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Judas

Judas 1: combater pela fé, explicação da carta

Leia Judas 1 na sua Bíblia e acompanhe aqui a explicação, o que a Igreja ensina e uma reflexão para rezar.

São Judas Tadeu, apóstolo, de manto vermelho, segurando a alabarda do martírio
El Greco, São Judas Tadeu, c. 1610–1614. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Judas 1, o único capítulo da Carta de Judas, é um apelo para combater pela fé transmitida aos santos de uma vez por todas. O autor denuncia falsos mestres infiltrados na comunidade, usando exemplos do Antigo Testamento e de tradições judaicas, como a disputa do arcanjo Miguel e a profecia de Enoc. Termina pedindo que os fiéis se conservem no amor de Deus, com uma das mais belas doxologias da Bíblia.

Contexto de Judas 1

O autor se apresenta como Judas, servo de Jesus Cristo e irmão de Tiago. Esse Tiago provavelmente é o líder da Igreja de Jerusalém, chamado irmão do Senhor (Gl 1,19); entre os parentes de Jesus aparece também um Judas (Mc 6,3). A tradição muitas vezes identificou o autor com o apóstolo São Judas Tadeu, muito querido dos brasileiros. Os estudiosos discutem se o autor é o apóstolo, o parente do Senhor ou alguém que escreveu em seu nome, e não há certeza. Veja São Judas Tadeu.

A carta é curta e intensa. Tem muitas semelhanças com 2 Pedro 2. Os destinatários parecem ser cristãos de cultura judaica, porque o autor usa livremente tradições conhecidas no judaísmo da época.

Explicação de Judas 1

Versículos 1 e 2: aos chamados e guardados

Judas escreve aos que foram chamados, amados por Deus Pai e guardados para Jesus Cristo. Três palavras dizem tudo da vida cristã: chamados, amados, guardados. A saudação deseja misericórdia, paz e amor em abundância. A carta será dura, mas começa lembrando que os fiéis estão nas mãos de Deus.

Versículos 3 e 4: combater pela fé

O autor queria escrever sobre a salvação comum, mas sentiu necessidade de exortar os leitores a «combater pela fé, que foi transmitida aos santos de uma vez por todas» (Jd 3). A fé é um depósito recebido, não uma invenção de cada geração. O motivo do alerta: infiltraram-se pessoas ímpias que transformam a graça de Deus em pretexto para a libertinagem e negam o único Senhor, Jesus Cristo.

Versículos 5 a 7: três exemplos do passado

Judas lembra três casos. O Senhor salvou o povo do Egito, mas depois fez perecer os que não creram no deserto (Nm 14). Os anjos que não conservaram a sua dignidade e abandonaram a própria morada estão guardados em trevas para o juízo. E Sodoma e Gomorra, com as cidades vizinhas, que se entregaram à imoralidade, servem de exemplo do castigo (Gn 19). A lição é que ter recebido a graça não garante a salvação de quem depois a rejeita.

Versículos 8 a 10: o arcanjo Miguel

Os falsos mestres, apoiados em supostos sonhos e visões, mancham o corpo, desprezam a autoridade do Senhor e insultam os seres gloriosos. Em contraste, o arcanjo Miguel, quando disputava com o diabo a respeito do corpo de Moisés, não se atreveu a pronunciar um julgamento injurioso, mas disse: «O Senhor te repreenda» (Jd 9). O episódio não está no Antigo Testamento; vem de uma tradição judaica que autores antigos ligavam a um escrito chamado Assunção de Moisés. A lição é a humildade: até o maior dos anjos deixa o juízo a Deus. Veja São Miguel Arcanjo.

Versículo 11: Caim, Balaão e Coré

Ai deles, diz Judas, porque seguiram o caminho de Caim, que matou o irmão por inveja (Gn 4); entregaram-se ao erro de Balaão por dinheiro (Nm 22 a 24); e pereceram na revolta de Coré, que se levantou contra a autoridade de Moisés e Aarão (Nm 16). Ódio, ganância e rebeldia resumem os falsos mestres.

Versículos 12 e 13: imagens da natureza

São uma mancha nas refeições fraternas da comunidade, os ágapes, onde comem sem pudor e só cuidam de si mesmos. Judas os descreve com cinco imagens: nuvens sem água, levadas pelo vento; árvores de fim de outono, sem frutos, duas vezes mortas e arrancadas pela raiz; ondas bravias do mar, que espumam a própria vergonha; estrelas errantes, destinadas à escuridão. Tudo promete e nada dá.

Versículos 14 a 16: a profecia de Enoc

Judas cita uma profecia atribuída a Enoc, o sétimo depois de Adão: o Senhor vem com milhares de seus santos para julgar todos os ímpios. A frase se encontra no livro conhecido como 1 Enoc, muito lido no judaísmo daquele tempo, mas que a Igreja não incluiu entre os livros sagrados. Usar uma frase de um livro não torna esse livro inspirado; Paulo, por exemplo, citou poetas pagãos (At 17,28). O autor usa a citação porque ela era conhecida dos leitores e expressava uma verdade: o juízo de Deus. Os falsos mestres são murmuradores, descontentes, guiados pelos desejos, arrogantes e bajuladores por interesse.

Versículos 17 a 19: lembrar as palavras dos apóstolos

Os fiéis devem lembrar o que os apóstolos anunciaram: nos últimos tempos haverá zombadores que seguem os próprios desejos ímpios (cf. 2Pd 3,3). São eles que causam divisões; são pessoas guiadas só pelo instinto, sem o Espírito.

Versículos 20 a 23: conservai-vos no amor de Deus

Depois da denúncia, o tom muda. Judas fala aos amados: edifiquem-se sobre a fé santíssima, rezem no Espírito Santo, conservem-se no amor de Deus e esperem a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo para a vida eterna. Os quatro verbos envolvem a Trindade: o Espírito, Deus Pai, o Senhor Jesus.

E pede misericórdia para com os outros: tenham compaixão dos que hesitam; salvem outros, arrancando-os do fogo; e de outros ainda tenham compaixão com cautela, detestando até a roupa manchada pela carne. Odiar o pecado, amar o pecador.

Versículos 24 e 25: a doxologia final

A carta termina com um louvor solene: àquele que pode guardar os fiéis de toda queda e apresentá-los diante da sua glória, sem mancha e cheios de alegria; ao único Deus, nosso Salvador, por Jesus Cristo, nosso Senhor, glória, majestade, poder e autoridade, antes de todos os séculos, agora e para sempre. Amém.

O que Judas 1 ensina para a fé católica?

O versículo 3 é muito usado para falar do depósito da fé: a revelação pública foi completada em Cristo e transmitida pelos apóstolos, e a Igreja tem a missão de guardá-la e transmiti-la fielmente. O Concílio Vaticano II, na Dei Verbum, ensina que não se deve esperar nenhuma nova revelação pública antes da manifestação gloriosa de Cristo.

A carta também ajuda a entender o cânon da Bíblia. Ela usa tradições extrabíblicas, mas isso não significa que esses escritos sejam inspirados; foi a Igreja, guiada pelo Espírito, que discerniu quais livros fazem parte da Escritura.

Por fim, os versículos 20 a 23 apresentam a vida cristã em chave trinitária e a caridade com os que vacilam na fé: rezar por eles, ajudá-los e ter misericórdia, sem pactuar com o pecado.

Reflexão para hoje

Combater pela fé não significa brigar com todo mundo. Judas termina a carta pedindo compaixão. O combate é, primeiro, interior: conhecer a fé, rezar, permanecer no amor de Deus. Quem está firme pode ajudar o irmão que hesita, sem agressividade.

O exemplo do arcanjo Miguel é precioso para as discussões de hoje, inclusive dentro da Igreja. Nem diante do diabo ele usou insultos; disse apenas: o Senhor te repreenda. Antes de responder com raiva a quem pensa diferente, vale entregar a causa a Deus.

E a doxologia final é um bom resumo para quem tem medo de cair: não é a nossa força que nos guarda, é Deus, que pode nos preservar de toda queda e nos apresentar cheios de alegria diante da sua glória.

Para rezar com Judas 1

  • Conheço a fé que recebi o suficiente para guardá-la e transmiti-la?
  • Como trato as pessoas que hesitam ou se afastaram da fé?
  • Confio que é Deus quem me guarda de cair?

Sugestão de oração:

Deus, nosso Salvador, que me chamaste, me amas e me guardas para Jesus Cristo, firma-me na fé que recebi da tua Igreja. Faze-me rezar no Espírito Santo e permanecer no teu amor. Dá-me compaixão pelos que hesitam e guarda-me de toda queda. A ti a glória, agora e para sempre. Amém.

Fontes

Bíblia Sagrada (tradução da CNBB). Concílio Vaticano II, constituição dogmática Dei Verbum.

Perguntas sobre Judas 1

A Carta de Judas foi escrita por São Judas Tadeu?

A tradição muitas vezes identificou o autor com o apóstolo São Judas Tadeu. Os estudiosos discutem se ele é o apóstolo, o Judas parente do Senhor citado em Mc 6,3 ou outro autor, e não há certeza.

Por que Judas cita o livro de Enoc?

Porque era um livro conhecido dos leitores judeus da época, e a frase citada expressava a verdade do juízo de Deus. Citar uma frase não torna o livro inspirado; a Igreja não incluiu 1 Enoc na Bíblia.

O que significa combater pela fé em Judas 3?

Significa guardar e defender a fé transmitida pelos apóstolos de uma vez por todas, contra os que a deformam. O próprio Judas mostra que esse combate se faz com oração, amor e compaixão pelos que hesitam.

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