Números 33 apresenta a lista das etapas percorridas pelos israelitas desde a saída do Egito até as planícies de Moab, junto ao Jordão. O texto diz que Moisés registrou por escrito os pontos de partida e de chegada, por ordem do Senhor. A lista recorda a morte de Aarão no monte Hor e termina com a ordem de expulsar os habitantes de Canaã, destruir os ídolos e repartir a terra por sorteio.
Contexto de Números 33
Israel está prestes a atravessar o Jordão. Antes de entrar na terra, o livro faz memória de todo o caminho. Muitos lugares desta lista aparecem nos relatos do Êxodo e de Números; outros só são citados aqui. A localização de grande parte deles é incerta, e os estudiosos discutem o traçado exato da rota. O valor da lista não está na geografia precisa, mas na memória: cada parada foi um lugar da fidelidade de Deus.
Explicação de Números 33
Versículos 1 e 2: a memória escrita
O capítulo começa dizendo que estas são as etapas dos filhos de Israel, que saíram do Egito em ordem, sob a guia de Moisés e Aarão, e que Moisés as escreveu por ordem do Senhor. Deus quer que o povo não esqueça o caminho. A Bíblia insiste muito em lembrar: a fé de Israel é feita de memória.
Versículos 3 e 4: a saída de Ramsés
Os israelitas partem de Ramsés no dia quinze do primeiro mês, no dia seguinte à Páscoa, de cabeça erguida, à vista de todos os egípcios. Enquanto isso, os egípcios enterravam os primogênitos que o Senhor tinha ferido. O texto acrescenta que o Senhor fez justiça contra os deuses do Egito: a libertação de Israel foi também a derrota dos ídolos.
Versículos 5 a 15: do Egito ao Sinai
Seguem as primeiras etapas: Sucot, Etam, a passagem pelo meio do mar, Mara, onde a água era amarga, e Elim, com doze fontes e setenta palmeiras. Depois, o deserto de Sin e outros acampamentos, até Rafidim, onde o povo não tinha água para beber, e enfim o deserto do Sinai. Cada nome evoca uma história do Êxodo: a sede, a murmuração, o maná, a água da rocha, a aliança.
Versículos 16 a 36: do Sinai a Cades
Depois do Sinai vem uma longa sequência de nomes, muitos deles desconhecidos fora desta lista. Entre os conhecidos estão Cibrot-Ataava, os sepulcros da cobiça, onde o povo morreu depois de exigir carne (Nm 11,34), e Haserot, onde Miriam e Aarão murmuraram contra Moisés (Nm 12). A lista segue até Asiongaber, junto ao golfo de Ácaba, e chega a Cades. Essa parte corresponde, em grande medida, aos longos anos de peregrinação no deserto, de que a Bíblia conta poucos episódios.
Versículos 37 a 49: de Cades às planícies de Moab
De Cades, o povo vai ao monte Hor, na fronteira de Edom. Ali o sacerdote Aarão sobe ao monte por ordem do Senhor e morre, no quadragésimo ano depois da saída do Egito, no primeiro dia do quinto mês, aos cento e vinte e três anos. É o único acontecimento narrado com detalhe na lista, sinal da importância de Aarão.
O texto lembra também que o rei de Arad, no Negueb, ficou sabendo da chegada dos israelitas (Nm 21,1-3). Seguem outras etapas, contornando Edom e Moab, até os montes Abarim, diante do Nebo, e finalmente as planícies de Moab, junto ao Jordão, na altura de Jericó, entre Bet-Jesimot e Abel-Setim.
Versículos 50 a 56: instruções para a entrada na terra
Nas planícies de Moab, Deus dá ordens para quando o povo atravessar o Jordão: expulsar os habitantes de Canaã, destruir as imagens esculpidas, as estátuas de metal fundido e os lugares altos de culto, tomar posse da terra e reparti-la por sorteio, segundo o tamanho dos clãs. Se não expulsarem os habitantes, eles serão como espinhos nos olhos e aguilhões nos flancos de Israel. E Deus fará a Israel o que pensava fazer a eles.
A preocupação central é religiosa: os cultos cananeus, com práticas que a própria Lei condena, como o sacrifício de crianças (Dt 12,31), ameaçavam a fidelidade de Israel. Fegor (Nm 25) acabou de mostrar o perigo. A advertência final é séria: se Israel imitar os ídolos, terá o mesmo destino dos povos que os adoravam.
O que Números 33 ensina para a fé católica?
A tradição cristã leu esta lista também em sentido espiritual. Orígenes, na Homilia 27 sobre Números, dedicada às etapas do deserto, e São Jerônimo, na Carta 78, escrita a Fabíola sobre as quarenta e duas etapas de Israel, viram nas paradas do deserto uma imagem das etapas da alma que sai do pecado e caminha para Deus. Sem negar o sentido histórico, essa leitura mostra que a vida cristã também é peregrinação, com lugares de sede e de consolo, de queda e de recomeço.
O êxodo de Israel é figura da Páscoa de Cristo e do Batismo. São Paulo diz que os israelitas foram batizados na nuvem e no mar e que tudo isso aconteceu como exemplo para nós (1Cor 10,1-11). A Igreja se compreende como povo de Deus a caminho, peregrino na terra, rumo à pátria definitiva.
A ordem de destruir os ídolos deve ser lida à luz de Cristo. A Igreja não manda destruir pessoas, mas a idolatria no coração. A Lei antiga, com as suas exigências de seu tempo, prepara o Evangelho (CIC n. 1964).
Reflexão para hoje
Experimente fazer a lista das etapas da sua vida: onde você nasceu, onde conheceu a fé, onde passou por desertos, onde encontrou um oásis como Elim, onde caiu, onde recomeçou. Ver o caminho inteiro ajuda a perceber que Deus esteve presente em cada parada, mesmo nas que pareciam sem sentido.
Israel conta também os lugares de vergonha, como os sepulcros da cobiça. A memória cristã não esconde os pecados; ela os entrega à misericórdia. A confissão e o exame de consciência fazem isso: olhamos o caminho com verdade e com confiança.
E a advertência sobre os espinhos nos olhos vale para nós. Aquilo que toleramos por comodismo, um vício, uma mágoa, uma mentira, acaba ferindo depois. Melhor tirar o espinho enquanto é tempo.
Para rezar com Números 33
- Quais foram as grandes etapas da minha caminhada de fé?
- Em que deserto estou agora, e onde Deus pode estar me esperando?
- Que espinho tenho deixado crescer na minha vida por não ter coragem de arrancá-lo?
Sugestão de oração:
Senhor, que guiaste o teu povo etapa por etapa, obrigado por cada lugar por onde me conduziste. Nos desertos, dá-me confiança; nos oásis, gratidão; nas quedas, o teu perdão. Leva-me até a terra prometida da tua casa. Amém.
Fontes
Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica; Orígenes, Homilias sobre Números; São Jerônimo, Carta 78, a Fabíola.
Perguntas sobre Números 33
O que é a lista de Números 33?
Onde e com quantos anos Aarão morreu?
Qual o sentido espiritual das etapas do deserto?
Está lendo a Bíblia inteira? Acompanhe no Plano de leitura da Bíblia ou reze o texto com a Lectio Divina.