Gálatas 1 abre uma das cartas mais intensas de São Paulo. Sem os elogios de costume, o Apóstolo se espanta porque os cristãos da Galácia estão trocando o Evangelho que receberam por outra mensagem. Para defender esse Evangelho, Paulo conta como foi chamado por Deus: não por iniciativa humana, mas por revelação de Jesus Cristo.
Contexto de Gálatas 1
A Galácia ficava no centro da atual Turquia. Paulo tinha anunciado ali o Evangelho a pessoas de origem pagã, que acolheram Cristo pela fé e receberam o Batismo. Depois que ele partiu, chegaram pregadores cristãos de mentalidade judaizante. Eles ensinavam que os pagãos convertidos precisavam também se circuncidar e observar a Lei de Moisés para pertencer de verdade ao povo de Deus. Além disso, punham em dúvida a autoridade de Paulo.
A carta é a resposta a essa crise. Os estudiosos discutem a data exata e quais comunidades da Galácia eram as destinatárias, mas há acordo sobre o essencial: é uma carta autêntica de Paulo, escrita nos anos 50, e um texto central para entender a relação entre a Lei, a fé e a graça. O capítulo 1 tem duas partes: a introdução da carta e o início da defesa pessoal de Paulo, que continua no capítulo 2.
Explicação de Gálatas 1
Versículos 1 a 5: a saudação
Paulo se apresenta como apóstolo, isto é, enviado. E logo acrescenta que não foi enviado por homens nem por meio de um homem, mas por Jesus Cristo e por Deus Pai, que o ressuscitou dos mortos. Esse detalhe já anuncia o tema do capítulo: sua autoridade vem de Deus. Ele escreve junto com os irmãos que estão com ele e se dirige às igrejas da Galácia, no plural, o que indica várias comunidades.
A saudação deseja graça e paz, fórmula que une o cumprimento grego e o hebraico. E já resume o Evangelho: Cristo se entregou pelos nossos pecados para nos arrancar do presente mundo mau, segundo a vontade do Pai. A salvação é obra de Cristo, e não algo que conquistamos. A saudação termina com um louvor a Deus e um amém.
Versículos 6 a 10: o espanto de Paulo
Na maioria das outras cartas, depois da saudação, Paulo agradece a Deus pela comunidade. Aqui, não. Ele escreve que está admirado porque os gálatas abandonaram tão depressa aquele que os chamou pela graça de Cristo para seguir outro evangelho. Mas logo se corrige: não existe outro evangelho. O que há são pessoas que perturbam a comunidade e querem deturpar o Evangelho de Cristo.
Em seguida vem uma frase muito forte, repetida duas vezes: se alguém, mesmo um anjo do céu ou o próprio Paulo, anunciar um evangelho diferente daquele que foi pregado, seja anátema. A palavra anátema indica alguém separado, entregue ao juízo de Deus. Paulo não fala assim por temperamento, mas porque está em jogo a própria salvação. O versículo 10 responde a uma acusação: diziam que Paulo suavizava a mensagem para agradar aos pagãos. Ele rebate que, se buscasse agradar aos homens, não seria servo de Cristo.
Versículos 11 e 12: um Evangelho recebido por revelação
Aqui começa a parte autobiográfica da carta. Paulo afirma que o Evangelho que ele anuncia não é invenção humana. Ele não o recebeu nem aprendeu de um homem, mas por revelação de Jesus Cristo. Isso não quer dizer que Paulo despreze a tradição da Igreja; em outras cartas ele mesmo diz que transmite o que recebeu (1Cor 15,3). O ponto aqui é outro: o encontro com Cristo ressuscitado foi a fonte da sua missão.
Versículos 13 e 14: o passado de Paulo
Os gálatas já tinham ouvido falar do comportamento de Paulo no judaísmo. Ele perseguia com violência a Igreja de Deus e tentava destruí-la. Também se destacava entre os jovens do seu povo pelo zelo extremo pelas tradições dos antepassados. O relato combina com os Atos dos Apóstolos, que mostram Saulo aprovando a morte de Estêvão e perseguindo os cristãos (At 8,1-3; 9,1-2). Paulo lembra esse passado para mostrar que nada nele o preparava para se tornar pregador de Cristo. Só a graça explica a mudança.
Versículos 15 a 17: o chamado
Paulo descreve sua conversão como um chamado. Deus o separou desde o seio materno e o chamou pela sua graça, linguagem que lembra a vocação dos profetas (Jr 1,5; Is 49,1). E Deus quis revelar nele o seu Filho, para que o anunciasse entre os pagãos. A conversão de Paulo é, ao mesmo tempo, encontro pessoal com Cristo e envio em missão.
Depois disso, ele não foi logo consultar ninguém nem subiu a Jerusalém para ver os que eram apóstolos antes dele. Foi para a Arábia, provavelmente a região dos nabateus, ao sul de Damasco, e depois voltou a Damasco. Não sabemos o que fez na Arábia; a carta não diz.
Versículos 18 a 24: a visita a Jerusalém
Só três anos depois Paulo subiu a Jerusalém para conhecer Cefas, isto é, Pedro, e ficou com ele quinze dias. Dos outros apóstolos viu apenas Tiago, o irmão do Senhor. A expressão irmão do Senhor, na linguagem bíblica, pode indicar um parente próximo, e a Igreja sempre a entendeu assim. Paulo chega a jurar que não está mentindo, sinal de como a acusação contra ele era séria.
Esse encontro com Pedro é importante. Mesmo tendo recebido o Evangelho por revelação, Paulo procura o chefe dos apóstolos. Depois foi para as regiões da Síria e da Cilícia, sua terra natal. As comunidades cristãs da Judeia não o conheciam pessoalmente. Só ouviam dizer que o antigo perseguidor agora anunciava a fé que antes queria destruir. E glorificavam a Deus por causa dele. A conversão de Paulo se torna motivo de louvor.
O que Gálatas 1 ensina para a fé católica?
O primeiro ensinamento é que o Evangelho não pode ser modificado ao gosto de cada um. A Revelação de Deus em Cristo é um dom que a Igreja recebe, guarda e transmite fielmente. A constituição Dei Verbum, do Concílio Vaticano II, ensina que a Tradição e a Escritura formam um só depósito da Palavra de Deus confiado à Igreja. Gálatas 1 mostra que essa fidelidade já preocupava os apóstolos.
O segundo ensinamento é sobre a graça. Paulo não se converteu por esforço próprio. Deus o escolheu e o chamou quando ele ainda era perseguidor. Toda vocação cristã nasce assim: da iniciativa de Deus. O terceiro é a comunhão com Pedro. Paulo tinha uma missão própria, mas não a viveu isolado; foi ver Cefas. A tradição católica vê nesse gesto um sinal da unidade apostólica que continua na comunhão com o sucessor de Pedro.
Por fim, Paulo mostra que ninguém está longe demais de Deus. O homem que perseguia a Igreja se tornou o apóstolo dos pagãos. A Igreja celebra a Conversão de São Paulo como festa no dia 25 de janeiro.
Reflexão para hoje
Muitos de nós conhecemos a tentação dos gálatas: acrescentar coisas ao Evangelho ou tirar dele o que incomoda. Às vezes queremos uma fé mais fácil, que agrade a todos. Outras vezes queremos uma fé cheia de regras humanas, que nos dê a sensação de estar sempre em dia. Paulo nos chama de volta ao centro: Cristo, que se entregou por nós.
A pergunta do versículo 10 também é para nós. Em casa, no trabalho, nas redes sociais, buscamos agradar aos outros ou a Deus? Quem vive para a aprovação alheia acaba mudando de opinião conforme o público. Quem serve a Cristo pode ser gentil com todos, mas não precisa negociar a verdade.
E há a história do próprio Paulo. Talvez alguém da nossa família esteja longe da fé, ou nós mesmos tenhamos um passado de que nos envergonhamos. Deus chamou Paulo no meio do caminho errado. Ele pode fazer o mesmo hoje. O que precisamos é deixar que a graça trabalhe e, como as igrejas da Judeia, glorificar a Deus pelas conversões que acontecem ao nosso redor.
Para rezar com Gálatas 1
- Existe alguma parte do Evangelho que eu tento suavizar ou ignorar porque me incomoda?
- Nas minhas decisões, procuro mais agradar às pessoas ou a Deus?
- Por quem eu poderia rezar hoje, pedindo a graça de uma conversão como a de Paulo?
Sugestão de oração:
Senhor Jesus, que chamaste Paulo quando ele ainda te perseguia, chama-me também cada dia. Guarda-me fiel ao teu Evangelho, sem acrescentar nem tirar nada. Livra-me do medo de desagradar aos homens e dá-me a alegria de servir somente a ti. Amém.
Fontes
Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Concílio Vaticano II, constituição dogmática Dei Verbum.
Perguntas sobre Gálatas 1
Por que Paulo não agradece pelos gálatas no início da carta?
O que significa anátema em Gálatas 1?
Quem é Cefas em Gálatas 1,18?
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