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Mateus

Mateus 14: multiplicação dos pães e Jesus sobre as águas

Leia Mateus 14 na sua Bíblia e acompanhe aqui a explicação, o que a Igreja ensina e uma reflexão para rezar.

São Mateus, idoso e de barba branca, recebe o Evangelho de um anjo que aponta o livro, pintura de Guercino
Guercino, São Mateus e o Anjo, 1622. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Mateus 14 narra a morte de João Batista por ordem de Herodes Antipas, a primeira multiplicação dos pães para uma multidão de cinco mil homens, além de mulheres e crianças, e a cena de Jesus caminhando sobre as águas, quando Pedro tenta ir ao seu encontro e começa a afundar. O capítulo termina com curas na região de Genesaré.

Contexto de Mateus 14

Depois das parábolas do capítulo 13 e da rejeição em Nazaré, muitos estudiosos veem o início de uma nova seção do Evangelho, que se estende até por volta do capítulo 17. Nela, Jesus se dedica cada vez mais à formação dos discípulos, e a fé de Pedro ganha destaque. A morte de João Batista é um aviso do destino que espera o próprio Jesus. O Herodes deste capítulo não é Herodes, o Grande, do capítulo 2, mas um de seus filhos, Herodes Antipas, que governava a Galileia e a Pereia sob a autoridade de Roma com o título de tetrarca.

Explicação de Mateus 14

Versículos 1 e 2: o medo de Herodes

Herodes ouve falar da fama de Jesus e diz que é João Batista ressuscitado dos mortos. É a consciência pesada de quem mandou matar um justo. A frase serve de introdução para Mateus contar, em retrospectiva, como João morreu.

Versículos 3 a 12: a morte de João Batista

Herodes tinha mandado prender João por causa de Herodíades, mulher de seu irmão, que Mateus chama de Filipe. João dizia que não era lícito a Herodes tê-la como esposa; a Lei proibia o casamento com a mulher do irmão vivo (Lv 18,16). Herodes queria matá-lo, mas tinha medo do povo, que considerava João um profeta.

No aniversário de Herodes, a filha de Herodíades dança diante dos convidados e agrada ao rei, que promete sob juramento dar o que ela pedir. Instruída pela mãe, ela pede a cabeça de João Batista num prato. Herodes fica triste, mas, por causa do juramento e dos convidados, manda decapitá-lo na prisão. O Evangelho não dá o nome da moça; o historiador judeu Flávio Josefo a chama de Salomé e situa a prisão e a morte de João na fortaleza de Maqueronte, a leste do Mar Morto. Os discípulos de João sepultam o corpo e vão contar a Jesus.

A cena mostra um homem poderoso prisioneiro da vaidade, incapaz de voltar atrás para não perder a face diante dos convidados. João, preso, é livre. Herodes, no trono, é escravo.

Versículos 13 a 21: a multiplicação dos pães

Ao saber da notícia, Jesus se retira de barco para um lugar deserto, mas as multidões o seguem a pé. Ao desembarcar, Ele sente compaixão e cura os doentes. À tarde, os discípulos sugerem despedir o povo para comprar comida nos povoados. Jesus responde: “Dai-lhes vós mesmos de comer” (Mt 14,16). Eles só têm cinco pães e dois peixes.

Jesus manda o povo sentar-se na grama, toma os pães e os peixes, ergue os olhos ao céu, pronuncia a bênção, parte os pães e os dá aos discípulos, e os discípulos os distribuem às multidões. Todos comem e ficam saciados, e ainda sobram doze cestos cheios de pedaços. Os que comeram eram cerca de cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças.

Vários detalhes ligam a cena a outras passagens. O povo alimentado no deserto lembra o maná dado por Deus a Israel (Ex 16). O profeta Eliseu também alimentou cem pessoas com poucos pães, e ainda sobrou (2Rs 4,42-44). Os gestos de Jesus, tomar, abençoar, partir e dar, são os mesmos que Ele fará na Última Ceia (Mt 26,26). E os doze cestos podem lembrar as doze tribos de Israel e os Doze apóstolos, que recebem de Jesus o pão para distribuir.

Versículos 22 a 27: Jesus caminha sobre as águas

Jesus obriga os discípulos a entrar no barco e ir à frente, enquanto Ele despede as multidões e sobe ao monte para rezar sozinho. O barco, longe da margem, é castigado pelas ondas, com vento contrário. Na quarta vigília da noite, isto é, entre três e seis horas da madrugada, segundo a divisão romana da noite, Jesus vem até eles caminhando sobre o mar. Os discípulos pensam que é um fantasma e gritam de medo. Jesus diz: coragem, sou eu, não tenhais medo. A expressão sou eu ecoa o nome com que Deus se revela a Moisés (Ex 3,14), e no Antigo Testamento só Deus caminha sobre as águas do mar (Jó 9,8).

Versículos 28 a 33: Pedro sobre as águas

Só Mateus conta este episódio. Pedro diz: Senhor, se és tu, manda-me ir ao teu encontro sobre as águas. Jesus responde: vem. Pedro desce do barco e caminha sobre as águas em direção a Jesus. Mas, ao sentir a força do vento, fica com medo, começa a afundar e grita: “Senhor, salva-me!” (Mt 14,30). Jesus estende a mão, segura-o e diz: homem de pouca fé, por que duvidaste?

Pedro não é apresentado como fracassado. Ele foi o único que ousou sair do barco. Afundou quando tirou os olhos de Jesus e olhou para o vento, e mesmo afundando soube a quem gritar. Quando os dois sobem ao barco, o vento cessa, e os que estavam no barco se prostram diante de Jesus dizendo: verdadeiramente, tu és o Filho de Deus. É a primeira vez que os discípulos, juntos, fazem essa confissão em Mateus.

Versículos 34 a 36: as curas em Genesaré

Atravessando o lago, chegam a Genesaré, uma planície fértil na margem ocidental. As pessoas reconhecem Jesus, trazem todos os doentes da região e pedem para tocar ao menos a franja do seu manto. Todos os que tocam ficam curados. A cena lembra a mulher que tocou a franja do manto em Mateus 9.

O que Mateus 14 ensina para a fé católica?

A Igreja sempre leu a multiplicação dos pães como anúncio da Eucaristia. O Catecismo ensina que os milagres da multiplicação dos pães, quando o Senhor pronunciou a bênção, partiu e distribuiu os pães pelos discípulos para alimentar a multidão, prefiguram a superabundância do único pão da sua Eucaristia (CIC n. 1335). O pão passa pelas mãos dos discípulos, como na Igreja o Pão da vida chega aos fiéis pelo ministério dos apóstolos e de seus sucessores. Para aprofundar, veja o que é a transubstanciação e a festa de Corpus Christi.

A morte de João Batista o coloca entre os mártires da verdade, e a Igreja recorda seu martírio no dia 29 de agosto. A cena de Pedro sobre as águas, por sua vez, mostra ao mesmo tempo a fragilidade e a fé daquele a quem Jesus confiará as chaves do Reino; conheça mais sobre São Pedro. E a confissão dos discípulos no barco, tu és o Filho de Deus, antecipa a profissão de fé de Pedro em Mateus 16.

Reflexão para hoje

Herodes não teve coragem de voltar atrás numa promessa errada porque estava preocupado com o que os convidados iam pensar. Quantas decisões ruins tomamos por respeito humano, para não passar vergonha diante dos outros. João, ao contrário, disse a verdade a um homem poderoso e pagou caro. A fidelidade à verdade às vezes custa, mas liberta.

Dai-lhes vós mesmos de comer. Diante das necessidades do mundo, a fome, a solidão, a falta de sentido, é comum pensar que temos pouco demais para ajudar. Cinco pães e dois peixes não alimentam ninguém. Mas nas mãos de Jesus, o pouco que oferecemos se multiplica. O que você tem nas mãos hoje, tempo, um talento, um pouco de dinheiro, pode ser o começo de um milagre.

E todos conhecemos o momento de Pedro: começamos algo com fé, um casamento, uma vocação, um projeto, e de repente olhamos para o vento e começamos a afundar. A oração de Pedro é curta e serve para qualquer hora: Senhor, salva-me. A mão de Jesus está sempre estendida.

Para rezar com Mateus 14

  • Em que situação deixo o medo da opinião dos outros decidir por mim, como Herodes?
  • Quais são os meus cinco pães e dois peixes que posso colocar nas mãos de Jesus?
  • Para onde tenho olhado nas tempestades: para o vento ou para Jesus?

Sugestão de oração:

Senhor Jesus, Pão da vida, recebe o pouco que eu tenho e multiplica-o para o bem dos meus irmãos. Dá-me a coragem de João Batista para dizer a verdade com caridade. E quando eu começar a afundar no meio das ondas, estende a Tua mão e segura-me, pois Tu és verdadeiramente o Filho de Deus. Amém.

Fontes

Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 1335; Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas.

Perguntas sobre Mateus 14

Quantas pessoas Jesus alimentou na multiplicação dos pães de Mateus 14?

Mateus diz que eram cerca de cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças. Com apenas cinco pães e dois peixes, todos comeram e ainda sobraram doze cestos.

Por que Herodes mandou matar João Batista?

João denunciava que Herodes não podia ter como esposa Herodíades, mulher de seu irmão. Herodíades usou a promessa que Herodes fez à sua filha para pedir a cabeça de João.

Por que Pedro afundou ao caminhar sobre as águas?

Pedro começou a afundar quando sentiu a força do vento e teve medo, desviando o olhar de Jesus. Mesmo assim gritou Senhor, salva-me, e Jesus o segurou pela mão.

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