Gálatas 4 mostra a passagem da condição de escravo para a de filho. Quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher, para que recebêssemos a adoção filial. O Espírito em nós clama a Deus como Pai. Paulo também fala com ternura aos gálatas e termina com a comparação entre Agar e Sara.
Contexto de Gálatas 4
O capítulo continua o raciocínio de Gálatas 3, que terminou dizendo que os batizados são herdeiros da promessa feita a Abraão. Agora Paulo explica como alguém se torna herdeiro e por que voltar à Lei como caminho de salvação seria voltar à escravidão. No meio dos argumentos, ele abre o coração e lembra como os gálatas o acolheram na primeira visita. É um capítulo que mistura doutrina e afeto pastoral.
Explicação de Gálatas 4
Versículos 1 a 3: o herdeiro ainda menor
Paulo usa uma imagem do direito da época. Enquanto o herdeiro é criança, mesmo sendo dono de tudo, não difere de um escravo: fica sob tutores e administradores até a data fixada pelo pai. Assim também nós, antes de Cristo, éramos como menores, escravizados aos elementos do mundo. A expressão elementos do mundo é difícil, e os estudiosos discutem seu sentido exato. Pode indicar os princípios básicos e as forças que, segundo a mentalidade antiga, regiam o cosmos e a vida religiosa, tanto pagã quanto judaica.
Versículos 4 a 7: a plenitude dos tempos
Aqui está um dos textos mais importantes do Novo Testamento sobre a Encarnação: “quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher” (Gl 4,4). Deus escolheu o momento da história. O Filho, que existia junto do Pai, nasceu de uma mulher, isto é, tornou-se verdadeiramente homem. Paulo não diz o nome dela, mas a Igreja sempre viu aqui a Virgem Maria. E nasceu sujeito à Lei, para resgatar os que estavam sob a Lei.
O objetivo é que recebêssemos a adoção de filhos. E a prova de que somos filhos é que Deus enviou aos nossos corações o Espírito do seu Filho, que clama: Abbá, Pai. Abbá é a palavra aramaica com que uma criança chamava o pai, e Jesus a usou na oração no Getsêmani (Mc 14,36). O Espírito nos ensina a rezar como Jesus. Portanto, já não somos escravos, mas filhos, e herdeiros pela graça de Deus.
Versículos 8 a 11: não voltar à escravidão
Antes de conhecer a Deus, os gálatas serviam a deuses que, por natureza, não são deuses. Agora conhecem a Deus, ou melhor, são conhecidos por ele. Paulo pergunta como podem voltar a esses elementos fracos e pobres. Eles começaram a observar dias, meses, estações e anos, isto é, um calendário religioso imposto como condição de salvação. Paulo teme ter trabalhado em vão entre eles. O problema não é celebrar festas, que a Igreja também faz, mas pensar que a salvação depende dessas observâncias e não de Cristo.
Versículos 12 a 20: o afeto de Paulo
O tom muda. Paulo pede aos gálatas que se tornem como ele, que se fez como eles. Lembra que lhes anunciou o Evangelho pela primeira vez por causa de uma doença física. Não sabemos qual era. Apesar da prova que essa fraqueza representava, eles não o desprezaram; ao contrário, o receberam como um anjo de Deus, como o próprio Cristo. Teriam até arrancado os olhos para dá-los a ele, expressão que alguns ligam a um problema de visão, mas isso é apenas hipótese.
Agora Paulo pergunta se se tornou inimigo deles por dizer a verdade. Os novos pregadores mostram grande interesse pelos gálatas, mas com segundas intenções: querem afastá-los de Paulo para que se apeguem a eles. E então a imagem mais comovente do capítulo: Paulo diz que sofre de novo as dores do parto até que Cristo seja formado neles. O apóstolo se sente mãe dessa comunidade. Gostaria de estar presente e mudar o tom de voz, porque não sabe mais como agir com eles.
Versículos 21 a 31: Agar e Sara
Para quem quer estar sob a Lei, Paulo propõe uma leitura da própria Lei. Abraão teve dois filhos: um da escrava Agar, Ismael, e outro da livre Sara, Isaac (Gn 16 e 21). O filho da escrava nasceu segundo a carne, de modo natural; o da livre nasceu em virtude da promessa, quando Sara já era idosa e estéril.
Paulo diz que isso tem um sentido alegórico. As duas mulheres representam duas alianças. Agar corresponde ao monte Sinai e à Jerusalém daquele tempo, que vive na escravidão da Lei. Sara corresponde à Jerusalém do alto, que é livre e é nossa mãe. Paulo cita Isaías 54,1, que convida a estéril a se alegrar porque terá muitos filhos. Os cristãos, como Isaac, são filhos da promessa. Paulo cita ainda Gênesis 21,10, a palavra de Sara pedindo que a escrava e seu filho sejam mandados embora, e conclui: não somos filhos da escrava, mas da livre.
É preciso ler esta alegoria com cuidado. Paulo argumenta contra os que queriam impor a Lei aos cristãos vindos do paganismo, não contra o povo judeu enquanto tal. A Igreja ensina, desde a declaração Nostra Aetate do Concílio Vaticano II, que os judeus continuam amados por Deus e que é preciso rejeitar qualquer desprezo por eles.
O que Gálatas 4 ensina para a fé católica?
Gálatas 4,4 é citado pelo Catecismo no início da explicação sobre Jesus Cristo, Filho de Deus feito homem (CIC n. 422). O versículo resume a fé da Igreja: Jesus é o Filho enviado pelo Pai, verdadeiro Deus, e é verdadeiro homem, nascido de uma mulher. Por isso a Igreja proclama Maria Mãe de Deus. Não por acaso, Gálatas 4,4-7 é a segunda leitura da Missa da Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, no dia 1º de janeiro.
O capítulo também revela a Trindade em ação: o Pai envia o Filho, e envia o Espírito do Filho aos nossos corações. A filiação divina não é uma metáfora. Pela graça, somos realmente filhos no Filho. Toda oração cristã nasce daí, e o Pai-Nosso é a sua expressão mais perfeita.
Reflexão para hoje
Há uma grande diferença entre servir a Deus como empregado e amá-lo como filho. O empregado trabalha com medo de perder o emprego. O filho sabe que a casa é dele. Muitos cristãos vivem a fé como se estivessem sempre sendo avaliados. Paulo nos lembra que o Espírito nos faz chamar Deus de Abbá, com a confiança de uma criança.
A imagem de Paulo sofrendo dores de parto toca especialmente pais, mães, padrinhos e catequistas. Formar Cristo em alguém custa. Exige paciência, oração, conversas difíceis e às vezes lágrimas. Paulo não desistiu dos gálatas, mesmo quando o decepcionaram. Também não podemos desistir dos filhos ou das pessoas que Deus nos confiou.
E a lembrança da doença de Paulo consola quem se sente fraco. Deus usou a fragilidade do apóstolo para levar o Evangelho à Galácia. Nossa limitação não impede a ação de Deus.
Para rezar com Gálatas 4
- Quando rezo, eu me dirijo a Deus como filho ou como alguém com medo de ser cobrado?
- Por quem eu sofro dores de parto, desejando que Cristo seja formado nessa pessoa?
- Há práticas na minha vida religiosa que viraram fim em si mesmas e me afastaram de Cristo?
Sugestão de oração:
Abbá, Pai, eu te agradeço porque enviaste o teu Filho, nascido da Virgem Maria, para me fazer teu filho. Que o teu Espírito reze em mim e me livre de toda escravidão. Dá-me paciência e amor para ajudar a formar Cristo nas pessoas que me confiaste. Amém.
Fontes
Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 422; Concílio Vaticano II, declaração Nostra Aetate.
Perguntas sobre Gálatas 4
O que significa a plenitude dos tempos em Gálatas 4,4?
O que quer dizer Abbá?
O que representam Agar e Sara em Gálatas 4?
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