Tempo Comum, 30ª semana Liturgia de hoje
Católicos Orantes
Apocalipse

Apocalipse 1: a visão de Cristo ressuscitado, explicação

Leia Apocalipse 1 na sua Bíblia e acompanhe aqui a explicação, o que a Igreja ensina e uma reflexão para rezar.

São João em Patmos escreve o Apocalipse enquanto contempla a visão da Mulher no céu
Diego Velázquez, São João Evangelista na Ilha de Patmos, 1619–1620. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Apocalipse 1 é a abertura do último livro da Bíblia. João conta que, exilado na ilha de Patmos, recebeu num domingo, o dia do Senhor, uma revelação de Jesus Cristo para sete igrejas da Ásia. O capítulo culmina na visão de Cristo ressuscitado, glorioso, que caminha no meio das suas comunidades e diz: não tenhas medo.

Contexto de Apocalipse 1

A palavra «apocalipse» vem do grego e quer dizer revelação, tirar o véu. Não significa catástrofe. O livro pertence ao gênero apocalíptico, já presente em Daniel e em partes de Ezequiel e Zacarias: fala por visões, números e imagens para mostrar o sentido escondido da história. Ao mesmo tempo, ele se apresenta como profecia (1,3) e como carta enviada a comunidades concretas (1,4).

A Tradição atribui o livro ao apóstolo João. Muitos estudiosos pensam num autor chamado João, profeta da mesma tradição, e há debate sobre isso. A datação mais aceita é o fim do século I, sob o imperador Domiciano, como já dizia Santo Ireneu de Lião (Contra as Heresias V,30,3); outros pensam na época de Nero. Os cristãos da Ásia Menor, atual Turquia, sofriam pressão para participar do culto ao imperador e viviam a tentação de se acomodar. O livro lhes diz que a última palavra não é de Roma, mas do Cordeiro.

Para ler bem o Apocalipse, vale uma chave: os números e as imagens são símbolos. Sete indica plenitude; doze, o povo de Deus; mil, uma grande quantidade. Seguindo a Dei Verbum 12, a Igreja busca primeiro o que o autor quis dizer aos seus leitores, e depois o sentido para todos os tempos.

Explicação de Apocalipse 1

Versículos 1 a 3: revelação de Jesus Cristo

O título já diz o essencial: é revelação de Jesus Cristo, que vem de Deus e chega a João por meio de um anjo. O livro mostra as coisas que devem acontecer em breve, isto é, o sentido do tempo presente à luz da vitória de Cristo, e não um horário de eventos. O versículo 3 traz a primeira das sete bem-aventuranças do livro: feliz quem lê e felizes os que escutam. A cena supõe uma assembleia reunida, em que um leitor proclama o texto em voz alta. O Apocalipse nasceu para ser ouvido na liturgia.

Versículos 4 a 8: saudação e louvor

João saúda as sete igrejas com graça e paz da parte da Trindade. Deus é chamado Aquele que é, que era e que vem, eco do nome revelado a Moisés (Ex 3,14). Os sete Espíritos diante do trono são entendidos, por muitos intérpretes, como o Espírito Santo na sua plenitude; outros pensam em sete anjos. Jesus Cristo é a testemunha fiel, o primogênito dos mortos e o príncipe dos reis da terra.

Segue um louvor: Cristo nos ama, nos libertou dos pecados pelo seu sangue e fez de nós um reino e sacerdotes para Deus, como se dizia de Israel no Sinai (Ex 19,6; 1Pd 2,9). Ele vem com as nuvens, e todos o verão, até os que o transpassaram, juntando Daniel 7,13 e Zacarias 12,10. Deus conclui: «Eu sou o Alfa e o Ômega» (Ap 1,8). Princípio e fim de tudo estão nas suas mãos.

Versículos 9 a 11: João em Patmos, no dia do Senhor

João se apresenta como irmão e companheiro na tribulação, no Reino e na perseverança. Está em Patmos, pequena ilha do mar Egeu, por causa da Palavra de Deus e do testemunho de Jesus. Foi arrebatado em espírito no dia do Senhor, isto é, no domingo, dia da Ressurreição. Uma voz forte como trombeta manda escrever num livro e enviá-lo às sete igrejas: Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodiceia. Eram cidades reais, ligadas por uma estrada, e o número sete faz delas também imagem da Igreja inteira.

Versículos 12 a 16: o Filho do Homem entre os candelabros

João se vira e vê sete candelabros de ouro e, no meio deles, alguém semelhante a um filho de homem, figura de Daniel 7. Cada traço é símbolo, não retrato. A túnica longa e o cinto de ouro lembram o sacerdote e o rei. Os cabelos brancos como lã evocam o Ancião de Daniel 7,9: Cristo partilha a eternidade de Deus. Os olhos como chama de fogo veem tudo. Os pés de bronze indicam firmeza; a voz como muitas águas, majestade (Ez 43,2). Na mão direita tem sete estrelas; da boca sai uma espada afiada de dois gumes, a Palavra que julga (Hb 4,12); o rosto brilha como o sol, como na Transfiguração (Mt 17,2).

Versículos 17 a 20: não tenhas medo

Diante da visão, João cai como morto. Cristo põe sobre ele a mão direita e diz: não tenhas medo; eu sou o Primeiro e o Último, o Vivente; estive morto e agora vivo para sempre, e tenho as chaves da morte e da morada dos mortos. Quem tem as chaves tem a autoridade: a morte não manda mais. João deve escrever o que viu, o que é e o que vai acontecer. O versículo 20 dá a chave: as estrelas são os anjos das sete igrejas e os candelabros são as igrejas. Se esses anjos são protetores celestes das comunidades ou seus pastores, os intérpretes divergem.

O que Apocalipse 1 ensina para a fé católica?

O centro do Apocalipse não é o medo, e sim Cristo ressuscitado, Senhor da história e presente na sua Igreja. Ele caminha entre os candelabros: não abandona as comunidades, mesmo pequenas e perseguidas. Por isso a Igreja lê o livro como palavra de esperança, e não como enigma para calcular o fim do mundo. Jesus mesmo disse que o dia e a hora ninguém conhece (Mt 24,36).

O capítulo também liga a revelação ao domingo e à liturgia. O Catecismo lembra que a Ressurreição, no primeiro dia da semana, fez dos cristãos o povo do Dia do Senhor (CIC n. 2174). E diz que o Apocalipse nos mostra a liturgia celeste da qual participamos quando celebramos os sacramentos (CIC n. 1137 a 1139). Os batizados são reino e sacerdotes: é o sacerdócio comum dos fiéis, exercido na oração, na Missa e na vida oferecida. Trechos deste capítulo são proclamados na Missa, como no 2º Domingo da Páscoa do ano C e na solenidade de Cristo Rei do ano B.

Reflexão para hoje

João escreve como irmão na tribulação. Ele não fala de longe: também sofre, também está longe de casa. Isso aproxima o livro de quem hoje passa por perda de emprego, doença na família ou solidão. A fé não promete ausência de dificuldades. Promete a presença do Vivente no meio delas.

A primeira palavra de Cristo a João, caído no chão, é não tenhas medo, acompanhada de um gesto: a mão sobre o ombro. Muitos chegam ao Apocalipse esperando sustos. Encontram um Senhor que levanta quem caiu. Vale guardar essa imagem para os dias em que tudo parece fora de controle.

A revelação aconteceu num domingo. O domingo não é só descanso nem só compromisso: é o dia em que o Ressuscitado fala à sua Igreja reunida. Ir à Missa com essa consciência muda a maneira de escutar as leituras.

Para rezar com Apocalipse 1

  • Que medo eu preciso entregar hoje ao Cristo que tem as chaves da morte?
  • Como eu vivo o domingo: como dia do Senhor ou apenas como fim de semana?
  • Acredito que Jesus caminha no meio da minha comunidade, mesmo com seus defeitos?

Sugestão de oração:

Senhor Jesus, Primeiro e Último, Vivente para sempre, põe a tua mão sobre mim quando eu cair. Tira de mim o medo e dá-me a perseverança de João. Que eu saiba escutar a tua voz no dia do Senhor e viver como sacerdote do teu Reino. Amém.

Leia também Apocalipse 2, com as primeiras cartas às igrejas, e a visão de Daniel 7, que inspira este capítulo.

Fontes

Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica; Concílio Vaticano II, Constituição Dei Verbum; Santo Ireneu de Lião, Contra as Heresias.

Perguntas sobre Apocalipse 1

O Apocalipse fala do fim do mundo e de datas futuras?

Não no sentido de um calendário de catástrofes. O Apocalipse usa linguagem simbólica para revelar que Cristo ressuscitado é o Senhor da história e para sustentar a esperança dos cristãos perseguidos. A Igreja não lê o livro como previsão de datas.

O que significa Alfa e Ômega em Apocalipse 1?

Alfa e Ômega são a primeira e a última letra do alfabeto grego. A expressão diz que Deus é o princípio e o fim de tudo, e o livro aplica o mesmo título também a Cristo.

Quem são as sete estrelas e os sete candelabros?

O próprio texto explica no versículo 20: os candelabros são as sete igrejas e as estrelas são os anjos dessas igrejas. Sobre quem são esses anjos há mais de uma interpretação: anjos protetores das comunidades ou os seus pastores.

Está lendo a Bíblia inteira? Acompanhe no Plano de leitura da Bíblia ou reze o texto com a Lectio Divina.