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Números 35: as cidades de refúgio explicadas

Leia Números 35 na sua Bíblia e acompanhe aqui a explicação, o que a Igreja ensina e uma reflexão para rezar.

O profeta Balaão, sua jumenta e o anjo do Senhor no caminho
Rembrandt, Balaão e a jumenta, 1626. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Números 35 trata de dois assuntos ligados à terra. Primeiro, as quarenta e oito cidades que as tribos devem dar aos levitas, com as suas pastagens. Depois, as seis cidades de refúgio, onde quem matou alguém sem querer pode se abrigar da vingança até ser julgado. O capítulo distingue com cuidado o homicídio intencional da morte acidental e termina afirmando que o sangue derramado contamina a terra onde Deus habita.

Contexto de Números 35

Depois de definir as fronteiras de Canaã (Nm 34), Deus organiza a vida que o povo terá na terra. Os levitas não recebem território próprio, porque são consagrados ao culto, mas precisam de lugar para morar. Ao mesmo tempo, a sociedade antiga conhecia a figura do vingador do sangue: o parente mais próximo da vítima tinha o dever de vingar a sua morte. Sem limites, essa prática gerava ciclos de vingança. A Lei de Deus introduz justiça e proteção.

Explicação de Números 35

Versículos 1 a 8: as cidades dos levitas

O Senhor manda que os israelitas deem aos levitas cidades para morar, com pastagens ao redor para o gado. O texto define as medidas das pastagens a partir dos muros da cidade. Ao todo serão quarenta e oito cidades, das quais seis serão cidades de refúgio. Cada tribo contribui na proporção do seu território: mais as tribos grandes, menos as pequenas.

Assim, os levitas ficam espalhados por todo Israel. Em vez de concentrados num só lugar, estão presentes no meio do povo, como guardiões da Lei e do culto em todas as regiões. A lista dessas cidades aparece em Josué 21.

Versículos 9 a 15: as cidades de refúgio

Quando entrarem em Canaã, os israelitas devem escolher cidades de refúgio, onde possa se abrigar quem matou alguém involuntariamente. Ali ficará protegido do vingador do sangue até comparecer em julgamento diante da comunidade. Serão seis cidades: três a leste do Jordão e três na terra de Canaã. Valem para os israelitas e também para o estrangeiro e o imigrante que vivem entre eles.

Os nomes dessas cidades são dados em Josué 20: Cedes, na Galileia, Siquém e Hebron, a oeste do Jordão; Bosor, Ramot de Galaad e Golã, a leste. Ficavam distribuídas de modo que qualquer pessoa pudesse alcançar uma delas.

Versículos 16 a 21: o homicídio intencional

O texto dá critérios para reconhecer o assassinato. Se alguém fere outro com um instrumento de ferro, com uma pedra ou com um objeto de madeira capaz de matar, e a pessoa morre, é homicida. O mesmo vale se a morte foi causada por ódio, de emboscada, ou com um golpe dado por inimizade. Nesses casos, o homicida deve morrer, e o vingador do sangue pode executá-lo. A cidade de refúgio não protege o assassino.

Versículos 22 a 29: a morte acidental

Mas se alguém empurra outro de repente, sem inimizade, ou lança contra ele um objeto sem intenção, ou deixa cair uma pedra sem vê-lo, e a pessoa morre, a comunidade deve julgar entre o autor da morte e o vingador. Reconhecida a inocência, o autor deve voltar à cidade de refúgio e morar ali até a morte do sumo sacerdote que foi ungido com o óleo santo. Se sair antes, fica exposto ao vingador. Depois da morte do sumo sacerdote, pode voltar para a sua terra.

A distinção é fundamental: a culpa depende da intenção. Ao mesmo tempo, a morte de um ser humano nunca é algo indiferente; mesmo quem matou sem querer passa um tempo afastado, como sinal da gravidade do que aconteceu.

Versículos 30 a 34: testemunhas e santidade da terra

Ninguém pode ser condenado à morte pelo depoimento de uma só testemunha; são necessárias pelo menos duas. Não se aceita resgate em dinheiro para livrar um assassino, nem para permitir que o refugiado volte antes do tempo. A vida não tem preço.

O capítulo termina com o motivo de tudo: o sangue derramado profana a terra, e ela só é purificada pelo sangue de quem o derramou. Não contaminem a terra em que vocês habitam, porque eu, o Senhor, habito no meio dos filhos de Israel. A justiça não é só assunto humano: tem a ver com a presença de Deus.

O que Números 35 ensina para a fé católica?

O Catecismo recorda que o Antigo Testamento sempre considerou o sangue como sinal sagrado da vida (CIC n. 2260). Por isso Deus exige que o homem preste contas do sangue derramado: a vida humana pertence a Deus. O mesmo Catecismo ensina que o homicídio involuntário não é moralmente imputável, embora agir sem cuidado, de modo a causar a morte, seja uma falta grave (CIC n. 2269). A distinção entre intenção e acidente, que Números 35 já fazia, permanece na moral católica.

A exigência de duas testemunhas é retomada no Deuteronômio (Dt 19,15) e no Novo Testamento (Mt 18,16; 2Cor 13,1) e mostra o cuidado da Lei para não condenar inocentes. Quanto à pena de morte presente nestas leis, a Igreja ensina hoje, à luz do Evangelho, que ela é inadmissível, porque atenta contra a inviolabilidade e a dignidade da pessoa, e que existem meios eficazes de proteger a sociedade (CIC n. 2267, na redação aprovada pelo Papa Francisco em 2018).

A leitura cristã viu nas cidades de refúgio uma imagem de Cristo. A Carta aos Hebreus fala de nós, que buscamos refúgio para agarrar a esperança que nos foi proposta (Hb 6,18). E há um detalhe impressionante: o refugiado só fica livre com a morte do sumo sacerdote. Para os cristãos, é a morte de Jesus, sumo sacerdote eterno, que nos liberta de modo definitivo.

Reflexão para hoje

As cidades de refúgio mostram um Deus que protege até quem causou um mal sem querer. Quantas pessoas carregam culpas por acidentes, por palavras ditas sem pensar, por decisões que tiveram consequências trágicas. Deus não as abandona à vingança nem à autocondenação. Oferece refúgio.

A Igreja é chamada a ser essa cidade de refúgio: um lugar onde o pecador encontra acolhida, justiça e misericórdia. A Confissão é, de modo especial, esse refúgio onde o sangue de Cristo nos purifica.

Ao mesmo tempo, o capítulo nos lembra o valor da vida. Dirigir com prudência, não brincar com a segurança dos outros, cuidar dos mais frágeis: tudo isso é obedecer ao Deus que habita no meio do seu povo e não quer a terra manchada de sangue.

Para rezar com Números 35

  • Carrego alguma culpa que preciso levar ao refúgio da misericórdia de Deus?
  • Sou para os outros um lugar de acolhida ou de julgamento?
  • Como posso cuidar melhor da vida das pessoas ao meu redor?

Sugestão de oração:

Senhor Jesus, sumo sacerdote que morreste para nos libertar, tu és o meu refúgio. Acolhe-me com as minhas culpas e feridas, purifica-me com o teu sangue e faz de mim um lugar de acolhida para os irmãos. Amém.

Fontes

Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica.

Perguntas sobre Números 35

O que eram as cidades de refúgio?

Eram seis cidades onde quem matou alguém sem intenção podia se abrigar do vingador do sangue até ser julgado. Três ficavam a leste do Jordão e três em Canaã.

Até quando o refugiado devia ficar na cidade de refúgio?

Até a morte do sumo sacerdote então em função. Depois disso, podia voltar para a sua terra sem ser perseguido pelo vingador.

Qual a diferença entre homicídio e morte acidental em Números 35?

O homicídio é a morte causada com ódio, emboscada ou instrumento usado para matar. A morte acidental acontece sem inimizade nem intenção, e o autor era protegido na cidade de refúgio.

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