direita; que saia condenado no julgamento e que até a sua oração seja tida como pecado. Que os seus dias sejam poucos e que outro ocupe o seu cargo. O livro dos Atos aplica esse versículo 8 a Judas, quando os apóstolos escolhem Matias (At 1,20).

As maldições se estendem à família: filhos órfãos, esposa viúva, descendência que vagueia pedindo esmola, bens tomados por credores, nome apagado na geração seguinte, culpa dos pais lembrada diante do Senhor. São fórmulas do mundo antigo, em que a pessoa era vista unida à sua casa e ao seu nome.

Os estudiosos discutem quem fala nesses versículos. Uma leitura entende que é o próprio salmista quem pede o castigo do acusador. Outra, apoiada na passagem do plural para o singular, entende que o salmista está citando as maldições que os inimigos lançaram contra ele, para mostrar a Deus a crueldade que sofre. As duas leituras existem, e o texto não permite decidir com certeza.

Versículos 16 a 20: a medida da justiça

O motivo apresentado é que o acusador não se lembrou de ter misericórdia: perseguiu o pobre e o necessitado, o de coração ferido, até a morte. Ele amou a maldição, que ela venha sobre ele; não quis a bênção, que ela se afaste dele. A maldição o vestiu como roupa e entrou nele como água e como óleo. É a lógica da justiça bíblica: o mal que alguém pratica volta sobre ele mesmo. O versículo 20 resume: assim o Senhor pague os meus acusadores.

Versículos 21 a 25: eu sou pobre e necessitado

O salmista volta-se para Deus com outra voz. Age por mim, Senhor, por causa do teu nome; livra-me, porque o teu amor é bom. Ele se descreve com imagens de fragilidade: pobre, com o coração ferido, passando como sombra que se alonga ao entardecer, sacudido como gafanhoto. Os joelhos fraquejam de jejum, o corpo emagrece. Tornou-se motivo de zombaria, e quem o vê balança a cabeça. Os Evangelhos usam o mesmo gesto para descrever os que passavam diante da cruz de Jesus (Mt 27,39).

Versículos 26 a 31: eles amaldiçoam, tu abençoas

O pedido final é que os inimigos reconheçam que foi a mão de Deus que o salvou. Uma frase resume a esperança do salmo: que eles amaldiçoem, mas tu abençoarás. O salmista promete louvar o Senhor no meio da multidão, porque ele se põe à direita do pobre para salvá-lo dos que o condenam. O contraste com o versículo 6 é proposital: à direita do ímpio está o acusador; à direita do pobre está o próprio Deus.

O que o Salmo 109 ensina para a fé católica?

A Igreja não arranca as páginas difíceis da Bíblia, mas as lê no conjunto da revelação. O Antigo Testamento é uma pedagogia: Deus educa o seu povo aos poucos. Nos salmos imprecatórios, o fiel não pega em armas nem faz justiça com as próprias mãos; entrega a causa a Deus. Isso já é um passo de fé. Em Cristo, esse caminho chega à plenitude: Jesus manda amar os inimigos e rezar pelos que nos perseguem (Mt 5,44), e na cruz pede perdão para quem o crucificava (Lc 23,34).

O Catecismo ensina que a oração dos salmos expressa a confiança no meio das provações e dos inimigos e é sempre animada pelo louvor (CIC n. 2589). O Salmo 109 começa chamando Deus de Deus do meu louvor e termina no louvor; o grito de dor fica dentro desse quadro.

Por isso o cristão reza este salmo de três modos. Reza com Cristo, o justo caluniado, que respondeu ao ódio com oração. Reza contra o mal e o pecado, desejando que a mentira e a injustiça sejam destruídas. E reza em comunhão com todos os que hoje sofrem acusações falsas e não têm defesa.

Reflexão para hoje

Quem já foi caluniado sabe a dor que este salmo descreve. Ser acusado injustamente por um colega, por um parente, por alguém a quem se fez o bem, desperta raiva e desejo de revide. O salmo não finge que esses sentimentos não existem. Ele os coloca diante de Deus, com palavras fortes, em vez de despejá-los sobre o outro.

Isso é saudável. Muitas vezes a nossa oração é polida demais, e a raiva fica guardada, virando mágoa. Dizer a Deus o que se sente é o primeiro passo para que ele cure o coração. Depois, aos poucos, a graça nos leva para onde Jesus foi: rezar pelo inimigo, pedir a sua conversão, deixar o julgamento com Deus.

A frase e eu, oração pode ser um lema para os dias de conflito. Não depende de nós o que os outros dizem, mas depende de nós a resposta. E a última palavra do salmo consola: Deus se põe à direita do pobre. Quem não tem advogado tem Deus como defensor.

Para rezar com o Salmo 109

  • Que mágoa ou desejo de revide eu ainda não entreguei sinceramente a Deus?
  • Diante de uma acusação injusta, eu respondo com oração ou com novas ofensas?
  • Por quem que me feriu eu posso começar a rezar hoje, pedindo a sua conversão?

Sugestão de oração:

Deus do meu louvor, não te cales diante da injustiça. Tu conheces a minha dor e a raiva que sinto quando sou ferido. Recebe tudo isso e cura o meu coração. Põe-te à minha direita, defende-me da mentira e ensina-me, como Jesus, a responder ao ódio com oração e a pedir o bem até para quem me fez mal. Amém.

Fontes

Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 2589; Instrução Geral da Liturgia das Horas, n. 131.

Perguntas sobre Salmo 109

Por que o Salmo 109 tem tantas maldições?

Porque é a súplica de um inocente atacado com mentiras, que entrega a Deus o seu desejo de justiça. Alguns estudiosos pensam que parte das maldições são as palavras dos inimigos contra ele, citadas pelo salmista. Em qualquer leitura, ele não se vinga com as próprias mãos, mas deixa o julgamento com Deus.

O Salmo 109 fala de Judas?

O livro dos Atos aplica um versículo dele a Judas: que outro ocupe o seu cargo (At 1,20). Foi com essa base que os apóstolos escolheram Matias para completar os Doze.

Um cristão pode rezar o Salmo 109?

Sim, com a leitura da Igreja. O cristão reza com ele contra o mal e o pecado, expressa a dor da injustiça diante de Deus e, a exemplo de Jesus, pede a conversão de quem faz o mal.

Está lendo a Bíblia inteira? Acompanhe no Plano de leitura da Bíblia ou reze o texto com a Lectio Divina.