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Apocalipse

Apocalipse 4: o trono de Deus e a liturgia do céu

Leia Apocalipse 4 na sua Bíblia e acompanhe aqui a explicação, o que a Igreja ensina e uma reflexão para rezar.

São João em Patmos escreve o Apocalipse enquanto contempla a visão da Mulher no céu
Diego Velázquez, São João Evangelista na Ilha de Patmos, 1619–1620. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Apocalipse 4 abre a grande visão do céu. João vê uma porta aberta, sobe em espírito e contempla o trono de Deus, cercado por vinte e quatro anciãos e quatro seres vivos que cantam sem parar Santo, Santo, Santo. O capítulo é uma liturgia: toda a criação adora o Criador e reconhece que tudo existe por sua vontade.

Contexto de Apocalipse 4

Depois das cartas às igrejas (capítulos 2 e 3), o olhar muda da terra para o céu. Antes de mostrar as lutas da história, o livro mostra quem governa a história: Deus no seu trono. Os capítulos 4 e 5 formam uma só cena, a liturgia celeste, que prepara a abertura dos selos a partir do capítulo 6. As imagens vêm sobretudo das visões de Isaías 6 e de Ezequiel 1. Para comunidades pressionadas pelo culto ao imperador, a mensagem era clara: o verdadeiro trono não está em Roma.

Explicação de Apocalipse 4

Versículo 1: uma porta aberta no céu

Na carta a Filadélfia, Cristo tinha falado de uma porta aberta. Agora João vê uma porta aberta no céu e ouve a mesma voz como de trombeta da primeira visão: sobe até aqui, e eu te mostrarei o que deve acontecer depois. Deus toma a iniciativa de revelar. O ser humano não arromba o céu; é convidado a entrar.

Versículos 2 e 3: o trono e Aquele que está sentado

João é arrebatado em espírito e vê um trono e alguém sentado nele. Repare: Deus não é descrito com traços humanos. João só fala de brilho de pedras preciosas, jaspe e sardônio, e de um arco-íris com aspecto de esmeralda em volta do trono. O arco-íris lembra a aliança com Noé (Gn 9,13) e a visão de Ezequiel (Ez 1,28): o trono de Deus é cercado de fidelidade e misericórdia. O mistério é respeitado; o que se mostra é glória.

Versículo 4: os vinte e quatro anciãos

Ao redor há vinte e quatro tronos com vinte e quatro anciãos vestidos de branco e com coroas de ouro. O texto não diz quem são. Uma leitura muito difundida vê neles o povo de Deus inteiro, doze tribos de Israel e doze apóstolos, unindo as duas alianças; outros lembram as vinte e quatro classes de sacerdotes do templo (1Cr 24); outros, ainda, pensam em seres celestes. As vestes brancas e as coroas falam de pureza e vitória, e o gesto deles mostrará o sentido: adorar.

Versículos 5 e 6a: relâmpagos, lâmpadas e mar de vidro

Do trono saem relâmpagos, vozes e trovões, como no Sinai (Ex 19,16): é a manifestação de Deus. Sete lâmpadas de fogo ardem diante dele, e o texto explica que são os sete Espíritos de Deus, já mencionados no capítulo 1. Diante do trono há como um mar de vidro, semelhante ao cristal. Na Bíblia, o mar muitas vezes evoca o caos e as forças hostis; aqui ele está calmo e transparente diante de Deus. Há quem veja também uma alusão ao grande tanque de bronze do templo de Salomão, chamado mar (1Rs 7,23).

Versículos 6b a 8: os quatro seres vivos

No meio e ao redor do trono estão quatro seres vivos, cheios de olhos na frente e atrás. O primeiro se parece com um leão, o segundo com um touro, o terceiro tem rosto de homem, o quarto é como uma águia em voo. Cada um tem seis asas. São inspirados nos querubins de Ezequiel (Ez 1,10) e nos serafins de Isaías (Is 6,2). Representam o que há de mais nobre, forte, sábio e ágil na criação; os muitos olhos indicam atenção e vigilância contínua. Dia e noite eles dizem: «Santo, Santo, Santo, Senhor Deus todo-poderoso, aquele que era, que é e que vem» (Ap 4,8).

A Tradição cristã fez uma leitura espiritual dessas figuras. Santo Ireneu já as relacionou aos quatro Evangelhos (Contra as Heresias III,11,8). A associação que se tornou mais conhecida na arte, o homem para Mateus, o leão para Marcos, o touro para Lucas e a águia para João, vem de São Jerônimo, no prefácio do seu Comentário ao Evangelho de Mateus. É um sentido espiritual legítimo, que não elimina o sentido literal da cena.

Versículos 9 a 11: a criação adora o Criador

Cada vez que os seres vivos dão glória, honra e ação de graças, os anciãos se prostram, adoram aquele que vive pelos séculos e lançam as suas coroas diante do trono. Toda vitória e toda dignidade são devolvidas a Deus. O hino deles proclama que o Senhor é digno de receber a glória, a honra e o poder, porque criou todas as coisas, e por sua vontade elas existem. Este capítulo celebra Deus como Criador; o próximo celebrará o Cordeiro como Redentor.

O que Apocalipse 4 ensina para a fé católica?

O Catecismo usa esta visão para explicar a liturgia: o Apocalipse mostra um trono no céu e alguém sentado nele, e é dessa liturgia eterna que o Espírito e a Igreja nos fazem participar quando celebramos os sacramentos (CIC n. 1137 a 1139). O Concílio Vaticano II ensina o mesmo: na liturgia da terra participamos, saboreando-a de antemão, da liturgia do céu (Sacrosanctum Concilium 8).

Por isso, na Missa, antes da Oração Eucarística, a assembleia canta o Santo, unindo a voz de Isaías 6,3 à dos seres vivos. Ali a Igreja da terra se junta aos anjos e santos. O Catecismo também diz que o Apocalipse se apoia nos cânticos da liturgia celeste, e que a Igreja peregrina canta esses mesmos hinos na fé e na provação (CIC n. 2642). O hino dos anciãos é rezado nas Vésperas, entre os cânticos bíblicos da Liturgia das Horas.

Reflexão para hoje

Antes de qualquer drama, o Apocalipse mostra o trono. Quando a vida parece sem rumo, por causa de doença, crise no trabalho ou notícias assustadoras, este capítulo lembra que o centro do universo não está vazio. Há alguém no trono, e ele é fiel.

Os anciãos lançam as coroas. Cada um de nós tem as suas: diplomas, cargos, conquistas, até virtudes. A adoração é devolver tudo isso a Deus, reconhecendo que tudo é dom. Isso liberta do orgulho e também do desânimo, porque o valor da vida não depende só do que conseguimos.

Na próxima Missa, ao cantar o Santo, vale lembrar que não estamos sozinhos naquela igreja, às vezes meio vazia. Estamos cantando com o céu inteiro.

Para rezar com Apocalipse 4

  • Quais são as coroas que eu preciso depositar diante de Deus?
  • Eu vivo a Missa como participação na liturgia do céu?
  • Em que momento do dia eu posso fazer um ato simples de adoração?

Sugestão de oração:

Santo, Santo, Santo és tu, Senhor Deus, que eras, que és e que vens. Tu criaste todas as coisas e por tua vontade elas existem. Recebe as coroas que eu carrego e ensina-me a adorar-te com todo o meu ser, unido aos anjos e aos santos. Amém.

A cena continua em Apocalipse 5, com o livro selado e o Cordeiro. Para a visão de origem, leia Isaías 6.

Fontes

Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica; Concílio Vaticano II, Constituição Sacrosanctum Concilium; Santo Ireneu de Lião, Contra as Heresias; São Jerônimo, Comentário ao Evangelho de Mateus.

Perguntas sobre Apocalipse 4

Quem são os 24 anciãos de Apocalipse 4?

O texto não explica. Uma interpretação muito difundida vê neles o povo de Deus completo, as doze tribos de Israel e os doze apóstolos; outros pensam em seres celestes que representam os fiéis. Em todo caso, eles adoram e entregam suas coroas a Deus.

O que representam os quatro seres vivos?

No texto, são criaturas celestes que louvam a Deus sem cessar, inspiradas em Ezequiel 1 e Isaías 6, e costumam ser lidas como imagem de toda a criação. A Tradição cristã, desde Santo Ireneu, também viu neles os quatro Evangelhos.

Por que cantamos o Santo na Missa?

O Santo, Santo, Santo vem de Isaías 6,3 e reaparece em Apocalipse 4,8 como canto dos seres do céu. Ao cantá-lo na Missa, a assembleia se une à liturgia celeste.

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