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Números 16: a revolta de Coré, Datã e Abiram

Leia Números 16 na sua Bíblia e acompanhe aqui a explicação, o que a Igreja ensina e uma reflexão para rezar.

O profeta Balaão, sua jumenta e o anjo do Senhor no caminho
Rembrandt, Balaão e a jumenta, 1626. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Números 16 narra a revolta de Coré, Datã e Abiram contra Moisés e Aarão. Coré, um levita, reivindica o sacerdócio; Datã e Abiram acusam Moisés de ter tirado o povo de uma terra boa. Deus confirma a escolha de Aarão: a terra se abre sob os rebeldes, e um fogo consome os que ofereciam incenso.

Contexto de Números 16

Depois da revolta de todo o povo em Números 14, surge agora uma revolta interna, liderada por pessoas próximas do santuário. O capítulo junta duas contestações: a de Coré, que é religiosa, e a de Datã e Abiram, que é política. Muitos estudiosos pensam que o texto combina tradições diferentes sobre esses episódios, mas a mensagem final é única: a autoridade de Moisés e o sacerdócio de Aarão vêm de Deus.

Para entender o conflito, é preciso lembrar a organização do culto. Toda a tribo de Levi foi separada para o serviço do santuário, mas só Aarão e seus descendentes eram sacerdotes, encarregados do altar e do incenso. Os outros levitas cuidavam do transporte e da guarda da Tenda (Nm 3 e 4).

Explicação de Números 16

Versículos 1 a 3: a acusação contra Moisés e Aarão

Coré, filho de Isaar, da família levítica de Caat, se une a Datã e Abiram, filhos de Eliab, e a On, todos da tribo de Rúben. Com eles estão duzentos e cinquenta chefes da comunidade, homens de prestígio. Eles enfrentam Moisés e Aarão: toda a comunidade é santa, e o Senhor está no meio dela; por que vocês se colocam acima da assembleia?

O argumento tem uma parte verdadeira. Israel inteiro é povo santo (Ex 19,6). Mas os rebeldes usam essa verdade para negar que Deus possa escolher alguns para um serviço específico.

Versículos 4 a 11: a prova dos incensórios

Moisés se prostra e propõe uma prova: amanhã, Coré e seus seguidores tragam incensórios com fogo e incenso diante do Senhor, e Deus mostrará quem ele escolheu. Depois, Moisés fala diretamente aos levitas: é pouco para vocês terem sido separados para servir na Tenda? Agora querem também o sacerdócio? Na verdade, diz ele, é contra o Senhor que vocês se revoltam, não contra Aarão.

A palavra de Moisés revela a raiz do problema: a inveja de quem já recebeu muito e acha pouco.

Versículos 12 a 15: a recusa de Datã e Abiram

Moisés manda chamar Datã e Abiram, mas eles se recusam a ir. A resposta deles é amarga: você nos tirou de uma terra onde corre leite e mel para nos matar no deserto, e ainda quer mandar em nós? A expressão que descrevia a terra prometida é aplicada ao Egito. É a inversão completa da história.

Moisés se indigna e pede a Deus que não aceite a oferta deles, lembrando que nunca tomou nem um jumento de ninguém e não fez mal a nenhum deles.

Versículos 16 a 24: a intercessão diante da glória

No dia seguinte, Coré reúne a comunidade diante da Tenda, cada um com seu incensório. A glória do Senhor aparece, e Deus manda Moisés e Aarão se afastarem, para destruir a assembleia. Os dois se prostram e intercedem: ó Deus, Deus dos espíritos de toda carne, um só homem peca e te irritarás contra toda a comunidade?

É uma súplica pela justiça de Deus, que distingue o culpado do inocente, parecida com a de Abraão por Sodoma (Gn 18,23-25). Deus atende e manda o povo se afastar das tendas de Coré, Datã e Abiram.

Versículos 25 a 35: a terra se abre e o fogo consome

Moisés vai até as tendas de Datã e Abiram, acompanhado dos anciãos, e pede que o povo se afaste. Depois declara: se estes homens morrerem de morte comum, o Senhor não me enviou; mas se o Senhor fizer algo novo, e a terra abrir a boca e os engolir, vocês saberão que eles desprezaram o Senhor.

Mal termina de falar, o chão se abre e engole os rebeldes com suas famílias e bens. Eles descem vivos ao sheol, a morada dos mortos. O povo foge aterrorizado. Ao mesmo tempo, um fogo sai do Senhor e consome os duzentos e cinquenta homens que ofereciam incenso.

A cena é terrível e deve ser lida com o seu propósito: mostrar que a escolha de Moisés e Aarão não era invenção humana. O livro acrescenta depois que os filhos de Coré não morreram (Nm 26,11). Seus descendentes serão cantores no Templo, e a eles são atribuídos vários salmos, como o Sl 42 e o Sl 84. Da casa do rebelde, Deus fez nascer louvor.

O que Números 16 ensina para a fé católica?

O Novo Testamento cita Coré como exemplo de revolta contra a ordem querida por Deus (Jd 11). O ponto não é desprezar o sacerdócio comum dos fiéis, que é real: todo batizado participa do sacerdócio de Cristo. O ponto é que esse sacerdócio comum não anula o ministério ordenado, ao qual alguns são chamados para servir os irmãos.

O Catecismo lembra que, no Antigo Testamento, Deus escolheu a tribo de Levi para o serviço litúrgico, e que a liturgia da Igreja vê no sacerdócio de Aarão e no serviço dos levitas prefigurações do ministério ordenado, que se cumprem em Cristo, único mediador (CIC n. 1539, 1541 e 1544). Ninguém se faz sacerdote por mérito próprio; é um chamado, como diz a Carta aos Hebreus: ninguém toma para si essa honra, senão quem é chamado por Deus, como Aarão (Hb 5,4).

A súplica de Moisés e Aarão também ensina sobre a justiça divina. Deus não castiga às cegas. A Escritura, aos poucos, vai deixando claro que cada um responde pelos próprios atos (Ez 18).

Reflexão para hoje

A revolta de Coré começa com uma frase que soa bonita: todos somos santos. Muitas divisões começam assim, com uma meia verdade usada para justificar a inveja. Em comunidades, pastorais e famílias, o desejo de ocupar o lugar do outro raramente se apresenta como ambição; quase sempre se apresenta como zelo.

A pergunta de Moisés aos levitas é útil para qualquer um: é pouco o que Deus já te deu? Quando olhamos só para o que falta, deixamos de servir com alegria no lugar que recebemos.

E há a esperança do final. Os filhos de Coré, que poderiam carregar para sempre a marca do pai, tornaram-se cantores de Deus. Nenhuma história familiar está condenada. O que herdamos não decide sozinho o que seremos diante de Deus.

Para rezar com Números 16

  • Tenho servido com alegria no lugar que Deus me deu, ou vivo comparando a minha missão com a dos outros?
  • Há alguma meia verdade que uso para justificar críticas ou divisões?
  • Rezo pelos sacerdotes e por aqueles que exercem autoridade na Igreja?

Sugestão de oração:

Deus dos espíritos de toda carne, livra-me da inveja e da vontade de ocupar o lugar dos outros. Ensina-me a servir com alegria onde me colocaste. Abençoa os sacerdotes da tua Igreja e guarda a unidade das nossas comunidades. E transforma as feridas das nossas famílias em louvor, como fizeste com os filhos de Coré. Amém.

Continue a leitura em Números 17.

Fontes

Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 1539, 1541 e 1544.

Perguntas sobre Números 16

Quem foi Coré em Números 16?

Coré era um levita, da família de Caat, que se rebelou contra Moisés e Aarão junto com Datã e Abiram, da tribo de Rúben, e duzentos e cinquenta chefes. Ele queria para si o sacerdócio, reservado a Aarão e seus filhos.

O que aconteceu com Coré, Datã e Abiram?

Segundo o relato, a terra se abriu e engoliu os rebeldes com suas casas, e um fogo do Senhor consumiu os duzentos e cinquenta homens que ofereciam incenso. Mais adiante, o livro esclarece que os filhos de Coré não morreram (Nm 26,11).

O que Números 16 ensina sobre autoridade na Igreja?

Ensina que o serviço sagrado não é uma conquista pessoal, mas um chamado de Deus. A Igreja lê o episódio como advertência contra a inveja e a divisão, e como lembrança de que todo ministério é serviço.

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