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Êxodo

Êxodo 34: Deus misericordioso e a aliança renovada

Leia Êxodo 34 na sua Bíblia e acompanhe aqui a explicação, o que a Igreja ensina e uma reflexão para rezar.

Moisés ergue as tábuas da Lei com os Dez Mandamentos
Rembrandt, Moisés com as tábuas da Lei, 1659. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Êxodo 34 narra a renovação da aliança depois do pecado do bezerro de ouro. Moisés talha duas novas tábuas e sobe ao Sinai, onde Deus passa diante dele e proclama o seu nome: misericordioso, clemente, lento para a cólera e rico em bondade e fidelidade. Deus renova a aliança e repete leis essenciais. Ao descer, o rosto de Moisés brilha, e ele passa a cobri-lo com um véu.

Contexto de Êxodo 34

No capítulo 32, o povo quebrou a aliança e Moisés quebrou as tábuas. No capítulo 33, Moisés intercedeu e pediu para ver a glória de Deus. O capítulo 34 é a resposta: Deus perdoa, revela quem Ele é e recomeça. É um dos textos mais importantes do Antigo Testamento sobre o rosto de Deus, citado e rezado muitas vezes nos salmos e nos profetas.

Explicação de Êxodo 34

Versículos 1 a 4: as novas tábuas

Deus manda Moisés talhar duas tábuas de pedra iguais às primeiras e subir sozinho ao monte, de madrugada. Ninguém deve subir com ele, nem os rebanhos devem pastar diante do monte. Desta vez as tábuas são preparadas por Moisés, mas as palavras continuam sendo de Deus. A aliança é renovada por iniciativa divina, depois que o homem a rompeu.

Versículos 5 a 9: o nome de Deus

O Senhor desce na nuvem, fica ali com Moisés e proclama o seu nome. Passa diante dele dizendo: "Senhor, Senhor, Deus misericordioso e clemente, lento para a cólera, rico em bondade e fidelidade" (Ex 34,6). Acrescenta que conserva o seu amor por milhares de gerações e perdoa a culpa, a rebeldia e o pecado, mas não deixa nada impune, castigando a culpa dos pais nos filhos até a terceira e a quarta geração.

A palavra traduzida por misericordioso vem de um termo hebraico ligado às entranhas maternas: é um amor que se comove por dentro. A desproporção é proposital: o amor vai até milhares de gerações, o castigo até três ou quatro. A misericórdia é muito maior que a justiça punitiva. A menção às gerações reflete a mentalidade coletiva da época; mais tarde os profetas vão sublinhar a responsabilidade pessoal de cada um (Ez 18,20).

Moisés se prostra, adora e pede que o Senhor caminhe no meio do povo, mesmo sendo de cabeça dura, que perdoe as suas culpas e o tome como sua herança. Esta fórmula do nome de Deus volta muitas vezes na Bíblia, por exemplo no Salmo 103,8, em Joel 2,13 e em Jonas 4,2.

Versículos 10 a 17: a aliança e a fidelidade exclusiva

Deus anuncia que fará maravilhas nunca vistas diante de todo o povo. Ao entrar na terra, Israel não deve fazer alianças com os habitantes do país, que o levariam a adorar outros deuses. Deve derrubar os seus altares, quebrar as suas colunas sagradas e cortar os postes dedicados à deusa Aserá. O Senhor se chama Ciumento, isto é, um Deus que não aceita dividir o coração do seu povo com ídolos.

A proibição de casamentos com esses povos tem a mesma razão: o risco de levar Israel à idolatria. Não se trata de desprezo racial, e sim de proteger a fé de um povo pequeno cercado de cultos pagãos. A ordem de destruir altares pagãos pertence ao seu tempo; a Igreja lê esses textos à luz de Cristo e defende a liberdade religiosa, mas guarda o núcleo: só Deus é Deus. Termina com uma ordem clara, à luz do capítulo anterior: não farás deuses de metal fundido.

Versículos 18 a 26: as festas e as primícias

Seguem leis de culto: a festa dos Pães sem Fermento, em memória da saída do Egito; o resgate de todo primogênito, que pertence a Deus; o descanso do sétimo dia, mesmo no tempo de arar e de colher; a festa das Semanas, com as primícias do trigo, e a festa da colheita no fim do ano. Três vezes por ano os homens devem se apresentar diante do Senhor, e ninguém deve vir de mãos vazias.

A última norma, não cozinhar o cabrito no leite da mãe, tem origem discutida. Pode ter relação com algum rito pagão ou expressar respeito pela vida. A tradição judaica tirou dela a separação entre carne e leite. Muitos estudiosos veem nestes versículos uma forma antiga e cultual das leis da aliança, mas o texto em si apresenta tudo como renovação do pacto do Sinai.

Versículos 27 e 28: quarenta dias no monte

Deus manda Moisés escrever essas palavras, base da aliança com ele e com Israel. Moisés fica com o Senhor quarenta dias e quarenta noites, sem comer pão nem beber água, e são escritas nas tábuas as palavras da aliança, as dez palavras, isto é, os Dez Mandamentos. O jejum de quarenta dias será vivido também por Elias (1Rs 19,8) e por Jesus no deserto (Mt 4,2).

Versículos 29 a 35: o rosto radiante de Moisés

Quando Moisés desce com as tábuas, não sabe que a pele do seu rosto brilha por ter falado com Deus. Aarão e o povo têm medo de se aproximar. Moisés os chama, transmite tudo o que o Senhor disse e depois cobre o rosto com um véu. Sempre que entrava para falar com Deus, tirava o véu; ao sair, falava ao povo e voltava a cobrir-se.

O verbo hebraico usado para esse brilho (qaran) vem da mesma raiz de qeren, chifre, palavra que também pode indicar raios de luz. Por isso a Vulgata, a tradução latina de São Jerônimo, disse que o rosto de Moisés estava cornuta, isto é, com chifres. Daí vêm as representações de Moisés com dois chifres na testa, como a famosa estátua de Michelangelo em Roma. As traduções atuais seguem o sentido do texto e falam de um rosto radiante: quem convive com Deus é transformado por Ele.

O que Êxodo 34 ensina para a fé católica?

O Catecismo ensina que, depois do pecado do bezerro de ouro, Deus atende a intercessão de Moisés, aceita caminhar no meio de um povo infiel e se revela rico em misericórdia. O nome divino exprime a sua fidelidade, que vai além do pecado humano, e se manifesta plenamente quando Deus entrega o seu Filho (CIC 210 e 211). Por isso a Igreja lê trechos dos versículos 4 a 9 na solenidade da Santíssima Trindade no ano A: o Deus que se revelou a Moisés é o Pai que nos dá o Filho no Espírito.

São Paulo comenta o rosto radiante de Moisés em 2 Coríntios 3: o brilho no rosto de Moisés era passageiro, mas na Nova Aliança todos nós, com o rosto descoberto, refletimos a glória do Senhor e somos transformados nessa imagem pelo Espírito. A Transfiguração de Jesus, em que Moisés aparece ao lado de Elias, mostra a luz definitiva (Lc 9,28-36).

Reflexão para hoje

Êxodo 34 começa com tábuas novas. Depois do pecado, Deus não exige que o povo fabrique sozinho a reconciliação: Ele mesmo convida a recomeçar. Muitos de nós carregamos culpas antigas e pensamos que é tarde demais. Este capítulo, como a confissão, diz que sempre há tábuas novas.

O nome que Deus revela é também um espelho do que Ele espera de nós. Pais pacientes, chefes lentos para a cólera, amigos fiéis: quando vivemos assim, mostramos algo do rosto de Deus.

E o rosto de Moisés lembra que a oração deixa marcas. Quem convive com Deus vai ficando diferente, mais sereno, mais luminoso, mesmo sem perceber. Os outros notam antes de nós.

Para rezar com Êxodo 34

  • Acredito de verdade que a misericórdia de Deus é maior que o meu pecado?
  • Em que aspecto preciso ser mais lento para a cólera com os outros?
  • Minha oração tem transformado o meu jeito de olhar e de tratar as pessoas?

Sugestão de oração:

Senhor, Deus misericordioso e clemente, lento para a cólera e rico em bondade, caminha no meio de nós, mesmo quando somos de cabeça dura. Perdoa as nossas culpas, dá-nos sempre um novo começo e faz brilhar em nossa vida a luz do teu rosto. Amém.

Fontes

Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 210 e 211; Lecionário Dominical.

Perguntas sobre Êxodo 34

Qual é o nome de Deus revelado em Êxodo 34?

Deus se proclama Senhor, misericordioso e clemente, lento para a cólera e rico em bondade e fidelidade, que conserva o seu amor por milhares de gerações e perdoa o pecado. É uma das descrições de Deus mais citadas na Bíblia.

Por que o rosto de Moisés brilhava?

Porque ele tinha falado com Deus no monte. O brilho mostra que o encontro com Deus transforma a pessoa. São Paulo retoma essa imagem em 2 Coríntios 3 para falar da glória da Nova Aliança.

Por que Moisés aparece com chifres em algumas obras de arte?

A palavra hebraica que indica o brilho do rosto vem da mesma raiz de chifre, e a Vulgata, tradução latina de São Jerônimo, a traduziu assim. Por isso artistas como Michelangelo representaram Moisés com chifres; as traduções atuais falam de rosto radiante.

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