João 5 conta a cura de um homem paralisado havia 38 anos, junto à piscina de Betesda, em Jerusalém. Como a cura acontece num sábado, surge um conflito com as autoridades. Jesus responde com um longo discurso: ele age em união com o Pai, tem poder de dar a vida e de julgar, e tem a seu favor várias testemunhas, entre elas as próprias Escrituras.
Contexto de João 5
Jesus sobe outra vez a Jerusalém para uma festa dos judeus, que o texto não identifica. Neste capítulo e em muitos outros, quando João fala de “os judeus” que se opõem a Jesus, refere-se sobretudo às autoridades religiosas de Jerusalém, e não ao povo judeu como um todo: Jesus, Maria, os apóstolos e grande parte dos que creram nele também eram judeus. A partir deste capítulo, a oposição contra ele cresce, e o Evangelho passa a mostrar Jesus em debate com os líderes religiosos. O ponto central não é apenas a observância do sábado, mas a pergunta sobre quem é Jesus e qual é a sua relação com Deus. Escavações arqueológicas em Jerusalém, perto da atual igreja de Santa Ana, encontraram um complexo de piscinas que muitos identificam com Betesda.
Explicação de João 5
Versículos 1 a 9: o paralítico de Betesda
Perto da Porta das Ovelhas havia uma piscina com cinco pórticos, onde se deitavam muitos doentes, cegos, coxos e paralíticos. Alguns manuscritos trazem um versículo explicando que um anjo agitava a água de tempos em tempos e o primeiro a entrar ficava curado; esse trecho falta nos manuscritos mais antigos, e por isso muitas Bíblias o colocam entre colchetes ou em nota. De todo modo, o próprio doente diz que esperava a água se agitar.
Jesus vê um homem doente havia 38 anos e pergunta: queres ficar curado? Ele responde que não tem ninguém para colocá-lo na água, e sempre outro chega antes. Jesus não usa a piscina. Diz apenas: levanta-te, pega a tua maca e anda. O homem fica curado no mesmo instante. A palavra de Jesus faz o que a espera de anos não fez.
Versículos 10 a 18: o conflito por causa do sábado
Era sábado, e as autoridades repreendem o homem por carregar a maca, o que contrariava a interpretação comum do descanso sabático. Ele diz que apenas obedeceu a quem o curou, mas não sabe quem foi. Mais tarde Jesus o encontra no Templo e o adverte para não pecar mais, para que não lhe aconteça algo pior. A frase não quer dizer que toda doença é castigo, o que Jesus nega em João 9; ela recorda que o pior mal é o pecado.
Quando perseguem Jesus por curar no sábado, ele responde: meu Pai trabalha até agora, e eu também trabalho. Mestres judeus da época reconheciam que Deus não deixa de sustentar o mundo nem no sábado. Ao chamar Deus de “meu Pai” e dizer que age como ele, Jesus se faz igual a Deus. Por isso querem matá-lo.
Versículos 19 a 30: o Filho faz o que vê o Pai fazer
Jesus explica a sua relação com o Pai. O Filho nada faz por si mesmo; faz o que vê o Pai fazer. O Pai ama o Filho e lhe mostra tudo. Assim como o Pai ressuscita os mortos, o Filho dá a vida a quem quer. O Pai entregou ao Filho o julgamento, para que todos honrem o Filho como honram o Pai.
Há dois tempos nesta passagem. Já agora, quem ouve a palavra de Jesus e crê passou da morte para a vida. E virá a hora em que todos os que estão nos túmulos ouvirão a sua voz: os que fizeram o bem ressuscitarão para a vida, e os que praticaram o mal, para a condenação. É a ressurreição final, que a Igreja professa no Credo. Jesus termina dizendo que o seu julgamento é justo porque ele busca a vontade de quem o enviou.
Versículos 31 a 40: as testemunhas de Jesus
Segundo a Lei, um testemunho precisava ser confirmado por duas ou três testemunhas (Dt 19,15). Jesus apresenta as suas. A primeira é João Batista, que foi uma lâmpada que ardia e iluminava. A segunda, maior, são as obras que o Pai lhe deu para realizar. A terceira é o próprio Pai. E há ainda as Escrituras: os seus ouvintes as estudam pensando ter nelas a vida eterna, e são elas que dão testemunho de Jesus. Mas eles não querem vir a ele para ter a vida.
Versículos 41 a 47: Moisés escreveu a meu respeito
Jesus aponta a raiz da incredulidade: buscam a glória uns dos outros, e não a glória que vem de Deus. Ele não os acusará diante do Pai; quem os acusa é Moisés, em quem colocam a esperança. Se cressem em Moisés, creriam em Jesus, porque Moisés escreveu sobre ele. O Antigo Testamento, lido inteiro, conduz a Cristo.
O que João 5 ensina para a fé católica?
O capítulo é um texto importante para a fé na Santíssima Trindade. Jesus se apresenta como Filho, distinto do Pai, e ao mesmo tempo igual a ele em honra, em poder de dar a vida e de julgar. A Igreja professa isso no Credo: o Filho é consubstancial ao Pai.
A passagem também ensina sobre os últimos tempos. A vida eterna começa já pela fé e pelos sacramentos, e se completa na ressurreição dos mortos. A advertência sobre o juízo segundo as obras mostra que a fé verdadeira se traduz em vida. Por fim, a Igreja aprende aqui a ler a Escritura como um todo que aponta para Cristo, como ensina o Concílio Vaticano II na Constituição Dei Verbum.
Reflexão para hoje
Trinta e oito anos é quase uma vida inteira. Há pessoas que esperam muito tempo por uma mudança: na saúde, no casamento, num filho afastado, numa depressão que não passa. A pergunta de Jesus parece estranha, mas é séria: queres ficar curado? Às vezes a gente se acostuma com a maca e já nem pede mais.
O homem diz que não tem ninguém. Essa é uma das dores mais comuns hoje: a solidão de quem está doente ou fragilizado. Jesus se aproxima de quem não tem ninguém. E nos convida a ser, para alguém, a pessoa que ajuda a chegar à água, com uma visita, uma ligação, uma carona até a consulta.
O capítulo também questiona a religião que se preocupa mais com a regra do que com a pessoa curada. As normas da Igreja são caminho para Deus e para o próximo; nunca desculpa para endurecer o coração.
Para rezar com João 5
- Que “maca” eu carrego há muito tempo e já deixei de apresentar a Jesus?
- Quem, perto de mim, está dizendo que não tem ninguém?
- Leio as Escrituras procurando nelas o rosto de Jesus?
Sugestão de oração:
Senhor Jesus, que viste o homem paralisado e lhe disseste para se levantar, olha para as minhas paralisias. Quero ser curado. Dá-me um coração atento aos que estão sozinhos e uma fé que busque a glória que vem de Deus. Amém.
Fontes
Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Concílio Vaticano II, Constituição Dei Verbum; Símbolo Niceno-Constantinopolitano.
Perguntas sobre João 5
O que era a piscina de Betesda?
Por que as autoridades quiseram matar Jesus em João 5?
O versículo 4 de João 5 faz parte da Bíblia?
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